A mais nova série de sucesso da Netflix, “O Monstro de Florença” (Il Mostro), chegou com força total — e já ocupa o Top 1 do streaming.
Dirigida por Stefano Sollima (Suburra, ZeroZeroZero), a minissérie italiana revive um dos casos criminais mais perturbadores da história da Itália, mas faz isso de uma forma diferente: em vez de apenas reconstituir os assassinatos, ela mergulha no coração de uma sociedade dominada pela masculinidade tóxica, repressão sexual e violência como herança familiar.
A história: entre o desejo e o horror
Ambientada na Florença dos anos 1970 e 1980, a trama de O Monstro de Florença se desenrola em meio a uma sequência de crimes brutais cometidos por um assassino que ficou conhecido como “O Monstro de Florença” — um serial killer que atacava casais em locais isolados, usando sempre a mesma arma, uma pistola Beretta calibre .22.
Mas, ao contrário de produções policiais tradicionais, Sollima não transforma a investigação no centro da narrativa.
Aqui, a pergunta não é apenas quem é o assassino, e sim como a sociedade cria monstros como ele.
Os protagonistas Stefano (Marco Bullitta) e Salvatore (Valentino Mannias) são o reflexo desse dilema. Ambos vivem em meio a uma cultura de dominação masculina — onde ser homem significa ser violento, controlador e incapaz de demonstrar afeto.
Enquanto Stefano é frágil, submisso e reprimido, Salvatore representa o oposto: é o “macho alfa”, agressivo, sexualmente dominante, mas igualmente infeliz. A ironia é que ambos amam homens, mas são incapazes de aceitar isso em um mundo que os força a viver escondidos.

Uma série sobre monstros — de carne e osso
Em “O Monstro de Florença”, Sollima amplia o conceito de “monstro” para além do assassino que aterroriza a cidade. O verdadeiro horror não está apenas nos crimes, mas na forma como o patriarcado molda cada personagem.
Os pais ensinam os filhos que “homem de verdade não chora”, que “se quer uma mulher, deve tomá-la à força”, e essa lógica perversa se repete geração após geração.
O resultado é um ciclo de violência, frustração e abuso que sufoca todos — homens e mulheres.
Em certo ponto, a série mostra como a masculinidade doentia se transforma em cárcere: há pais que trancam esposas e filhas em casa, maridos que aceitam ser traídos por submissão e homens que destroem o que amam por medo de parecerem fracos. É nesse cenário que os assassinatos acontecem — como se fossem uma manifestação física desse colapso moral.
A mulher no centro do labirinto
Apesar de focar na psicologia masculina, a série encontra seu eixo emocional em Barbara (Francesca Olia), uma mulher que vive os efeitos da brutalidade masculina em todos os níveis: é traída, manipulada e usada como moeda de poder entre os irmãos Stefano e Salvatore.
A história dela é a representação daquilo que a série denuncia — um sistema que ensina as mulheres a se adaptar à violência, e não a combatê-la.
Mesmo assim, Barbara nunca é retratada como fraca. Há uma inquietude em sua trajetória — um desejo de escapar, de sentir algo verdadeiro — que torna suas escolhas complexas e desconfortáveis.
O estilo Sollima: entre a arte e o desconforto
Com pouco mais de quatro horas de duração, O Monstro de Florença combina estética impecável e tensão psicológica. Sollima, conhecido por seu olhar cru sobre poder e corrupção, filma a Florença dos anos 70 com uma beleza sombria: ruas úmidas, interiores sufocantes, corpos enquadrados entre sombras e espelhos — tudo reforça a sensação de aprisionamento.
A série alterna entre erotismo e horror, mas sem o glamour de thrillers comuns. Há cenas de nudez e violência que incomodam, e é proposital: Sollima quer que o espectador sinta o peso do desejo e da culpa.
Se há uma crítica justa, é que a série por vezes repete demais sua mensagem — o machismo, o controle e a repressão estão em cada cena, e isso pode tornar o ritmo cansativo. Ainda assim, o conjunto é potente: um retrato sufocante de uma época (e de uma mentalidade) que, de muitas formas, ainda ecoa hoje.
Mas afinal, quem é o Monstro de Florença?
O enigma central permanece sem resposta — e isso é intencional. A série deixa claro desde o início que o verdadeiro monstro não é apenas o assassino que empunha a arma, mas todos aqueles que contribuíram para um ambiente de violência e silêncio.
Ao final, um texto revela que os assassinatos pararam quando Salvatore desapareceu. Coincidência? Talvez. Mas Sollima não quer entregar um culpado, e sim uma reflexão:
“Em uma sociedade que ensina os homens a dominar e as mulheres a se calar, o monstro pode estar em qualquer um de nós.”
Veredito: um drama sombrio e necessário
“O Monstro de Florença” é um thriller poderoso, incômodo e profundamente humano. Mais do que um retrato de um crime real, é um espelho da violência invisível que molda relações e destrói vidas.
Com atuações intensas, direção impecável e uma crítica feroz à masculinidade repressiva, a série não é fácil de assistir — mas é impossível de ignorar. E talvez esse seja o maior mérito de Sollima: transformar um caso policial em uma reflexão brutal sobre o que é ser homem, amar e odiar em um mundo que não perdoa fraquezas.
“O Monstro de Florença” está disponível na Netflix e ocupa o Top 1 mundial da plataforma.