O amadurecimento da TV brasileira

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Dizer que a televisão brasileira amadureceu talvez seja errado. O certo talvez seja conjecturar acerca do amadurecimento da teledramaturgia, dos trabalhos de ficção. Aí sim, podemos traçar alguns paralelos e notar algumas diferenças. Isso porque se formos nos ater a programas de entretenimento ou até mesmo ao jornalismo, a TV tupiniquim ainda passa por tempos difíceis.

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A ideia para este editorial surgiu por dois motivos: o primeiro é porque a qualidade técnica e narrativa das produções ficcionais elevou-se consideravelmente. O segundo é um vídeo do ator francês Vincent Cassel em entrevista à Trip TV. Na conversa, Cassel, falando em perfeito português, afirma que a TV brasileira é “tipo uma máfia”. E ele tem toda a razão. Para Vincent, quando surgem pessoas talentosas, a TV aparece, paga bem e as prende. Para ele, os atores ficam presos, porque não há muito espaço, levando a maioria a ir trabalhar na TV. Novamente, não podemos lhe tirar a razão.

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Supermax: promessa de mudança

Cassel ainda vai além e afirma que a prisão das “novelas e minisséries” estraga a atuação. O artista fica amarrado, trabalhando muitas vezes em um ritmo intenso, tendo que apelar aos exageros para que o público se envolva com a trama e seus personagens. Em resumo, Vincent comenta que os atores se dedicam aos gritos, brigas e absurdos, perdendo a sutileza e a sensibilidade.

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E perceba que o ator falou apenas sobre outros atores, sobre o problema que encontramos nas performances e no mercado relacionado a estes artistas. Se adentrarmos em questões de roteiro e produção, a situação ainda é mais grave. Os grandes autores de novela atualmente são antigos escritores. Do grande time global de autores, por exemplo, muitos estão na estrada há décadas. O estilo segue o mesmo e o pensamento, para o bem ou mal, também. Não é à toa que os maiores sucessos dos últimos anos vêm de mentes mais jovens.

O mesmo funciona para os diretores e demais profissionais dos bastidores. Acostumados a um estilo predefinido e, de certa forma, respeitado, diretores investem nas mesmas linguagens visuais de dez ou vinte anos atrás. Se hoje a imagem que nos chega é em HD, o capricho visual muitas vezes não acompanha a tecnologia. Assim, a bola de neve só aumenta. O grande problema talvez não seja a falta de coragem, mas sim a ausência de vontade. O comodismo bateu e ficou.

Nos últimos dois/três anos, porém, as mudanças começaram a surgir mais acentuadas. Muito devido aos investimentos nos aspectos visuais dos projetos. E deixemos claro: estamos falando aqui das produções da Rede Globo, que sempre dominou e ainda monopoliza a produção da TV aberta. Se minisséries como Capitu e Hoje é Dia de Maria já caminhavam rumo a uma abordagem original e caprichada há mais tempo, projetos como O Rebu e Felizes Para Sempre chegam para marcar uma nova era na concepção do bom audiovisual.

As novidades surgem mais em projetos de curta duração, como minisséries ou especiais. Nas novelas, a caminhada é mais lenta. Tem-se investido talento e capital, por exemplo, nos capítulos iniciais dos folhetins. Todo o capricho, porém, cai por terra logo no segundo episódio, quando a pegada corriqueira e sem vida retorna. Um belo exemplo de mudança, contudo, é Velho Chico, a atual novela das 21h. Em horário nobre, a novela pode até se prender em tramas arcaicas, mas o visual é arrebatador.

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Carvalho: um dos melhores diretores da TV brasileira busca inovação.

A estética caprichada, porém, pode ser explicada na figura do diretor Luiz Fernando Carvalho. Algumas das mais belas produções dos últimos anos são dele: além das já citadas Capitu e Hoje é Dia de Maria, ele comandou A Pedra do Reino, Subúrbia, Meu Pedacinho de Chão e ainda tem no currículo o belíssimo longa-metragem LavourArcaica. Infelizmente, não são todos que têm esse esmero. E não é um projeto dirigido por ele que vai indicar alguma mudança. O que aponta novos rumos é o fato da emissora investir cada vez mais no talento dele e de sua equipe.

Outros nomes que merecem respeito e espaço são José Luiz Villamarim, Walter Carvalho e equipe. São eles os responsáveis por sucessos de crítica e público como Amores Roubados, O Canto da Sereia e O Rebu. Sem falar que Villamarim esteve por trás de obras como O Rei do Gado, Mad Maria e Avenida Brasil, sucessos importantes em suas épocas. Não nos esqueçamos, também, de Dupla Identidade e A Teia, ou então de Verdades Secretas e Felizes Para Sempre. Esta, aliás, capitaneada por Fernando Meirelles, apostou pesado em uma trama inteligente e em um visual arrojado e moderno. Para os próximos meses ainda temos Supermax, que aposta no horror para conquistar um público ainda arredio.

A Globo, porém, e suas concorrentes, devem parar de investir apenas em minisséries e especiais. Os folhetins, principalmente os das 18 e 19h permanecem estagnados. O público atual tem se acostumado cada vez mais com produções estrangeiras. Séries nunca foram tão populares como hoje. A TV à cabo e os canais de streaming como Netflix aproximaram as pessoas de projetos caprichados, desafiadores. A televisão aberta brasileira, portanto, deve correr atrás. Supermax e Velho Chico são alguns exemplos dessa vontade de mudar. Seguindo a ideia de Vincent Cassel: não deixe o talento atrofiar. Invistam em coisas boas!