O Estúdio (Apple TV+) – Seth Rogen entrega a comédia mais afiada de 2025 | Crítica

Se você achava que já tinha visto de tudo quando o assunto era sátira sobre Hollywood, prepare-se para O Estúdio (The Studio), nova série da Apple TV+ comandada por Seth Rogen. A produção, uma das melhores estreias do ano, é tão hilariante quanto dolorosa – um retrato ácido, desajeitado e absolutamente envolvente dos bastidores da indústria cinematográfica. Não há super-heróis, nem catástrofes. O que está em jogo aqui é bem mais caótico: egos, vaidades, expectativas artísticas e… crises de branding.

Criada por Rogen ao lado de Evan Goldberg, Alex Gregory, Peter Huyck e Frida Perez, a série é filmada com uma crueza quase documental e nos coloca direto dentro de uma panela de pressão chamada Continental Studios, um conglomerado fictício que vive à base de apostas milionárias e decisões corporativas bizarras. Mas diferente do glamour que geralmente é vendido sobre Hollywood, aqui tudo é desconforto – do tipo que faz você rir envergonhado, cobrir os olhos e, ainda assim, querer ver até o fim.

Um anti-herói corporativo que só quer fazer bons filmes

No centro da história está Matt Remick (Seth Rogen, afiadíssimo), um executivo recém-empossado como CEO do estúdio. Ele é rico, poderoso e tem acesso a Scorsese e Ron Howard com um simples telefonema. Mas nada disso o blinda da tragédia de seu próprio idealismo: Matt ama cinema de verdade. Ele fala de Sarah Polley com reverência e trata seu trabalho como se estivesse liderando uma revolução artística. A ironia é que, no mundo em que vive, isso é quase um defeito.

Rogen constrói Matt como um homem à beira de um colapso – alguém que quer ser amado pelos artistas, respeitado pelos acionistas e lembrado como um bastião da arte em meio à selva do streaming. O problema é que ninguém parece levar essa missão a sério, nem mesmo sua própria equipe. O resultado? Um looping constante de humilhações corporativas, decisões desastrosas e tentativas desesperadas de conciliar arte e dinheiro.

O riso que vem do desconforto

Se em comédias tradicionais o riso surge do timing e do carisma dos personagens, O Estúdio aposta em algo mais radical: o riso do constrangimento. E nisso, ela acerta em cheio. A câmera acompanha Matt por corredores estreitos, reuniões tensas e telefonemas improváveis com long takes quase claustrofóbicos. É como se estivéssemos presos dentro de sua ansiedade – e o efeito é tão sufocante quanto hilário.

Os momentos mais engraçados da série, aliás, são também os mais dolorosos. Como quando Matt tenta resolver uma questão de representatividade no elenco de um blockbuster e acaba envolvido numa crise ainda maior com inteligência artificial. Ou quando precisa lidar com um marketing de filme que entra em colapso por falta de bom senso básico. Em todas essas situações, O Estúdio nos lembra: fazer cinema não é só difícil – é um milagre.

O Estúdio tem Elenco afiado e dinâmicas que funcionam

Além de Rogen, o elenco de apoio brilha com força. Chase Sui Wonders entrega uma performance cínica e cativante como Quinn, a assistente que enxerga tudo com um misto de frustração e desdém. Kathryn Hahn, mesmo com pouco tempo de tela, rouba a cena como a diretora de marketing Maya, uma figura tão obcecada por “tendências” que parece saída de um meme. Já Ike Barinholtz surge em seu melhor papel até agora como Sal, o VP de produção festeiro e completamente disfuncional.

Catherine O’Hara, sempre impecável, vive Patty, mentora de Matt e ex-executiva do estúdio, uma mulher que viu a arte ser engolida pela máquina corporativa e hoje observa tudo com o amargor de quem já perdeu a batalha. É por meio desses personagens que a série costura, com elegância, uma crítica ao presente da indústria e uma saudade romântica do passado.

Uma carta de amor… e desespero

O Estúdio é, acima de tudo, uma comédia que entende profundamente o que está satirizando. A série pode ser ácida, crítica e até cruel, mas ela nunca despreza o amor pelo cinema. Pelo contrário: ela entende que muitos desses executivos, mesmo que perdidos, também são fãs. Em uma das cenas mais tocantes, Matt assiste Os Bons Companheiros pela milésima vez e encontra ali um refúgio – uma lembrança de por que entrou nesse jogo em primeiro lugar.



Essa dualidade – entre cinismo e sonho, sarcasmo e emoção – é o que torna O Estúdio tão especial. Em vez de pintar Hollywood como um antro de vilões, a série mostra pessoas reais tentando fazer o impossível em um sistema que constantemente sabota suas intenções. A arte, aqui, é sempre uma batalha.

Veredito sobre O Estúdio

O Estúdio é desconfortável, sim. Mas também é brilhante, necessário e absurdamente engraçado. Em meio a um mercado saturado de comédias fáceis e sátiras que miram alto mas acertam pouco, a série de Seth Rogen e companhia se destaca como um retrato ácido e honesto do cinema nos dias de hoje.

Entre reuniões constrangedoras, falas cortantes e personagens tragicômicos, a série acerta em cheio ao mostrar que o verdadeiro drama de Hollywood não está apenas nas telas – mas nos bastidores, onde sonhos, planilhas e egos colidem todos os dias.

Nota: 10/10



O Estúdio (Apple TV+) – Seth Rogen entrega a comédia mais afiada de 2025 | Crítica
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.