O discreto charme das séries britânicas – Parte II

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Vez ou outra uma série britânica faz um sucesso maior do que o esperado, sendo venerada por milhões ao redor do mundo e deixando os conhecidos seriados norte-americanos de lado. É o caso de Sherlock, provavelmente o programa mais popular da BBC. O sucesso do projeto se dá por vários motivos, que rendem um texto completo só para ele. Começamos pelo elenco: Benedict Cumberbatch e Martin Freeman formam a dupla perfeita. Com uma química invejável, a dupla desperta uma confiança na audiência, que jamais dúvida da verdadeira amizade entre os dois. Essa relação sólida já é um grande ponto para o sucesso da empreitada.

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Outro fator é a releitura incisiva dos personagens e suas histórias, mas sem esquecer o espírito dos textos de Arthur Conan Doyle. Ao trazer Holmes e Watson para os dias atuais, Mark Gatiss e Steve Moffat, os criadores, atualizam as clássicas histórias com tecnologias e contextos contemporâneos. Adaptar e permanecer, de certa forma, fiel, é um dos grandes acertos de Sherlock. Ainda que respeite os grandes arcos originais, como a relação com Moriarty, a série ainda encontra espaço para surpreender. Conhecer as versões literárias, portanto, não impede que os espectadores se surpreendam com as inteligentíssimas tramas criadas pelos roteiristas.

Sherlock, aliás, sintetiza quase tudo o que há de extraordinário da televisão britânica. Além das temporadas curtas e dos episódios longos (90 minutos cada, que parecem passar num piscar de olhos), o programa também não tem datas fixas para ir ao ar. Quem é fã, sabe: hiato de dois anos ou mais são recorrentes, o que permite que toda a equipe possa trabalhar com mais tempo para entregar um material de qualidade para o público. Além disso, estão lá o elenco bem afiado, o texto bem escrito e fiel ao material original e a qualidade técnica irrepreensível.

Sherlock, inclusive, ressalta uma paixão dos britânicos: os detetives. Se você acha que os estadunidenses são os maiores amantes das séries policiais e investigativas, está enganado e precisa conhecer os programas do outro lado do Atlântico. São inúmeros os shows que acompanham detetives particulares, policiais, equipes especializadas. E o mais legal é que tudo foge do que comumente vemos nas séries americanas. A polícia britânica, dos uniformes ao modo de agir, é diferente; o juizado britânico é completamente distinto (eles ainda usam aquelas perucas clássicas!). E isso dá um charme único às histórias. Além disso, o cenário é completamente único. Saem Nova York e Chicago, entram Londres e as mais interessantes e pouco conhecidas cidadezinhas do Reino Unido.

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Aqui mesmo já falamos sobre Luther e a fantástica Wallander, que se passa na Suécia, embora seja produzida na Terra da Rainha. Wallander tem os mesmos moldes de Sherlock: temporadas com três episódios de 90 minutos cada. Protagonizada por Kenneth Branagh, o programa acompanha Kurt Wallander, um detetive depressivo e solitário que investiga os casos mais violentos e misteriosos da Suécia. A fotografia é linda (outra marca registrada dos shows britânicos) e os trabalhos de direção dos episódios são impecáveis, coisa de cinema. A última temporada estava em processo de filmagens, mas não tem data de estreia programada.

Outro exemplar é Ripper Street, projeto interessantíssimo da BBC que traz detetives investigando os mais estranhos casos na Inglaterra da época de Jack, o Estripador. O famoso serial killer, aliás, é o pontapé inicial para a série. O protagonista, interpretado por Matthew MacFadyen, depois de não conseguir capturar Jack, tenta seguir com a vida e o trabalho buscando limpar as sujas ruas londrinas. Ainda que não seja baseado em nenhum livro específico, a série se debruça em casos reais da época, como o famoso Homem Elefante. Outra que pega o embalo do Estripador é Whitechapel, cuja primeira temporada acompanha as investigações de crimes cometidos por um imitador de Jack nos dias atuais.

Não podemos deixar de citar, também, Poirot, baseada no clássico personagem e livros escritos por Agatha Christie. No ar desde 1989, a série acompanha um dos personagens mais conhecidos da escritora. Aparecendo em mais de 40 livros, Hercule Poirot só pode ser comparado a Sherlock Holmes, tamanha sua importância dentro e fora das páginas. Dono de um bigode bem desenhado, Poirot é extravagante e pouco modesto, além de metódico e inteligentíssimo. A décima-terceira e última temporada foi ao ar em 2013, encerrando um dos maiores marcos da televisão britânica.

Agora é a vez delas

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Uma série pouco conhecida pelo grande público e que merece atenção é Call the Midwife. O que faz do programa imperdível é a impecável recriação de época e a fluidez da narrativa. Você suspeitaria que uma série sobre parteiras poderia render alguma coisa? Pois rende e o resultado é elogiável. Investindo na simplicidade dos fatos e na naturalidade dos personagens, as histórias se desenrolam de forma leve, sempre ressaltando paralelos com o mundo contemporâneo. Call the Midwife, afinal, se passa em uma época próxima a nossa, quando o mundo parecia se transformar em diversos níveis de forma gritante.

O programa aliás, trata dessa evolução em diversos setores da sociedade. A série é em si uma revolução: povoada por mulheres, o show traz personagens independentes e fortes, ressaltando a força feminina em um universo notavelmente machista. O seriado já acerta ao trazer as parteiras não como mulheres que ocupam tal cargo por este ser supostamente destinado a elas. Elas são enfermeiras e parteiras não por este ser o seu espaço, ou o serviço mais fácil e feminino; pelo contrário, a independência das personagens surpreende e a força de cada uma é elogiável. O bacana é que Call the Midwife retrata as mulheres quase que como heroínas, sem, com isso, inseri-las em contextos masculinos ou, pior, torna-las personagens masculinizados.

O show é baseado na trilogia literária escrita por Jennifer Worth, uma enfermeira e musicista que colocou no papel suas memórias como parteira de East End nas décadas de 50/60. Worth em si, assim como sua versão das telas, é uma mulher elogiável. Envolvida com literatura, música, medicina e ativismo, a “midwife” buscava e conquistava espaço em um país ainda fechado e em reconstrução após a guerra. Em comparação ao sucesso Downton Abbey, a série se sai ainda melhor, já que toca em assuntos polêmicos de forma leve sem cair no novelão melodramático.

Entre o romance e a fantasia

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Os britânicos também são românticos e, como dissemos na primeira parte deste especial, adoram um clássico. Jane Austen, por exemplo, já foi adaptada em luxuosas minisséries. Orgulho e Preconceito teve uma conhecida adaptação em 1995 e Razão e Sensibilidade ganhou as telinhas em 2008. A escritora Charlotte Brontë também teve um romance adaptado pela BBC: Jane Eyre ganhou vida em 2006, com Ruth Wilson, de Luther e The Affair, no papel principal. Outro romance grandioso é Parade’s End, baseado na obra de Ford Mardox Ford e com Benedict Cumberbatch na linha de frente. Outra história de amor e guerra é Birdsong, baseada no romance homônimo de Sebastian Faulks. De todas estas, a melhor talvez seja Birdsong, que traz Eddie Redmayne e Clémence Poésy como protagonistas.

Uma das últimas superproduções da BBC é Jonathan Strange & Mr. Norrell, baseada no romance de Susanna Clarke. Trata-se de uma fantasia que acompanha os dois personagens-título em uma intensa luta para decidir qual o melhor mágico do país. O programa é tecnicamente impecável: os efeitos especiais e a direção de arte rivalizam com as maiores superproduções de Hollywood. Se você acha que Game of Thrones é a série mais bem-feita da TV, repense, pois a BBC tem uma candidata a altura. São mundos mágicos, seres extraordinários, romance e mistério, tudo com as Guerras Napoleônicas como pano de fundo. Imperdível!

Na terceira e última parte deste especial, falaremos sobre as novas séries britânicas que chegarão em breve à TV.