O piloto de Wayward Pines

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Depois de atingir rapidamente o sucesso no cinema, M. Night Shyamalan chegou ao fundo do poço. Depois de conquistar o universo cinematográfico com O Sexto Sentido, de 1999, e continuar surpreendendo com Corpo Fechado (um dos melhores filmes de super-heróis já realizados) e Sinais, o diretor e roteirista começou a dividir público e crítica com A Vila e entregou uma série de fracassos com A Dama na Água, Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra. Não podendo mais descer (o fundo do poço já havia aparecido), Shyamalan teve de se reinventar; para isso, migrou para TV, a casa das ideias que recebe muita gente de braços abertos.

Eis que surge Wayward Pines. Baseada em uma trilogia escrita por Blake Crouch, Pines é considerada uma minissérie que pretende explorar a insanidade de uma comunidade aparentemente isolada do mundo. Wayward Pines é o primeiro projeto que Shyamalan se envolve e que não é escrito por ele. Todas as suas outras obras ou são originais ou adaptadas pessoalmente de outras mídias. Assim, o diretor tenta voltar aos poucos aos holofotes, desta vez apostando no texto de outra pessoa e entregando apenas seu talento como diretor.

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E que talento! Shyamalan é um cineasta sensível, com total domínio técnico sobre seus projetos. A construção cuidadosa de Sexto Sentido e os detalhes e rimas de Corpo Fechado, por exemplo, mostram o quão talentoso e atencioso ele é. Em Wayward Pines não é diferente: com total liberdade para ser “estranho”, Shyamalan pode apostar todas as fichas em uma ambientação pesada, soturna e misteriosa, recheada de personagens estranhos e multifacetados. Não é à toa que a série vem sendo comparada à Twin Peaks. Mas seguremos os ânimos: Pines ainda está no início e muito longe do patamar de Peaks. Além disso, ainda que mergulhada em estranheza, a nova série da Fox tem a sua própria identidade e seus próprios mistérios.

Mistérios, aliás, que movem a trama. O próprio Shyamalan e roteiristas já afirmaram que os segredos serão revelados e explicados até o final da minissérie. Ninguém descarta porém a renovação para uma segunda temporada; ainda assim, a ideia é que o mistério principal se desenrole até o fim do primeiro ano. Pra começar: o que é Wayward Pines. A questão não é onde a cidadezinha fica, mas o que ela é. Além disso, porque Ethan está envolvido neste mistério? O que seus problemas psicológicos têm a ver com a situação? Qual o envolvimento de um de seus parceiros no caso? Aparentemente, um de seus colegas pagou por um serviço que envolvia um seqüestro e eventual cárcere na tal Wayward Pines. Ainda é cedo para afirmar, mas o palpite é que Wayward é um lugar feito para abrigar pessoas que “precisam” desaparecer. Caso alguém precisa sumir, os responsáveis pelo “projeto Wayward” sequestram, fazem uma lavagem cerebral nas pessoas e as liberam para viver sob supervisão na pequena cidade isolada do resto do mundo.

 

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Algumas pistas já foram soltas: em certo momento, Ethan é tratado como um “experimento”, tendo um código numérico que o identifica; além disso, outras vítimas parecem confundir datas e informações, resultado de possíveis experiências, cirurgias e remédios que possivelmente buscam limpar a memória e criar um novo indivíduo; há, também, o momento explícito onde um personagem dá a entender que “pediu” para que o acidente com Ethan acontecesse. É uma série de mistérios, todos interessantes, que são muito bem apresentados e cuidadosamente desenvolvidos. É preciso, porém, que os roteiristas tenham cuidado com cada um destes segredos; o público anda um tanto cansado de tantas perguntas sem respostas. Lost, que é referenciada logo na primeira cena, já calejou a audiência de mistérios e perguntas atrás de perguntas. É necessário que se tenha um bom equilíbrio entre o que se exige do espectador e o que se entrega. Muitas dúvidas e poucas certezas podem afastar o público.

De qualquer forma, Wayward Pines tem tudo para ser um evento memorável. Além da direção carregada de suspense e loucura de Shyamalan, o elenco é notável; a começar por Matt Dillon, talentoso ator do cinema que sabe muito bem construir um personagem cheio de camadas, que pode ir da serenidade à explosão raivosa em questão se segundos. Além dele, o projeto está repleto de coadjuvantes de luxo: a vencedora do Oscar Melissa Leo surge como a enfermeira do mal, enquanto Terrence Howard, visto recentemente em Empire, aparece como o desconfiado xerife de Wayward. Além deles, ainda temos Juliette Lewis (que parece sempre se envolver em projetos que tenham subtramas envolvendo insanidade e descontrole) e Toby Jones, que parece ser o diretor do tal experimento. Além disso, a série aposta em uma fotografia que investe em pouca e luz e cores neutras, com o céu sempre nublado e a sensação de que os pinheiros e as montanhas são grades naturais de uma perigosa prisão.

Últimas observações:

#1 – Há uma fala durante o episódio que me intrigou bastante: “Eu SEMPRE acreditei em você”. A frase é dita por Beverly, personagem de Lewis, e dá a entender que eles já se falaram antes. O “sempre” me fez imaginar que eles já se encontraram outras vezes, mesmo que Ethan não lembre. E em todas as vezes Beverly acreditou na história de Ethan. É possível que Ethan esteja vivendo em um ciclo, e que toda a vez que ele lembra quem ele é e de onde vem, sua memória é apagada de novo. Posso estar imaginando demais, mas a ideia de ciclo que não acaba é interessante e lógica no contexto da série.

#2 – “Mas a esposa dele recém o perdeu, não é possível que ele esteja desaparecido por muito tempo”, você pode pensar. Pois é, mas quem disse que as cenas da família de Ethan acontecem ao mesmo tempo em que os acontecimentos em Wayward? É possível que as sequências envolvendo a esposa e filho do agente sejam flashbacks.

#3 – A sensação que tive é que todos enganam e todos são enganados em Wayward Pines. É possível que até mesmo a enfermeira e o xerife sejam cobaias em Pines.

#4 – Alguns dos próximos episódios são dirigidos por diretores experientes que já comandaram capítulos importantes de Dexter, House of Cards e Hannibal.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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