O revival de Gilmore Girls precisa mesmo de uma continuação?

Imagem: Hollywood Reporter

Recentemente saiu uma declaração do Chefe de Conteúdo da Netlflix, Ted Sarandos, dizendo que as negociações sobre uma segunda parte do revival de Gilmore Girls, Gilmore Girls: A Year In the Life, estariam em estágio inicial (leia a notícia aqui).  Pronto. Foi o suficiente para a internet cair e as pessoas pirarem entrando num debate que assombra fãs  e  críticos desde a exibição do revival e de declarações vaguíssimas de criadores e elenco sobre uma continuação. Isso sem contar o final com aquelas quatro palavras que ainda ouço quando fecho os olhos – muito talvez pelo corte seco que encerrou aquela maratona.

Mas, gente, eu não vou começar pela resposta à pergunta do título. Até porque enquanto pensava neste texto não a tinha e continuo não a tendo agora que começo a escrevê-lo. A pergunta fica ecoando na minha cabeça, me pergunto silenciosamente se “precisamos de um continuação do revival de Gilmore Girls?” e chego até a me sentir mal. Oras, logo eu, tão fã declarada e assumida, que se lembra até hoje de onde estava e o que fazia quando a notícia do revival pela Netflix foi anunciada. Logo eu que acordou mais cedo, remarcou compromissos e estava prontinha na frente do computador às 5h50 do dia 25/11/16 para dar início à maratona de quase 6h30. Logo eu, defensora ferrenhas dos Palladinos e das garotas Gilmore, aquela que reconheceu os erros, aceitou – e fez – críticas na mesma intensidade que arranjou argumentos para refutá-los. Sim, logo eu que de tão fã talvez saiba que não se mexe no que ficou (quase) perfeito.

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Não é do ano passado a onda de revivals e remakes que tem assolado as telas da tv aberta e dos serviços de streaming. É só parar para olharmos as grades. Inclusive, a gente aqui do Mix já até falou sobre isso em outros tempos. O que se sabe é que os revivals são impulsionados pela audiência, que traz anunciantes, que traz dinheiro. São os fãs com aquela vontade de ter mais e mais que piram com a reles notícia do início de uma possibilidade. É assim com todo e qualquer revival, variando na intensidade do frisson do fandom.

OK. E sobre essa continuação do revival de Gilmore?

O meu lado de fã apaixonada e maravilhada gostaria muito de ver como as garotas Gilmore lidariam com uma nova fase que foi sugerida em GG: AYITL. O revival veio com a proposta de nos dar a chance de finalizar uma jornada abruptamente interrompida e nos deu o fechamento necessário de um ciclo na vida das garotas. E como em todo ciclo que se encerra, um outro começa – o desfecho de “Fall” (1×04) nos indicou isso. Ao longo dos episódios acompanhamos as três garotas lidando com o luto pela morte de Richard e as vimos, cada uma em seu tempo, lidando com suas próprias adversidades. Para Emily foi reconstruir uma vida em que ela não era mais um casal e reconstruir uma família. Para Lorelai foi se estabilizar com Luke. Para Rory foi se redescobrir profissionalmente. Tivemos todos esses fechamentos e ao final nos foram colocadas novas possibilidades para a vida das três.

Imagem: Indiewire

Ali, naquele episódio final, tivemos uma Emily se reinventando e traçando novos modos de vida, muito certa do que não queria mais. Tivemos uma Lorelai disposta a se arriscar mais ao expandir os negócios. E, talvez o que mais nos tenha surpreendido, tivemos uma Rory grávida e em vias de publicar um livro sobre a sua história e a de sua mãe. “Gilmore Girls” sem o artigo (meus olhos até encheram de lágrimas aqui).

Então já que nos foram colocadas essas novas possibilidades, essa indicação para um novo ciclo, nada mais justo do que uma continuação do revival, não é mesmo? A gente precisa saber o que Emily tem feito da vida. A gente precisa saber se a filial do Dragonfly Inn está bem sucedida. A gente precisa saber se Rory publicou o livro. E a gente precisa da resposta de um milhão de reais: quem é o pai do bebê.

Mas será que a gente precisa mesmo?

Não sei se precisamos. Estou tendendo para o não, aqui falando com a minha racionalidade de seriadora e deixando a fã de carteirinha sob controle. Novas e boas histórias para contar, por certo, teríamos. Um elenco afinado e disposto a abrilhantar o texto também. Tais são fatores intrínsecos à capacidade dos Palladinos e do quarteto principal  de atores (Lauren Graham, Alexis Bledel, Kelly Bishop e Scott Patterson), não havendo o que discutir. Todavia, pensem bem: caso haja uma continuação, é meio lógico que uma atenção maior seja dada à história de Rory, agora mãe e autora. Digam-me com sinceridade se vocês acham que a personagem Rory Gilmore dá conta de carregar uma nova leva de episódios?

Por favor, não tomem como implicância ou como desmerecimento à atriz ou à personagem, porém é notório que desse triângulo de mulheres Gilmore, Rory é a ponta mais fraca. Ela tem pouco carisma, pouca desenvoltura, pouca força. Sinto muito, mas ela não tem o que é necessário para segurar a onda. Ela não é uma Lorelai ou uma Emily. Posso estar sendo injusta? Sim. Falo, entretanto, como alguém que se identificava muitíssimo com a personagem quando assistia à série lá nos idos dos anos 2000. Lorelai é a alma da série, sempre foi e sempre o será. Questiono, por isso, qual seria uma história a sua altura, qual seria um novo desafio. Ser avó? Que tipo de avó? Seria somente isso? Mais adiante, qual seria o novo desafio de Emily? Ou, de uma perspectiva mais ampla ainda, o que poderia motivar novas histórias? São todos questionamentos válidos.

Sim. Eu sei que falei acima que por certo teríamos novas histórias, mas por ora não consigo enxergá-las com clareza, assim, perdoem minhas incertezas e desconfianças diante da possibilidade de uma continuação da continuação. Fora o risco de virar uma história sem fim, exaurida e exaustiva motivada por grandiosos números de audiência, ou seja, por dinheiro. Acredito que parte do sucesso do revival se deu pela maturação das histórias que queriam ser contadas. Em outras palavras, o tempo fez muito bem a essa jornada tripla e tenho para mim que tanto a série com 8 temporadas quanto o especial de quatro episódios aconteceram quando deveriam acontecer, pensando além da narrativa, partindo de uma conjuntura social, econômica e cultural. A série esteve para os anos 2000 como o especial esteve para a década seguinte. Se houver uma continuação da continuação, o que ela nos dirá?

Erros e deslizes à parte, o revival foi lindo e trouxe o que, nós, fãs, não importa se da época da Warner, da SBT ou dos recém-formados pela Netflix, precisávamos. Esteve tudo lá, todos os elementos e nuances, toda a simplicidade narrativa, toda a explosão de personagens que fez de Gilmore Girls um fenômeno – e uma ajuda na formação de caráter, no meu caso. O revival foi a cereja do bolo desse processo de 16 anos para completar a jornada das garotas Gilmore, se me permitem o clichê. Vou além arriscando dizer que, no geral, GG:AYITL poderia ter sido muito mais do foi ao mesmo tempo que foi tudo isso. Incoerente? Talvez. Porém condiz com esse sentimento duplo de querer mais, porque é sempre um deleite mais conteúdo, mais tempo com as garotas vivendo novas histórias; e o de não querer mais, porque o que tinha para ser contado foi contado. Rasgando o verbo, é parar de mexer para não estragar. É saber a hora de parar para ficar na memória como um prazer, não um pesar. Se vão pagar para ver, aí já é com eles. O que também não quer dizer que se anunciarem a tal continuação, eu  não vou correndo passar por toda a maratona de novo, né!

Pergunta respondida?

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

4 comments

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  1. Avatar
    Juk 10 março, 2017 at 13:50 Responder

    a questão não é se precisa e sim: mas não vai ficar repetitivo?
    Rory está grávida tal como Lorelai estava, o pai do bebê é mais rico que ela e não está se importando muito (Logan = Christopher), e tem um amigo que está ao lado dela (Jess (numa versão piorada) = Luke). Não sei se é válido, não sei nem se eu engoli isso da Rory estar grávida.
    As muitas quatro palavras poderia/deveria ser algo envolvendo a relação das duas. E não a relação da Rory com o Logan (que, pra mim, é o pior dos namorados)

  2. Eduardo Nogueira
    Eduardo Nogueira 10 março, 2017 at 15:01 Responder

    Olha, francamente não engoli nada essa hipótese de uma possível continuação, nem se isso levar pelo menos dez anos. O foco de Gilmore Girls sempre foi justamente esse triângulo envolvendo Lorelai, Rory e Emily, três poderosas mulheres tão distintas e ao mesmo tempo iguais. Pra mim esse revival foi o desfecho definitivo dessa jornada, e não absorvi a revelação da gravidez de Rory até agora. Esperava bem mais sobre as quatro palavras. Eu acho que se a Netflix levar adiante pode ser um verdadeiro tiro no escuro, a não ser que seja uma história bem trabalhada, mas que pra mim sinceramente vai soar uma reciclagem, tipo repetição de tradição.

  3. Anderson Narciso
    Anderson Narciso 12 março, 2017 at 14:25 Responder

    Eu achei o final do revival meio complicado, mas acho que se tiver OUTRO, vai meio que perder o sentido e o propósito de A Year In The Life. Melhor deixar como tá…

  4. Avatar
    Débb Mariie 25 abril, 2018 at 01:56 Responder

    Ai meu Deus!! Qual é o problema da Rory ? Pq que ela não ficou com o Logan? Fica toda triste e sentimental mais não abre a boca pra dizer, e os encontros com o Dean e Jess? !?! Ela é igual a mãe ,vai ficar de homem em homem ,sem saber o que quer ? Eu amoo a série ,fiquei dias sem dormir maratonando ela ,pra acabar assim? Isso é sério? Nossa, to muito irritada … Alguém tinha que ser estável naquela família, achei que seria a Rory. Mais pelo jeito não!

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