Um dos elementos mais aterrorizantes de O Eternauta, série da Netflix baseada na HQ argentina de Héctor Germán Oesterheld, é também o mais silencioso: a neve. Logo no primeiro episódio, Buenos Aires — em pleno verão — é atingida por uma nevasca branca e aparentemente inofensiva. Mas, ao tocar na pele humana, os flocos causam morte instantânea. Um cenário apocalíptico que confunde tanto os personagens quanto o público.
Mas por que, afinal, a neve em O Eternauta mata? A explicação envolve ciência, ficção e, principalmente, uma estratégia de guerra alienígena.
A teoria magnética de Favalli: neve ou radiação?
Assim que a tragédia se instala, o engenheiro elétrico Favalli — amigo de Juan Salvo — propõe a primeira hipótese plausível. Após notar que todas as bússolas da casa pararam de funcionar ao mesmo tempo, ele suspeita de uma alteração no campo magnético da Terra. Para ele, o problema não está nos instrumentos, mas no planeta.
Essa ruptura no campo magnético teria desestabilizado os cinturões de radiação de Van Allen, que normalmente protegem a Terra de partículas solares perigosas. Sem esse escudo natural, partículas radioativas carregadas de energia teriam despencado na superfície do planeta. E é aí que surge a nevasca: o que cai do céu não é neve, mas radiação condensada em forma de flocos, letal ao menor contato com a pele.
Segundo Favalli, esses flocos são altamente perigosos ao cair, mas perdem parte de sua energia ao atingir o chão — o que explica por que roupas contaminadas não matam, mas o contato direto com a neve sim.

A neve como arma de guerra em O Eternauta
Se a teoria científica já é assustadora, ela piora quando se descobre o verdadeiro responsável: uma força alienígena invasora. Ao longo dos episódios, Juan e os sobreviventes encontram insetos gigantes, humanos controlados mentalmente e uma entidade misteriosa chamada A Mão, que parece coordenar todo o ataque.
A neve, então, deixa de ser apenas um fenômeno climático ou uma consequência cósmica. Ela se revela como a primeira fase de um plano estratégico de extermínio em massa, cuidadosamente arquitetado pelos alienígenas. Manipulando os polos magnéticos da Terra, os invasores desencadeiam a queda dos flocos radioativos como forma de eliminar rapidamente a maior parte da população — sem usar um único tiro.
A falsa calmaria
Em um momento da trama, a neve simplesmente para. A ausência da nevasca parece dar um respiro aos personagens — mas logo fica claro que é uma armadilha. Os alienígenas interrompem a “neve mortal” quando começam a dominar mentes humanas, transformando pessoas como Clara e Lucas em soldados manipulados. Ao parar o ataque aéreo, eles protegem seus novos aliados e abrem espaço para a fase dois: a conquista através do controle mental.
Assim, a neve serve a um duplo propósito: dizimar os que não podem ser controlados e facilitar o avanço dos que foram convertidos. Um plano meticuloso, silencioso e cruel — impossível de ser detectado até que seja tarde demais.


Uma crítica disfarçada
Como muitos elementos de O Eternauta, a nevasca é também uma metáfora política. Escrita originalmente em uma Argentina mergulhada em regimes autoritários, a HQ usou a ficção científica para denunciar formas invisíveis de opressão. A neve branca e aparentemente pura que mata sem aviso representa a violência disfarçada do poder, que age de forma silenciosa até tomar o controle total.
Em O Eternauta, a neve que mata não é natural — é a primeira linha de ataque de uma invasão alienígena. Ela simboliza a perversidade de um plano bem arquitetado, que começa pela destruição silenciosa e evolui para o domínio mental. Por trás do horror apocalíptico, há uma crítica potente sobre manipulação, fascismo e o valor da resistência.