O Falsário parte de um ponto de partida irresistível: a vida de Antonio Chichiarelli, um dos maiores falsários da história da Itália, envolvido com arte, crime organizado e alguns dos momentos políticos mais sombrios dos anos 1970. O problema é que, mesmo evitando os clichês mais comuns das cinebiografias, o longa acaba tropeçando justamente onde deveria brilhar: na força dramática de sua própria história.
Uma trama rica que perde impacto no tom
Dirigido por Stefano Lodovichi, o filme acompanha Toni, um pintor talentoso que deixa sua cidade natal rumo a Roma ao lado de dois amigos, cada um buscando um futuro diferente. Enquanto um segue o caminho religioso e outro se envolve com o movimento operário, Toni mergulha no submundo da arte, onde passa a usar seu talento não para criar, mas para falsificar obras e documentos a serviço de interesses políticos obscuros.
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No papel, tudo isso soa fascinante. Na tela, porém, a narrativa parece excessivamente preocupada em explicar seus conflitos em vez de deixá-los acontecer. O roteiro opta por um tom sério e carregado desde o início, mas não sustenta essa escolha com tensão suficiente. O resultado é um filme que fala muito, mostra pouco e raramente permite que o espectador se conecte emocionalmente com o protagonista.

Política, arte e crime que nunca se encontram de verdade
Um dos maiores problemas de O Falsário é a dificuldade em equilibrar seus temas. O longa flerta com o thriller político ao abordar o sequestro de Aldo Moro e a manipulação do medo em torno das Brigadas Vermelhas, mas nunca assume totalmente esse gênero. Ao mesmo tempo, a reflexão sobre arte e falsificação, que deveria ser central, acaba ficando em segundo plano, quase como um detalhe narrativo.
A sensação é de que o filme tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo: drama histórico, romance, conspiração política e estudo de personagem. Nenhuma dessas camadas, no entanto, recebe o desenvolvimento necessário para realmente impactar. Em vários momentos, a história parece andar em círculos, criando uma atmosfera de paranoia que não se traduz em tensão dramática real.
Direção segura, mas pouco inspirada
Visualmente, O Falsário tem seus momentos. As reconstituições de época são cuidadosas, e algumas tomadas abertas de Roma ajudam a situar o espectador no contexto histórico. Há também sequências específicas, como um assalto no terço final, que mostram um filme mais ousado e até divertido tentando emergir.
O problema é que essas cenas funcionam mais como exceção do que como regra. Grande parte do longa se apoia em diálogos extensos, ambientados em espaços fechados, filmados de forma pouco criativa. A direção parece confortável demais, deixando escapar oportunidades de usar a linguagem visual para enriquecer a narrativa.
Atuações corretas, mas sem brilho
O elenco faz o básico. Pietro Castellitto, como Toni, carrega o peso do filme, mas nunca encontra o tom certo para tornar o personagem verdadeiramente complexo ou fascinante. Giulia Michelini e os coadjuvantes têm pouco espaço para se destacar, mesmo sendo fundamentais para o arco dramático do protagonista.
Nada é especialmente ruim, mas também nada se destaca. Em um filme que depende tanto da força de seus personagens, essa apatia geral acaba sendo fatal.
Vale a pena assistir O Falsário?
O Falsário não chega a ser um desastre, mas é profundamente frustrante. A história real por trás do filme é muito mais intrigante do que a versão apresentada pela Netflix. Para quem gosta de dramas históricos e tem curiosidade pelo período, pode valer como experiência pontual. Ainda assim, fica a sensação de que essa história merecia mais ousadia, mais ritmo e, principalmente, mais alma.