Não se engane pela posição de O Jardineiro no Top 10 da Netflix. Apesar de ter conquistado o público na marra — ou na base do hype injustificável —, a série espanhola é uma verdadeira enganação disfarçada de thriller.
Parece uma mistura genérica de Dexter com Bates Motel, mas sem a profundidade psicológica, a tensão narrativa ou qualquer senso de direção visual. O que sobra é um drama raso, mal atuado e visualmente preguiçoso que parece se arrastar sem propósito por seis episódios que facilmente poderiam ter sido resumidos em um curta-metragem (ou nem isso).
Um enredo que planta… e não colhe nada
A trama de O Jardineiro gira em torno de Elmer, um jovem que perdeu a capacidade de sentir emoções após um acidente na infância, e sua mãe China, que transforma essa limitação do filho em um negócio de assassinato sob medida — matam pessoas sob encomenda e usam os corpos como adubo para flores raras.
A premissa, que até poderia render um bom suspense psicológico, é tratada com tanta superficialidade que tudo soa caricato. Pior ainda: repete clichês de thrillers com complexos de Édipo, “mães controladoras” e “filhos emocionalmente instáveis” que já foram melhor explorados em dezenas de outras produções.
A tentativa de trazer uma estética sombria e provocativa naufraga em um mar de diálogos mecânicos e situações absurdas. O romance entre Elmer e Violeta, que deveria ser o motor da virada dramática, não tem química nem consistência. A relação entre mãe e filho, por sua vez, oscila entre o bizarro e o ridículo, sem jamais alcançar densidade emocional.


O Jardineiro tem personagens vazios e atuações apáticas
A atuação de Cecilia Suárez como China beira o insuportável: seu olhar arregalado constante e seus discursos pseudo-profundos tornam a personagem quase uma caricatura de vilã de novela. Alvaro Rico, como Elmer, entrega uma performance apática que talvez fosse intencional, já que o personagem “não sente emoções”, mas que na prática apenas reforça o tédio. O resto do elenco cumpre o básico — quando muito — e não consegue compensar o roteiro pobre.
Pior ainda é o núcleo investigativo, com os detetives Carrera e Torres em uma subtrama que parece desconectada do resto da história. O casal, além de completamente ineficiente, protagoniza cenas de adultério sem qualquer função narrativa. Aparentemente, era para funcionar como crítica social disfarçada. No fim, não passa de mais um desvio gratuito que atrasa a já arrastada narrativa.
Uma estética de catálogo genérico
Visualmente, O Jardineiro é igualmente esquecível. A direção de arte parece saída de um banco de imagens gratuito. Não há identidade visual marcante, nem ambientação que crie tensão. A fotografia é insípida, a montagem confusa, e os cortes não ajudam a dar ritmo à narrativa. É como se os criadores realmente achassem que tinham um roteiro tão “impactante” que poderiam abrir mão de caprichar no resto.
O que resta?
No fim das contas, O Jardineiro tenta ser um drama sombrio e provocativo, mas acaba sendo apenas pretensioso e vazio. É mais um exemplo de como o algoritmo da Netflix, às vezes, premia quantidade de visualizações com destaque — não qualidade. Se você está buscando um bom thriller psicológico ou policial, passe longe desta série. Existem opções infinitamente melhores e mais inteligentes disponíveis na própria plataforma — e até um documentário sobre tomates seria mais envolvente.
Veredito: O Jardineiro é a prova de que um Top 1 não quer dizer absolutamente nada. Uma série que planta a ideia de ser sofisticada, mas colhe apenas frustração.