O que há de melhor: um balanço do último ano

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O último Editorial do ano faz um balanço do que aconteceu de melhor – e de pior, claro – nos últimos meses. Este, contudo, não é o último Editorial de 2016, mas sim o que encerra o período 2015/16. Como já explicado algumas vezes aqui no site, o ano televisivo vai de 1º de junho até 31 de maio. É este o período que os votantes do Emmy consideram para eleger os melhores da TV. Assim, a televisão encerra mais uma etapa; no primeiro dia de junho, um novo ano começa. A summer season dá o pontapé inicial em uma nova leva de estreias e retornos. Não é à toa, por exemplo, que os upfronts (quando os canais anunciam seus novos projetos) acontecem em meados de maio. É como se os executivos, produtores, roteiristas e toda a galera televisiva tornasse maio em dezembro e resolvesse revelar as novidades para um novo ano.

A primeira pergunta que fica é: este foi um bom ano? Em diversos níveis, sim. Como todos sabemos, a TV se encontra em sua “era de ouro”, e assim deve continuar por um bom tempo. Assim, os canais investem cada vez mais em projetos ousados e diferentes. É claro que, com a grande quantidade de estreias, muita coisa não dá certo. De todo modo, os canais seguem tentando, e isso é elogiável. Se comparado a período 2014/2015, o ano 2015/2016 também se sai bem (talvez até melhor). No ano passado, a TV ainda contava com a força de séries consagradas. Mad Men, por exemplo, estava em sua última temporada; ainda estavam lá Downton Abbey e Homeland, com certo respeito.

Agora, contudo, as estreias e as séries “outsiders” parecem ir aos poucos conquistando espaço, e isso é fantástico. Sem a concorrência de shows como Mad Men e Breaking Bad, novos projetos podem brilhar, tanto na audiência quanto em premiações. Séries antes prestigiadas, hoje encontram-se apagadas (como Homeland) e os “pequenos” têm chances de crescer. O último ano, portanto, pode ser marcado como aquele onde as forças do streaming crescerem ainda mais e as séries “menores” puderam brilhar. E quando falo “menores” não me refiro a programas completamente desconhecidos, mas sim aqueles que encontram-se um tanto fora do radar “público/crítica/prêmios”.

Neste sentido, séries como The Leftovers chamaram atenção de quem acompanha a TV. Foram vários os sites e mrrobotjornalistas que apontaram o projeto da HBO como um dos melhores do ano. Em destaque também estão The Knick, Penny Dreadful, Hannibal, Outlander, Orphan Black, Transparent, Billions, UnReal, Wayward Pines, Sense8 e, claro, Mr. Robot. Quando você poderia imaginar que uma série como Mr. Robot faria sucesso com a audiência e ainda seria cotada a diversos prêmios. É a prova do que este texto aventa: o último ano foi o das grandes estreias e do crescimento de quem tinha pouca força. Todas as séries recém citadas se saíram, narrativa e tecnicamente falando, melhor que as respeitadas Downton e Better Call Saul, só para citar alguns exemplos.

Com o término de Breaking Bad, Mad Men, Downton, The Good Wife, entre outras, novidades tendem a ganhar cada vez mais espaço na grade dos seriadores e espectadores casuais. Analise o histórico televisivo e note como as grandes séries geralmente começam e terminam juntas, como em ciclos. The West Wing e The Sopranos disputavam prêmios e elogios no início da década passada, Six Feet Under, 24 e The Shield começaram todas no mesmo ano; Breaking Bad, Mad Men e Damages também chegaram às telas no mesmo período, enquanto The Wire e ER davam seus últimos suspiros. Percebem como tudo parece cíclico? Grandes obras-primas estreavam enquanto outras davam adeus. Será que estamos passando por um novo momento de renovação? Com o encerramento de tantas grandes séries e o surgimento de outras tantas, é de se pensar.

Para completar, séries já bem estabelecidas como House of Cards e Game of Thrones entregaram temporadas praticamente impecáveis nos últimos meses. A primeira teve seu melhor ano desde a estreia e a segunda, da HBO, ainda não acabou, mas já entregou cinco episódios sensacionais, indicando que a sexta temporada pode ser a melhor do programa até aqui. Além disso, fazia tempo que não víamos tantas minisséries/antologias tão boas. É quase impossível escolher apenas cinco destaques: 11.22.63, American Crime Story, Fargo, Flesh and Bone, Show me a Hero, The Night Manager, London Spy, além dos breves retornos de Sherlock e Luther.

Separamos alguns pontos que representam o último ano e que merecem menção mesmo passando despercebidas pelo grande público.

the leftoversO crescimento de quem sempre mereceu a grandeza…

Como comentado anteriormente, o último ano pode ser lembrado principalmente por ser aquele onde as pequenas séries se destacaram, mesmo que em um seleto grupo de pessoas. Enquanto o sucesso comercial está ao lado de alguns, a qualidade está nas mãos de outros. O que The Leftovers atingiu com seu roteiro delicado e The Knick com seu visual impecável, nenhum show de sucesso alcançou. Hannibal se despediu do público com um visual irretocável e cheio de simbolismo, provando que nem sempre a audiência está do lado da qualidade. Séries pequenas como UnReal, Billions e Mr. Robot surpreenderam pela qualidade narrativa e pelo elenco poderoso. Sense8 mostrou-se amável e universal. The Americans, Penny Dreadful e Orphan Black, já há alguns anos em exibição, não deixaram a peteca cair e continuaram suas belas ascensões.

…e a grandeza de quem sempre a teve.Game of Thrones

Ainda assim, não podemos nos esquecer de séries já há muito estabelecidas que também fizeram bonito. Este também pode ser lembrado como o ano em que House of Cards e Game of Thrones tiveram suas melhores temporadas. Mas não só, Grey’s Anatomy também voltou a surpreender e a conquistar o público depois de uns tempos instáveis. Empire, Modern Family, NCIS, The Big Bang Theory têm duas coisas em comum: continuam sendo sucesso absolutos, mas a qualidade não acompanha. Vale apontar o crescimento do império de Dick Wolf, que faz de suas “Chicagos” sucessos de público calcados em bons roteiros e personagens e The Good Wife e Downton Abbey, que se despedem bem, ainda que longe do brilho de outrora.

Hulu, Amazon e outros canais de streaming entram na briga pela audiência

Comentei neste editorial o crescimento do império do streaming. Hoje, Netflix, Amazon e Hulu, apenas para citar alguns, detêm uma importante parcela do bolo, assustando grandes canais de TV que veem seus elencos e equipes migrarem para as plataformas online. O território, antes dominado pela Netflix, hoje já tem espaço para outros canais: a Amazon recentemente se destacou com The Man in the High Castle e a Hulu com 11.22.63 e The Path.

people-v-oj-simpson-american-crime-storyO poder das minisséries e antologias

Os votantes do Emmy terão uma difícil tarefa ao indicar e escolher a melhor dentre as minisséries e antologias lançadas este ano. 11.22.63 é uma maravilha da Hulu que adapta o impecável romance de Stephen King; American Crime Story é uma das melhores coisas que a TV lançou nos últimos meses, ponto! Fargo retornou e provou novamente ser um dos programas mais belos e inteligentes da televisão; Flesh and Bone é um banho de ousadia e originalidade; Show me a Hero aproveitou a liberdade da TV para abordar uma história delicada e complexa; The Night Manager trouxe o luxuoso mundo dos espiões para as telinhas enquanto London Spy trouxe uma versão não tão glamourosa deste mesmo universo. E ainda temos um episódio lindo e fresquinho de Sherlock e dois capítulos de Luther. Ufa! E olha que a lista segue e não para por aqui!

Revivais, adaptações e sequências

Era questão de tempo para que a mania do Cinema chegasse a TV. Essa ânsia de ressuscitar antigos projetos ou de criar sequências parece interminável na TV. 2015/16 talvez não seja precisamente o ano que marca o ápice de produções deste tipo, mas talvez seja aquele que começou de uma vez por todas com a mania. As promessas de revivais para as próximas temporadas são assombrosas. Adaptações, então, são inúmeras, sejam de filmes, HQs, livros e até mesmo outras séries (falei sobre isso aqui). Pode ser um indício para falta de originalidade/criatividade? Talvez. Fiquemos de olho!

A despedida de Gravity Falls e a força das animações

Você deve estar se perguntando o motivo deste Editorial trazer um parágrafo para animação e, pior, para Gravity Falls, desenho pouco conhecido em nossas terras. Bem, para começar, Gravity Falls é uma das melhores animações dos últimos anos (como você pode ver aqui) e você deve dar mais atenção aos cartoons. Regular Show e Hora de Aventura são duas das séries de comédia mais engraçadas em exibição. Grandes franquias têm adotado cada vez mais os desenhos para contar outras histórias e uma prova disso é Star Wars Rebels, indispensável para os fãs da saga. Gravity Falls, contudo, representa um ponto importante dentre as animações. A série, que terminou em 2016 com uma finale impecável, mostrou que é possível criar uma história intrincada e uma mitologia rica através da animação. Ninguém precisa de atores para surpreender o público ou fazer graça.

Making a Murderer e a popularização do documentáriomaking

Making a Murderer é um soco no estômago. Não, melhor: é um chute, ou até mesmo um tiro. Escrevi um Editorial só sobre o projeto (que pode ser lido aqui) e desde então o impacto não passou. O que está na tela é realidade, e não ficção, e isso é absolutamente assustador. Com Making, os documentários parecem ter começado um promissor caminho na TV. Além da Netflix sinalizar para uma segunda temporada do programa, bem como a produção de novos projetos, outros canais parecem ter se interessado pelo gênero. A HBO é um canal que tem investido em documentários: depois de The Jinx, a empresa ainda investiu em docs na forma de filmes, como o ótimo Scientology and the Prison of Belief. Para o mês de junho a ABC traz o documentário O.J.: Made in America, produção elogiada em festivais que chega em capítulos na emissora.

A música e a TV

A música sempre esteve fortemente ligada a TV, seja através de programas de variedades e realities, como o sucesso inesgotável de The Voice, ou através de trilhas sonoras e canções para as séries de ficção. E 2015/16 trouxe alguns belos exemplares no ramo musical: a começar por Tuyo, canção de Rodrigo Amarante para a abertura de Narcos. E o que falar de Love Crime, composição original de Siouxsie Sioux para a finale de Hannibal? E não nos esqueçamos de Obsession, canção de abertura de Flesh and Bone, na voz de Karen O. Ainda vale apontar a eletrônica trilha original de The Knick, as composições de Gustavo Santaolalla para Making a Murderer e o tenso tema de abertura de Wayward Pines.

Screen-Shot-2015-08-31-at-6.01.34-AM-1-e1441019514360O fim de um era…

Séries premiadas e notáveis como Downton Abbey, Sons of Anarchy e The Good Wife chegaram ao fim. Os encerramentos dividiram a público, mas não apagaram seus importantes legados. Ainda tivemos as finales de Banshee e Castle além da despedida da pouco conhecida Wallander. Alguns destes programas marcam o fim de uma importante era na TV, que ainda contava com Breaking Bad e Mad Men.

…e o que está por vir

O futuro é promissor. A maioria das séries citadas neste texto tem um brilhante caminho a trilhar. Mr. Robot e Sense8 são apenas algumas delas. The Leftovers retorna em breve para sua temporada final enquanto The Knick ainda não foi renovada oficialmente, embora os roteiristas trabalhem em um terceiro ano. House of Cards ainda tem muita lenha para queimar, bem como Orange is the New Black, Game of Thrones e tantas outras. Fora as brilhantes estreias do último ano, ainda temos muitas outras programadas para os próximos meses. Respire e fique feliz, pois a TV continuará reinando por um bom tempo.

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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