O bem e o mal da Netflix

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 A verdadeira inovação não está em suprir uma necessidade, mas em criá-la. Acho que foi o Steve Jobs que disse alguma coisa parecida. Ele, melhor do que ninguém, sabia que tornar sua empresa ou produto uma necessidade que as pessoas nem sabiam que tinham, era o caminho da inovação real. Com seus produtos, a Apple estabeleceu uma nova necessidade na vida cotidiana e afetou todo mundo.

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Uma vez iniciado o caminho da inovação, outras empresas pegam o fio da meada, a aprimoram e manter-se na vanguarda passa a ser a missão dessa empresa. Hoje é a missão da Apple, que manda abraços para a Samsung.

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Quem nunca teve que desmarcar compromissos interessantes, apenas porque “naquele momento começa Friends”ou “é o último episódio antes da mid season e vai ser chocante?”! Qualquer pessoa que se diz um seriador já deu uma pausa em sua vida social para acompanhar seu show preferido.

Então, veio a Netflix e mudou tudo isso. Apostando em programação por streamming, ela colocou séries e filmes a disposição de quem pagasse uma quantia razoavelmente barata, quebrando locadoras de vídeo e tornando legal o velho hábito seriador de “baixar séries”. Uma proposta visionária, que já foi analisada até cansar por aí.

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Essa é a beleza da Netflix. Não depender da audiência padrão ligada a um horário, não se curvar a estudos demográficos ligados a hora em que estamos em frente a TV e dar as boas vindas à crescente legião, como eu e vocês, de pessoas que se acostumaram a usar a internet como nossos pais usavam a televisão.

Essa liberdade tornou ela uma empresa poderosa, que acumulou 3.3 milhões de novos assinantes no segundo trimestre de 2015, quase o dobro do mesmo período no ano passado, totalizando mais de 42 milhões de contas por streaming nos EUA e pelo menos mais 23 milhões ao redor do mundo, com planos para expansão em Portugal, Japão, Espanha e Itália.

Com esse aumento vertiginoso e tendo dado o pontapé inicial para a utilização desse jeito de assistir séries e filmes, a empresa agora entende que o período de inovação passou, e quer se manter na vanguarda do serviço que inaugurou. Apesar de aumentar sua base de arrecadação com novas assinaturas, e de suas ações terem aumentado quase 100% no último ano, ela ainda opera no vermelho.

Isso acontece porque a ambição da empresa não é só oferecer produtos de outras mídias. Ela cria produtos próprios com enorme sucesso. A qualidade de seus shows, concorrendo e vencendo prêmios em pé de igualdade com os canais tradicionais, acendeu um alerta em todos os meios de comunicação que a nova forma de “assistir televisão” iria impactar todo o mercado. House of Cards e Daredevil são provas disso. Dar nova vida a séries finalizadas com grande base de fãs, algo até então incomum, foi outra ação bem sucedida com Arrested Devolpment.

 

PopularesNetflixQuão populares? Se a companhia te diz o que assistir, isso não soa meio manipulação?

 

Então a Netflix é o novo Deus dos seriadores, certo?

Não é bem assim. Algumas práticas, como a não divulgação da real audiência de seus produtos e a nebulosidade com que corre algumas de suas negociações tornam seu real impacto difícil de se calcular com precisão. Ele é enorme, sabemos, mas quão enorme?

Em sua tela inicial, abas com títulos como “Populares no Netflix…” induzem o espectador a acompanhar os shows que a empresa determina, sem direito a ter a real consciência de quais são os mais assistidos realmente.

E sua proposta, uma vez divulgada, já foi emulada por alguns programas com um pequeno detalhe. Esses são gratuitos. O mais utilizado dele, o Popcorn Time, copia até parte do layout do canal pago, oferecendo programas com um modelo semelhante, porém gratuito e, por isso mesmo, pirata. Se o problema era a dificuldade de encontrar os arquivos piratas, ou navegar por sites pouco confiáveis, essa nova forma de assistir de graça soluciona isso.

Ficamos na torcida para essa revolução tornar mais fácil nossa difícil vida de seriadores, agora não mais reféns dos horários das emissoras, e que a Netflix e tudo que ela trará some mais ainda ao nosso vício em séries!

*Texto originalmente publicado no dia 26 de julho de 2015.