O meu, o seu, o nosso, o de ninguém… e a Internet

Imagem: Richard Gonçalves

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Atenção! A nossa próxima atração é uma produção independente. As informações nela expressas são de total responsabilidade do desordeiro sarcástico que as escreveu.

Então, nos encontramos de novo. Contudo, nosso encontro dessa semana, além de inesperado, decididamente será tão ou mais inconvencional quanto o anterior. E começamos por esse conjunto perturbador de bits que encabeça o post, esse verdadeiro mischief que me custou algumas horas de esforço e erro para lembrar as poucas lições de CorelDRAW, trocentos anos atrás – nas quais, claramente, eu não prestei a atenção necessária.

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Claro que não vou entediar vocês com os detalhes do que nos levou até aqui, direi apenas que há eventos acontecendo ao fundo que desencadearam reflexões e, por conseguinte, desencadearam a imagem e o texto. Mas vou esclarecer qual será a nossa divagação de hoje: vamos falar sobre propriedade – e liberdade – na Internet.

Antes de qualquer coisa, quero retomar algo que disse no Editorial da semana passada. Este também é só mais um Editorial, cheio dos mesmos absurdos de sempre, só que, como no texto anterior, sem maiores intenções de pregar, canonizar ou apregoar doutrinas absolutas ou quaisquer máximas que possam, mesmo que remotamente, chamarem para si o peso da “Verdade” – conceito tão discutível na conjectura de “pós”-modernidade que vivemos que chega a ser risível se preocupar com ele. Novamente, não se trata de atribuir rótulos ou levantar questões de valor ou moralidade; é apenas uma coleção de notas feitas, como a minha linha de abertura apresenta, por um desordeiro sarcástico. E é o rótulo de desordeiro que mais me agrada no texto. Porque método e desordem são grande parte do meu – e, acredito, de muitos da minha área – processo criativo. Também, quando confrontados por uma situação que é mais do que desordem, é pura confusão e o componente das áreas “cinzas” da moralidade, parece ser a melhor forma de tratar do assunto.

Passado por esse “entretanto”, ainda há outro antes podermos partir para os “finalmentes”. Ao trazer “propriedade” – e, portanto, Direito – para o assunto, o leitor mais sério ou interessado – do I really have those? – ou até o mais crítico pode questionar como ou por qual motivo me proponho a falar sobre algo tão enraizado em discussões de cunho legal quando eu não tenho propriedade (formação) para tal. Mas, como a Internet dá a todos – e é por aqui que a coisa começa a ficar densa – certa liberdade, peço a indulgência do leitor para ir até o fim.

Agora vêm os detalhes mais complicados. Porque o meu argumento sobre o texto conflita com o próprio texto, transformando essa numa metalinguagem bem confusa – e complexa. Sendo assim, mesmo que eu tenha me comprometido em fazer desse um texto menos “formal”, algumas noções desse tipo sobreviveram. Afinal, o meu uso da língua(gem) carrega certos vícios que, mesmo me policiando, sobrevivem.

É fato que a Internet, com ou sem o anonimato – que geralmente é o que mais chama a atenção nessas discussões – dá a todos o espaço para ser crítico, sociólogo, filósofo, cruzado e tudo o mais, independente das inclinações ou conquistas acadêmicas. E não me entendam mal! Eu também faço uso, por vezes até verborragicamente, desse status quo meio “wastelands” meio “ligaram o f#da-se” que a Internet cria e tem e, tendo feito esse uso por muito tempo, sem me preocupar com muitas questões – e com o grosso do argumento desse texto – com as quais me preocupo atualmente. Mesmo assim, ainda não é a falta de preocupação com essas questões – não só as legais, mas as éticas e as de todas as outras naturezas – que me trouxe até aqui. Afinal, estamos aqui pelas propriedades. Ou melhor, sobre até onde podemos delimitar uso e propriedade em meio a miríade de arquivos que compõe a Internet.

Um verdadeiro clichê, vinculado sempre que algum ataque cybernético/vazamento de dados comprometedores – ou quando algumas emissoras fazem aquelas matérias sobre “segurança” na web – é dizer que quando uma coisa é colocada na rede, é impossível removê-la. Contudo, clichê ou não, essa é uma verdade. Quando Barthes (1973) descreve o intertexto, ele descreve também a conjuntura do que são os dados na internet atualmente.

Da mesma forma que o “intertexto é um campo geral de fórmulas anônimas, cuja origem é raramente localizável, de citações inconscientes ou automáticas”, também é a Internet. Independente de prints, disclaimers, políticas de privacidade e tudo o mais, é quase impossível atribuir origem – e, portanto, propriedade – para as coisas. Seja do meme que viralizou ou do comentário ácido feito num impulso, há uma quebra entre a mensagem e quem a produziu. Se o leitor me permitir ir mais além e adensar essa confusão um pouco mais, se tomarmos outra das afirmações de Barthes (1984), escrever é destruir toda a voz, toda a origem. E, para ir além, criar e tornar pública qualquer produção é adentrar numa zona em que autoria e propriedade se perdem.

Ficou muito denso? Resolvo. Quando fazemos alguma coisa – um texto, uma imagem, um comentário e até um like ou deslike – na realidade da Internet, esse ambiente em que o preto e branco do que é propriedade pública e privada se desfaz, os limites do que podemos ou não clamar se desfazem também. E não, não estou aqui querendo partir para a pura anarquia, e tirar o direito a autoria de ninguém. Por mais absurdas e cansativas que sejam, cada uma dessas mil e poucas palavras são um arranjo meu.

Não me atrevo a dizer que são criações minhas, não só pelas referências, mas porque uso as mesmas combinações de substantivos, verbos, adjetivos, advérbios e outras classes de palavras que todos usam cotidianamente. Então sim, tanto o trazer desse arranjo ao mundo quanto a forma dele são  de autoria minha. Entretanto, nada mais é. O que vocês fizerem com o texto uma vez que clico “Publicar” foge do meu controle. E como cada um de vocês ressignificará e talvez vinculará o que foi dito aqui só cabe vocês decidir.

E agora vou encerrar essas insanidades. Não por ter completado a discussão, mas por ela ter perdido o tom de coloquialidade que queria para ela. Além do mais, denso ou não, a mensagem é a mesma e ela está entregue. Não estou chamando um levante, nem encorajando o plágio e todas as outras ações de violem liberdades e direitos. É muito importante reconhecer, respeitar e SEMPRE vincular as informações de autoria de todo e qualquer material, da mesma forma que não estou negando a necessidade de PENSAR – e pesar as responsabilidades e consequências envolvidas – antes de fazer uso de qualquer produção, mesmo que os limites do que é “seu” ou do “outro” sejam muito tênues.

Mas não podemos esquecer que a lei escrita tanto tempo atrás não levava em conta a pluralidade que Internet criou, porque no fim dos anos 90’, quando uma lei para Direitos Autorais foi feita, nem nos sonhos mais insanos se imaginava uma sociedade tão imersa nessa hiperrealidade projetada de si mesmo e retratada pelo eterno buzz com que convivemos todos os dias. E por mais sombria que possa parecer toda a situação, tanto ela quanto os materiais reclamados, e até mesmo esse meu falatório gigantesco perdurarão, pois os arquivos sobreviverão. Mas no fim, o espaço ocupado por eles será ocupado por novas coisas, oriundas desse fluxo constante e inesgotável de informação a que somos expostos. E mesmo as coisas vistas que não se imaginariam e tudo o mais, “todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva”.

P.S.: Claro, não se trata de um artigo acadêmico e enfatizo, não levem nada do que escrevo a sério se vocês não quiserem, principalmente porque do meio para o fim essa traquinagem ficou meio muito densa. Contudo, fiz alusão e citei algumas coisas muito específicas que têm suas fontes facilmente localizáveis. Por isso, seguem as referências:

  • SAMOYAULT, Tiphaine. A intertextualidade. Trad. Sandra Nitrini. São Paulo: Aderaldo e Rothschild, 2008. p. 23-24.
  • BARTHES, Roland. A morte do autor. In: ______. O Rumor da língua. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1984.
  • BLADE Runner. Direção: Ridley Scott. Produção: Michael Deeley. Intérpretes: Harrison Ford; Rutger Hauer; Sean Young; Edward Ward; James Olmos e outros. Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples. Música: Vangelis. Los Angeles: Warner Brothers, c1991. 1 DVD (117MIN), Color. Produzido por Warner Video Home.

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