O Bom, O Mau e O Feio… tragam de volta o Western!

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Um homem sem nome, de passado desconhecido, depois de suas inúmeras ações – sejam elas boas ou ruins – cavalga em direção ao entardecer ao som de uma verdadeira obra-prima de trilha sonora. Em termos gerais, essa é a descrição para a cena final de um grande western, seja ele em sua forma mais clássica ou, como Leone e Eastwood o popularizaram nos anos ’60 (o western “spaghetti”). E é sobre o gênero dos filmes de “cowboy” e “faroeste” que vamos conversar hoje.

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Classificado por muitos dos Críticos e Teóricos de Cinema como um dos grandes gêneros Clássicos, o western é, grosso modo, uma representação envolta em fábula e romanceamento da “conquista” de um Oeste que funciona mais como uma personificação filosófica – como uma substituição/desfacelamento do antigo em detrimento do novo. Seja ele o Oeste dos Estados Unidos – onde a “conquista” do homem branco corrige a existência sem leis indígena com a expansão da fronteira da “civilização” e instauração da “lei” e da “ordem” com entendidos pelo homem branco – ou, no caso dos títulos europeus, uma fuga do já desbaratado velho mundo caótico em direção ao profético Oeste do “Novo Mundo”. Mas o gênero é muito mais do que uma tendência ao ocidentalismo.

Mesmo tendo uma produção mais residual atualmente, o western legou um verdadeiro universo de referências que são repetidas e usadas constantemente. Até mesmo uma das queridinhas de Woody Allen, a quebra da quarta parede, foi primeiro apresentada n’O Grande Assalto ao Trem, de 1903 – que também introduziu, na ficção cinematográfica, o uso de ambientes externos, movimento de câmera e montagem paralela.

Vale lembrar também que algumas noções fortemente reforçadas na dinâmica clássica de herói e vilão vieram do western – e a subversão para tais noções também. O herói hollywoodiano como o conhecemos, o “mocinho” bondoso que derrota os bandidos. Posteriormente, é também no western que o anti-herói – na figura do mercenário sem nome que aludi nas minhas linhas iniciais – se populariza, eternizando-se no imaginário e reescrevendo as possibilidades dessa noção de heroísmo.

Mas, tirando todo o papo meio técnico/fanboy sobre o gênero, estou divagando aqui por mais desse gênero. O western transformou atores, diretores e compositores em verdadeiras lendas da Sétima Arte, mas hoje está legado somente a produções residuais, que fazem alusão aos códigos de honra – como nos filmes de máfia – ou nas cenas de tiroteio espetaculares e, no caso do terror, na mistura da desolação da paisagem com confrontos apocalípticos. Contudo, o potencial de injetar novas técnicas e (re)criar certos aspectos do entretenimento ainda está presente, esperando para retornar.

Esse potencial acompanha o gênero e a própria TV desde sua popularização, e agora que a indústria chegou a um ponto crítico de saturação, com a sombra de uma nova greve dos roteiristas ainda pairando sobre nós – e claro, depois de uma maratona que envolveu Stagecoach à Imperdoável – o western em sua natureza trash, filmado em cenários únicos de saloons e cidades de rua única com elevada contagem de corpos pode ser muito interessante. Afinal, desconsideradas outras questões, a ambientação inicial de Westworld, por exemplo, com seu tom de faroeste liberal, com vilões misteriosos, tiroteios, belas mulheres e toda a liberdade sexual desejada, quando contrastada a uma distopia futurística meio cyberpunk é parte do que nos prende a série desde o instante inicial, por que então essa ambientação não é usada com mais frequência?

Enquanto nos preparamos para a Summer Season na real expectativa pela Fall Season, talvez seja interessante considerar o western como uma opção válida. Afinal, em cada duelo de pistola,  em cada busca de vingança e em cada confronto entre mocinho e bandido pode nos reservar mais surpresas do que inicialmente parece. E são surpresas que valem a pena conferir.

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Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.

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