Piloto de The Get Down tem problemas, mas agrada no geral!

Imagem: Mix de Séries

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Ter longos 90 minutos é o trunfo e o problema do piloto de The Get Down. Se o primeiro capítulo tivesse apenas 50 minutos, a estreia seria um desastre. Com uma hora e meia, contudo, o resultado geral agrada. Ainda assim, é um episódio longo e pesado, que exige atenção e boa vontade do espectador. Não se engane: The Get Down começa bem e parece promissora, mas o piloto custa a engrenar e o roteiro sofre para colocar todas as peças do tabuleiro sem criar uma pequena confusão. É o velho problema de qualquer estreia: muita gente e muitas tramas para apresentar. O trunfo, então, está na duração, que permite um desenvolvimento satisfatório.

The Get Down é a história clássica do jovem sofrido que, com talento, passa por poucas e boas até atingir o sucesso. Aqui, o (anti)herói é Ezekiel, jovem morador do Bronx que, na década de 1970, vê sua região viver como se estivesse em zona de guerra. Baz Luhrmann, diretor australiano famoso por Moulin Rouge, Romeu + Julieta, O Grande Gatsby, faz questão de frisar esse isolamento do Bronx em relação ao restante de Nova York. No início, ao mostrar a Big Apple através de uma maquete gigantesca, o diretor já estabelece a distância geográfica e social do lugar. É lá, numa região em ebulição, no ápice da disco, que Ezekiel começa a crescer como homem e artista. É onde, também, nasce o hip-hop.

O grande problema do piloto de The Get Down é tentar abraçar o Bronx inteiro de uma vez. Como se não bastasse apresentar jovens e suas famílias, Luhrmann e sua equipe ainda decidem inserir políticos, gângsteres e uma pá de outros expoentes do local. Sempre que se concentra em Ezekiel e sua saga em busca do amor e do reconhecimento, Get Down se sai muitíssimo bem, sendo um drama com toques de aventura e musical que agradam. Quando mistura tramas e insere mais personagens do que pode dar conta, a série se perde. Quando Papa Fuerte, personagem de Jimmy Smits, surge na tela, o show parece perdido, sem saber qual história contar. Além disso, o piloto traz Shao, um dos principais personagens, aparecendo de relance, como uma lenda onírica, em grande parte do episódio. É só na reta final que tudo se conecta e as coisas melhoram, fazendo sentido.

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Luhrmann orienta os jovens atores no set de The Get Down.

Muitos destes problemas podem ser colocados na conta do criador e diretor Baz Luhrmann. Isso porque o cineasta é conhecido por querer abraçar o mundo em suas produções. Seus filmes, de Rouge a Gatsby, são uma mistura de gêneros e estilos que às vezes funcionam e outras decepcionam. Suas obras, sem exceção, boas ou ruins, sempre buscam experimentar as mais diversas abordagens. Austrália é um épico dramática com doses cavalares de romance, algumas cenas de ação e toques de humor. Moulin Rouge, no bom sentido, é um carnaval. A câmera é frenética, e o elenco e roteiro acompanham esse ritmo absurdamente acelerado.

Em The Get Down, Luhrmann parece não ter mudado. Todas as suas características mais conhecidas, boas ou não, explodem na série. Além de experimentar gêneros, o diretor parece não querer deixar a câmera parada. Quando não abusa de zooms e travellings, Luhrmann utiliza cortes constantes, closes, enquadramentos inventivos e mais uma porção de artifícios visuais para emular uma energia parecida a de Amor em Vermelho. Assim, a série é uma experimentação constante, algo realmente novo na TV. The Get Down, por exemplo, não é um musical, mas tem muita música e momentos dedicados ao canto e à dança. É um musical, mas não é. É uma biografia, mas não é. É um dramalhão, mas não é. É romance, mas também não é.

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Tecnicamente, The Get Down é impecável. Como todos os projetos de Luhrmann, o visual da série salta aos olhos. Get Down já é considerada uma das produções mais caras da história da TV, e toda a grana parece ter sido bem investida. A riqueza de detalhes na direção de arte irrepreensível é absurda. Não é exagero afirmar que a recriação de época vista na série é uma das melhores já vistas na televisão, rivalizando com qualquer superprodução do cinema, inclusive. A construção dos sets, as locações, as cores, tudo faz com que a experiência se torne mais imersiva e envolvente. A qualidade é tanta que passamos a gostar do Bronx e no sentirmos nostálgicos mesmo sem ter vivido a época e visitado a região.

Além da direção de arte, os figurinos são irretocáveis. Frutos de uma intensa pesquisa, as roupas são tão críveis, ricas e detalhadas que The Get Down parece uma produção tirada diretamente dos anos 70. Toda essa qualidade técnica ainda é coroada por uma fotografia que valoriza dos ensolarados dias e as intensas e coloridas noites do Bronx. E se Baz Luhrmann merece ser repreendido em alguns pontos, merece elogios e redenção em outros. Todo o capricho e qualidade pode ser notada pelo fato de que o diretor sabe o que filmar e como filmar. Luhrmann tem a geografia bem estabelecida e trabalha com o Bronx como se este fosse um imenso palco de um espetáculo. Ele sabe o que mostrar e que pontos visitar para que o cenário se torne, também, um personagem.

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Para completar, é preciso elogiar o elenco reunido para a série. Essencialmente formado por jovens sem experiência na área da atuação, o elenco de The Get Down é uma soma de acertos e talentos notável. Como se não bastasse o time jovem, o show ainda se sai admiravelmente bem ao escalar os ótimos Giancarlo Esposito e, principalmente, Jimmy Smits. Este, se bem desenvolvido, pode ser um dos personagens mais interessantes e com uma atuação digna de prêmios. Talento, o ator tem de sobra.

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Ao fim, The Get Down agrada. Tem alguns problemas, é verdade, mas a maioria é consertada no próprio piloto. Particularmente, o início e o término focados em Ezekiel já famoso são completamente descartáveis. Além de inchar ainda mais um episódio já longo e cheio de informações, as cenas estragam parte da experiência. O show basicamente conta a história de Ezekiel, assim, seria mais interessante vermos sua jornada sem saber o resultado. Seria mais emocionante acompanharmos tudo no escuro, com a possibilidade de tudo dar certo ou errado. Com as sequências descartáveis da década de 1990, o público já sabe o fim da história: o jovem do Bronx atingiu o sucesso. Com o final já definido, resta a The Get Down mostrar uma caminhada impecável ao topo.