O discreto charme das séries britânicas – Parte I

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Nos últimos anos, com o boom tecnológico e o fortalecimento dos canais pagos de TV, as séries televisivas cresceram no conceito popular. Antes, as famílias se reuniam para assistir filmes, novelas ou programas de variedades. Hoje, no Brasil e em inúmeros países, as pessoas têm como predileção os seriados. Não é de se espantar, por exemplo, que uma série renda mais comentários no Twitter do que um filme em cartaz nos cinemas. A TV cresceu e hoje é uma potência.

Neste contexto, os Estados Unidos são os mais fortes produtores de séries no mundo. Essa força fez com que os demais países repensassem seus próprios projetos. No Brasil, é visível uma mudança nas abordagens e na linguagem. As novelas curtas, geralmente exibidas no horário das 23h, ganharam espaço (O Rebu e Verdades Secretas, por exemplo, renderam mais burburinho que a novelas das 21h), e as novelas tradicionais começaram a apostar em um visual mais arrojado e uma narrativa evocativa. É nítida a tentativa de se aproximar do formato seriado americano. Veja A Regra do Jogo, cujos capítulos possuem títulos; algo inédito em nossas terras, mas convencional nas obras estrangeiras.

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Um bom seriador, porém, não pode se dedicar apenas aos projetos estadunidenses. É preciso guardar espaço para outras produções. Você não precisa assistir uma atração feita no interior da Bielorrússia, mas algumas boas séries britânicas, por exemplo, são essenciais. Os programas da terra da Rainha possuem formatos diferentes e características próprias, além de um charme único. As atuações, o roteiro, o humor, o visual. Tudo é muito característico deles, os britânicos – e americano nenhum – pode mudar isso. O pessoal do outro lado do oceano, aliás, tem muito a nos ensinar.

Uma das melhores características das séries britânicas é que muitas delas são baseadas na literatura local e mundial. Não é raro ver grandes clássicos ganhando vida em luxuosos projetos. A maioria de seus seriados possuem poucas temporadas, de poucos episódios cada. As comédias possuem um humor próprio e os dramas um ritmo bem característico. Para as adaptações, o formato cai como uma luva, já que um livro de tamanho razoável precisa de mais ou menos quatro horas para ser fielmente levado às telas. Nada de excessos e muito menos episódios vazios e sem propósito. Cada minuto é precioso e cada hora é um avanço na trama.

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Um dos melhores exemplos é Luther. Protagonizada por Idris Elba e produzida/transmitida pela BBC, a série policial traz John Luther, um detetive com passado obscuro que parece sempre à beira de um ataque de nervos. Investigando crimes e perseguindo bandidos que buscam um embate físico e intelectual com ele, Luther percorre as ruas de Londres sempre sob um céu nublado. Com três temporadas que variam de quatro a seis episódios cada, Luther possui capítulos ágeis, bem escritos e dirigidos como se fossem produções cinematográficas. Não há tempo a perder e cada episódio tem a pegada de uma season finale.

Já falamos sobre a série e suas versões literárias aqui. Um especial, feito para encerrar a história, chegará às telas em 17 de dezembro. São dois episódios que serão exibidos em sequência em apenas uma noite. Caso ainda não conheça, corra para assistir. Luther, série e personagem, possui uma intensidade que muitas produções norte-americanas demoram para alcançar. Se você não está habituado ao padrão britânico, Luther é uma ótima forma de começar.

Um clássico literário que volta-e-meia é readaptado no cinema ou na TV é Great Expectations (Grandes Esperanças, no Brasil). Escrito por Charles Dickens, a obra ganha releituras de tempos em tempos. Algumas se mantêm fiéis, outras mudam personagens e até mesmo a época em que a história se passa. Uma das melhores versões é a minissérie homônima produzida em 2011. No clássico, Pip é um órfão que é amigo de Estella, filha da senhorita Havisham, diretora de um orfanato. Pip é um garoto pobre que, quando adolescente, descobre ser herdeiro de uma grande fortuna. Ele só receberá a herança, porém, quando completar 21 anos e não poderá, em hipótese alguma, tentar descobrir a identidade de seu benfeitor. Pip então vai a Londres, no intento de reencontrar Estella.

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As qualidades técnicas da produção são incríveis. Os figurinos são lindos e a direção de arte faz inveja em qualquer superprodução cinematográfica. No comando, Biran Kirk, um dos diretores de Game of Thrones e Boardwalk Empire. No papel principal, Douglas Booth, jovem ator que vem conquistando a indústria e o público aos poucos. É uma adaptação irretocável de um clássico absoluto. Fiel às páginas e, principalmente, ao espírito de Dickens, Great Expectations está longe da monotonia ou do melodrama. Caso tenha dúvidas se vai assistir ou não, aqui vai dois pontos cruciais: além de ser uma síntese dos bons dramas de época ingleses, a minissérie traz Gillian Anderson no papel de uma insana Havisham.

Outro clássico a ganhar as telas inglesas foi The Musketeers, baseada no clássico de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros. A série, renovada para terceira temporada, busca atualizar a trama sem tirá-la de sua época habitual. A BBC resolveu inserir mais ação e humor e criar novas alternativas para as ideias clássicas de Dumas. O resultado deu certo. O show comprova a primazia técnica do canal e se sai bem por não se estender em tramas e personagens, já que possui poucos episódios. A primeira temporada conta com Peter Capaldi no papel de vilão. O ator teve que abandonar a série para ser, apenas, o Doctor Who.

O assunto é tão amplo que não para por aqui. Na próxima parte, falaremos sobre outros clássicos como Sherlock, teremos espaço para mágicos, parteiras e também abordaremos o fascínio dos britânicos por detetives e muito mais.

*Texto originalmente publicado no dia 09 de novembro de 2015.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

1 comment

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    Ana Miranda 13 novembro, 2015 at 22:46 Responder

    The Musketeers é vida! Fotografia, trilha, roteiro… E o cast? O que dizer do cast? EXCELENTE, apenas! Atores talentosíssimos, de um nível técnico impecável. Fica até difícil mencionar um só. The Musketeers é aquele tipo de série que não deve nada para as séries americanas. Pra mim, a produção da BBC One é o melhor produto para TV do clássico de Dumas. Quem não assistiu, assista! Tudo é tão surpreendente!

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