Orange Is The New Black – 4×02 – Powersuit

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Imagem: Banco de Séries

 

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Se no primeiro episódio houve indicações sobre o aumento da população latina em Litchfield, “Powersuit” selou essa dominação. E é extremamente importante que seja feita uma leitura do universo externo da série ao retratar estas questões, pensar em como o meio social se relaciona e é retratado na ficção. Mais uma vez, representatividade é a palavra.

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A superlotação é um fato, aliam-se a ela as rixas já existentes, a demarcação dos grupos e uma cultura de ódio nutrida pelo racismo e pela xenofobia. Não tardaria para que o embate acontecesse. E os sinais desse embate foram às vias de fato neste segundo episódio, tenha sido pela troca de insultos, por companheiras de longa data como foi o caso do bate-boca das meninas da cozinha, ou pelas agressões físicas trocadas ao longo do episódio. E o que se destaca aqui são as rixas, o preconceito e xenofobia existentes também dentro das comunidades latinas e hispânicas. Foi uma espécie de levante previsto por Flores quando declarou que já estava cansada de ser pisoteada e destratada por conta de suas origens.

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E em meio aos conflitos étnicos expostos em Litchfield, fomos levados aos conflitos étnicos para além da prisão, a um bairro latino, mais especificamente a um festa dominicana, e vemos El León, um senhor de cartel, discursar. Para nossa surpresa, fomos apresentados a uma pequena Maria Ruiz, até então uma personagem pouquíssimo explorada e de poucas informações. Sabe-se de sua filha, Pepa, de quem estava grávida no começo da série, de seu namorado caladão, Yadriel, e de sua longa sentença. Maria também protagonizou momentos emocionantes ao longo da temporadas, como o nascimento e a separação de sua filha na primeira temporada e a celebração do Dia das Mães, na terceira temporada, em que Yadriel diz que não levará Pepa a prisão mais, porém sempre em um segundo plano.

Agora estamos diante de uma Maria líder de um levante étnico, tendendo ao destino de seu pai, do qual, como visto nos flashbacks, levantou-se contra. É como se vendessem aquela história de que um fruto não cai muito longe da árvore. Porém, ao mesmo tempo, é possível entender porque Maria adotou a estratégia da calma e da espera pelo momento oportuno para o revide. Ficou um indicativo ali de que talvez seu destino tivesse sido outro, caso não tivesse se levantado contra seu pai. Um momento importante em OITNB, afinal, é interessante e importante testar a força de outras personagens inexploradas até agora, isso traz dinâmica à série.

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A nova velha ordem em Litchfield, mais reforçada do que nunca, estava na música que abriu e fechou o episódio: “Si tu le da’ yo le doy”.

Nos conflitos domésticos, continuamos com o drama de Daya, Aleida e o destino da família Diaz, ainda mais agora que Cesar também foi parar atrás das grades. E Bennett continua sendo “aquele-que-não-deve-ser-mencionado”. Talvez agora, com essa nova situação, Aleida deixe um pouco a marra e o egoísmo de lado e se coloque por sua família. Na verdade, ficou a impressão de que o lamento não era por Cesar e sim por suas crianças desamparadas.

Quem enfrentou uma barra neste episódio também, por conta das novas companheiras de dormitório, foi Red. Já não bastasse a mudança no horário do café da manhã, o mau humor de Red foi às alturas com os roncos de Dwight. O riso foi incontrolável quando a menina levantou toda ensanguentada e a Sra. Reznikov fez o que poderia ter feito: dormir.

No mesmo bunker, Piper enfrentou suas implicâncias e acabou cedendo à nova companheira, a racional e lógica Hapakuka. É sempre divertido ver Piper enfiando sua pseudo marra debaixo do braço. Mas daí saiu uma aliança. Piper se acha mais do que é e, graças aos conselhos em tom de ameaça de Red, percebeu isso. Logo, chegou à conclusão de que era melhor ter Hapakuka ao seu lado do que continuar andando sozinha pelos corredores de Litchfield.

Em outro dormitório, a tensão entre Cindy e Abdullah foi crescendo, em uma nítida releitura dos conflitos entre palestinos e judeus lá no Oriente Médio. Seria irônico se não fosse trágico o desentendimento acontecer dentro de um presídio norte-americano, país que tem como política internacional meter o bedelho nos problemas do outros.

Para mais conflitos, Healey, que não é nenhuma flor que se cheire, pegou implicância com Judy King. Vá lá que ela realmente está recebendo privilégios por ser uma celebridade, todavia esse posicionamento de Healey não é nem de perto em nome de uma justiça ou de um tratamento igualitário. É implicância misógina, sexista, racista e doentia que ele nutre em si. E Judy King surpreendeu ao se mostrar perspicaz e bastante razoável ao lidar com o comissário.

Mas o conflito estourou para o lado de Yoga Jones, nova companheira de dormitório de Judy. As duas encenaram um desentendimento que bateu na tecla dos privilégios sobre outra perspectiva, a de quem recebe. Pela lógica exposta não seria necessário abrir mão do que lhe é dado para reivindicar ou lutar por uma causa. Ah, o embate entre yuppies e hippies revisitado… (Não sei vocês, mas estou gostando bastante de Judy).

Na esfera da instituição, Caputo, o Diretor de Atividade Humana, tem feito o que pode para manter Litchfield de pé, seja colocando o extremista do Piscatella como chefe da guarda, comprar um terno caríssimo ou manter um bom relacionamento com a MCC.

Em suma, mais um bom e seguro episódio desta quarta temporada, mantendo o ritmo mais calmo e os diálogos poderosos. Entretanto, dois assuntos que continuam sem uma abordagem mais forte neste começo de temporada e precisam ser tratados o quanto antes por motivos de ansiedade: o estupro de Dogget e Sophie na SHU. Caputo falhou e deu uma grande mancada ao desconsiderar os apelos de Crystal, a mulher de Sophie. Ele tem boas intenções, mas acaba se perdendo diante de sua personalidade como cidadão e de seu papel como diretor.

OBS: Está tendo amor demais entre Poussey e Soso. O casal é fofo, mas minha criação em séries me diz que felicidade e bem-estar são fantasias passageiras.