O estranho e o maravilho, ou porque esperar pela fantasia

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

 

Recentemente, numa conversa de fim de noite, um amigo mencionou Labirinto – A Magia do Tempo, filme de 1986 que é estrelado por David Bowie. E embora essa traquinagem meio musical, meio aventura e beeem trash seja um título que, provavelmente, a maioria dos leitores nunca se quer tenha ouvido falar, foi esta menção que me levou a uma maratona que incluiu O Homem que Caiu na Terra (1976) e resultou na ideia que se transformou neste Editorial.

Na verdade, por mais excêntrica que uma conversa que racionalmente inclua Labirinto possa ser, o todo daquela discussão legou-me uma ideia fixa, daquelas que simplesmente não pode ser ignorada. Discutíamos a maneira com que algumas categorias estéticas são empregadas na TV e no Cinema; e é claro que não vou entrar em longos e entediantes detalhes sobre categorias estéticas, assunto que provavelmente não interessará a vocês.

Contudo, quando olhamos para hits dos últimos anos, como Game of Thrones, Dirk Gently e até Doctor Strange, é difícil não pensar no quanto a fantasia permeia a nossa ficção cotidiana e no quão desregrada ela acaba sendo. Afinal, a magia e os elementos de fantástico sempre rendem – quando bem utilizados e com um conjunto de regras delimitado – bons acréscimos a qualquer história. Upside Down e os poderes de Eleven, por exemplo, ajudaram a mover a estória em Stranger Things para além de toda a nostalgia e em direção a uma segunda temporada que promete brilhantismo.

É a sensação de pura hesitação. É um não fazer sentido completo, e mesmo assim nos compelir a continuar. Essa incerteza baseada naquilo que pode se esconder nas sombras, ou nas possibilidades que poderes que ultrapassam a realidade é o que instiga o espectador. Afinal, enquanto o fantástico – pelo menos aquele de qualidade – nos envolve, sempre haverá dúvida; nunca podemos realmente confiar nas nossas deduções e, às vezes, nem naquilo que nos é mostrado.

Entretanto, vale sempre lembrar que falar de fantástico não é uma desculpa para avanços que resultem em um conjunto de Deus Ex-Machinas que vão além do absurdo ou em tramas feitas de puro desleixo, onde falta qualquer organização e nega-se tudo aquilo que foi previamente estabelecido com rapidez e facilidade. O fantástico não é uma desculpa para se criar e “descriar” regras todas as vezes que um problema surge.

É claro, como é  com toda regra (e embora isso implique consequências), é sempre possível quebrar, ir contra aquilo que se postulou. E quando isso é feito de maneira correta, até o irracional pode funcionar para situar a fantasia. As regras que podem e devem existir junto à fantasia servem não só para limitar, mas para fornecer argumento. Afinal, não é aleatório que obsidiana seja cobiçada no norte de Westeros: ela mata os Caminhantes Brancos. Não é aleatório que Lothlorien e Rivendell tenham prosperado na Terceira Era da Terra Média: era lá que estavam os anéis de poder que Sauron não corrompeu. Ao mesmo tempo (e tirando uma ou outra situação), no universo criado por J.K. Rowling, magia sem varinhas é instável, complicada e quase sempre desastrosa para os bruxos, por isso ela não é praticada. O Doctor, mesmo tendo em sua TARDIS acesso ao todo do tempo e do espaço a sua disposição, obedeça a certas regras que, quando ele as quebra, geram reverberações são temíveis. São os limites daquilo que pode ser feito que permitem criar e aprofundar tanto a mitologia de itens e comportamentos, muitas vezes icônicos, através da ficção.

Então, seja você um amante de um fantástico leve, que é obscuro, desacreditado e cheio de consequências – que lida com poderes basicamente esquecidos/deixando de lado fora dos círculos praticantes, como vemos em Game of Thrones – ou de uma magia de estardalhaços, com um preço alegado, mas de regras facilmente contornáveis (vide Once Upon a Time), e até mesmo do bom e velho trash (Os Aventureiros do Bairro Proibido – agora na Netflix – mandam lembranças), não deixe nunca de observar, de esperar pelo fantástico; ele é uma terra de possibilidades onde tudo está interligado, onde muito e mais um pouco sempre podem (ou não) acontecer. Seja pelo maravilhoso, pelo estranho ou pelo absurdo, a fantasia é o lugar de encontros e desencontros de todo tipo de imaginário; pensando assim, é um lugar bom demais para passar despercebido, não acham?

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Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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