Orange Is The New Black – 4×05 – We’ll Always Have Baltimore

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Imagem: Banco de Séries

 

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Reúna algumas mulheres, as faça dormir, comer, higienizar-se, trabalhar, enfim, conviver juntas 24h por dia. Inevitavelmente, se estará diante do fenômeno da sincronia menstrual. Agora adicione a essa condição fisiológica um presídio superlotado, falta de recursos básicos e rixas étnicas? Não vai rolar. E ai de quem pensar que o problema são os ciclos sincronizados e a TPM grupal. A falha está claramente posta na instituição que não tem sido capaz de prover o necessário às detentas. Então entendam o absorvente como uma alegoria do descaso e da incapacidade gerencial em Litchfield. Inevitável que ele vire moeda de troca, que ele esteja em muitas conversas, que ele seja usado como desculpa. Mas o problema não é o absorvente.

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Brigas e tensões sempre fizeram parte do dia a dia do presídio, e estão presentes no cerne daquele espaço. Já se perdeu o cálculo da quantidade de brigas e ameaças travadas ali. Porém, em “We Will Always Have Baltimore”, as agressões físicas foram levadas ao plano de destaque, estiveram ali para uma motivação maior: anunciar o caos que estava prestes a tomar Litchifield.

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Daí vieram as pichações nos muros, mais uma forma de resistência, altamente repudiada pelo fã nº. 1 do republicano Rudolf Giuliani, ex-prefeito de Nova York, responsável pela implementação de uma política de segurança pública que segue as diretrizes da tolerância zero. Agora ficaram mais claras as motivações para o comportamento discricionário de Piscatella e seu embasamento para a iniciativa anti-guangues.

Foi então quando Piper, movida pela ameaça a seus negócios, tomou umas das piores atitudes, quiçá a pior, que poderia ter tomado durante sua estadia no presídio: recorrer a Piscatella e instigá-lo a vigiar a movimentação das latinas. Ligar para o agente da condicional e dedurar a arma de Alex? Humilhar as meninas que estavam trabalhando para ela? Mandar Stella para a máxima? Que nada! Tudo fichinha perto da aliança que tentou formar com Piscatella. Pelo menos ele deu uma cortada ou outra nas asinhas dela.

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Piper jogou querosene na fogueira e um cerco discriminatório e abusivo se instaurou para cima das latinas. Percebam a brutalidade das revistas, percebam inclusive a diferença de tratamento proferido por Piscatella quando, no campo, Piper se aproximou para falar com ele e quando Mendonza, nutrida de direitos e razão, foi reclamar do estava acontecendo.

Mais uma vez, extremamente necessária essa transposição entre ficção e não-ficção para abordar uma causa mais do que urgente, a situação dos imigrantes e seus descendentes e o tratamento dado a eles. Oras, a corrida presidencial norte-americana tem pela questão uma de suas grandes plataformas e é necessário que se tenha um debate, que medidas sejam tomadas. Se na série a população carcerária de descendência latina, hispânica, entre outras, cresceu exponencialmente, motivos há. A ficção é uma ferramente de releitura de fatos e Orange está cumprindo bem esse propósito.

Em meio à onda xenofóbica, Ruiz buscava uma maneira de dar seguimento a seu panty business e, inesperadamente, a melhor ideia para tirar as calcinhas do presídio veio de Ramos.

Antes, voltemos um pouco no episódio para a cena na van, na qual Maritza transporta alguns comissários. Até então tínhamos visto pouquíssimo dos novos guardas, os ex-veteranos, e mais espaço para mostrá-los foi dado neste episódio. Só para causar mais desprezo por eles e retratar o abitolamento daquelas pessoas. Para piorar, Dixon, no direito que acha que tem, abusou verbalmente de Maritza, que não se intimidou e mostrou sua força. Sem dúvida, uma grande estratégia reverter os ataques machistas com sarcasmo.

Então fomos transportados para a backstory de Ramos, garçonete em uma boate onde aplicava pequenos golpes, que se envolveu em um esquema de roubo de carros de luxo. Quem achava que Maritza não era nada além da beleza, um tapa! Maritza faz o tipo boa, desprovida de inteligência. Tudo uma máscara. Esperta e sagaz que só ela, fazer piada com tudo é de seu natureza, fazer de sua beleza e sensualidade um trunfo é de sua consciência e vontade. Foi ela quem teve a solução para os problemas de Ruiz e para despistar os guardas. Maritza é forte e aquele outro guarda, Humphrey, sacou isso. Uma alerta para Ramos: alguém de marcação nunca é coisa boa.

Na verdade, uma alerta geral em Litchfield. Os novos guardas representam uma grande ameaça às mulheres, sejam elas internas ou colegas. OITNB sempre seguiu uma tradição de humanizar as detentas e animalizar os comissários, desconstruindo empatias pré-estabelecidas. Até então tínhamos “vilões” isolados, Pornstache, Healy e, o mais recente, Coates. Agora é um grupo que dá indícios de um comportamento selvagem, cujo líder é um radical. Iniciou-se, assim, a temporada de abusos e excessos desmedidos. Repete-se, Pornstache era “coisa pouca” comparado a esses novos guardas. E onde estava Caputo, o Diretor de Atividades Humanas, nisso tudo?

Caputo estava com Linda, a funcionária do MCC, com quem ele vem flertando, na Correction Con Baltimore. Ideia genial fazer uma versão para o sistema prisional norte-americano das famosas convenções e feiras de quadrinhos, televisão, cinema, tecnologia, etc. As bizarrices ali ofertadas, os brindes, os painéis, os participantes e seus comentários, tudo compondo uma ridicularização do sistema e das instituições privadas e públicas ligadas ao setor prisional. Uma chuva de dedos na ferida foi colocada através dessa feira e, principalmente, nos diálogos entre Joe e Linda no carro e no bar.

E durante a feira também vimos um misto de ganância e ingenuidade do cidadão Diretor de Atividades Humanas. Caputo quer o melhor para suas detentas, mas se perde no caos de sua própria vida. Só repararem em como ele se anima com a possibilidade de ser o próximo chefão do sistema prisional e ao mesmo tempo se empolga apenas ao vislumbrar uma melhor qualidade de vida para as detentas. Ou como ao passo que se simpatiza com a causa de Danny, está submetido a MCC e encantado por Linda, defendendo ambos e se rendendo a ela.

Parte boa da ausência de Caputo? Taystee no melhor estilo “quando os gatos saem, os ratos fazem a festa”. Engraçadíssima.

Voltando à questão da discriminação de tratamento dada às detentas latinas, a situação tomou rumo sem volta com a “brilhante” ideia de Piscatella de reunir uma força-tarefa de internas para estabelecer a ordem em Litchfield. Antes Piper tivesse ficado calada e engolido seus relatos de menina privilegiada. Mas não, deixou a vingança tomar conta e formou as Cuidadoras da Comunidade. E, sem a menor intenção – aqui se dá o benefício da ingenuidade a Piper –, abriu as portas para um levante de ódio, fascista e extremista. Chapman viu sua reunião ser desvirtuada e se pegou no meio de um coro surreal e patético, se não fosse perigoso, em alusão ao movimento Black Lives Matter, aqui apropriado como White Lives Matter. Faz-nos-rir, orgulho branco.

Segura essa,  Chapman! O buraco ficou bem mais embaixo. Reparem nas expressões de Hapakuka, Gina, Lorna e da própria Piper. Reparem no penúltimo plano do episódio, em que se destacou, em primeiríssimo plano, reforçado pela mudança de foco, a tatuagem na nuca de uma das detentas: nada mais, nada menos do que a bandeira do Estados Confederados da América, grupo político formado por estados agrários e escravistas no século XIX. Não é coisa pouca.

Antes da estreia, prometeram uma temporada mais séria e sombria e ela começou.

E pegaram a referência do título? Enquanto Caputo e Linda se amavam, o pau quebrava em Casablanca. Ops, Litchfield.

 

Menções honrosas:

1) Morello e Suzanne vs. a Cagona do Chuveiro: já quero me juntar à patrulha.

2) Abdullah nos revelando uma surpresa por debaixo do véu: um celular e uma filha. Só ficou a dúvida sobre ela ser ou não muçulmana. Caso não seja, sendo o véu um simples disfarce, um baita desrespeito.

3) Aleida estudando, o que significa que ela está se esforçando, se planejando e enfrentando o medo da vida pós-prisão. Tudo bem que não foi lá muita coisa e Soso mais atrapalhou do que ajudou, mas é um grande passo para a matriarca da família Diaz. A conversa com Daya no episódio passado surtiu efeito. Força, Aleida!