Orange Is The New Black – 4×07 – It Sounded Nicer in My Head

Imagem: IMDb/Divulgação
Imagem: IMDb/Divulgação
Imagem: IMDb/Divulgação

[spacer size = “20”]

Continua após publicidade

Um episódio dedicado à história de vida de Lolly. Ela que chegou sem muito destaque, apareceu na segunda temporada, quando Piper foi transferida para um presídio em Chicago, e só reapareceu na terceira temporada, já em Litchfield, quando ela e Vause desenvolveram uma paranoia mútua. Pouco sabia-se de Whitehill, tirando o fato de que passou por vários lugares bem piores do que Licthfield, tem uma queda por teorias conspiratórias, é muito esperta (ela que começou a pedir a refeição kosher quando mudaram o cardápio do presídio) e sofre de alguma psicose (não sou da área da saúde, portanto não irei aqui fazer assunções de seu quadro. Vou me ater à conjuntura).

Continua após a publicidade

Nesta quarta temporada estamos vendo mais de Lolly, afinal ela é parte de umas grandes tramas da temporada, o assassinato de Aydin, e por conta de sua condição, representou um perigo ao plano executado. Lolly acabou tendo alguns surtos em decorrência do ocorrido, o que fez Vause ficar em alerta. Todavia, sua fama de louca, pirada, desvairada é sabida por todos. Parece que se chegou ao ponto de que ninguém mais acredita no que Lolly fala. E Red deixou isso bem claro para Alex, insistindo que deixassem a história quieta, como se a fama de Whitehill fosse dar conta. Não é para menos. Em episódios anteriores, apesar da confissão, Healy fez Lolly acreditar que o assassinato, o esquartejamento e o enterro do corpo de Aydin não passavam de fantasia. De fato, Healy tem insistido em colocar tudo o que ela fala como fruto da imaginação, quando na verdade Lolly, para além do transtorno, tem seus pontos de vista. Querem ver? O update sobre o status de Lichtfield que ela deu a Nicky era a mais pura verdade, de cabo a rabo, e ninguém poderia ter resumido melhor os últimos acontecimentos por ali.

Continua após publicidade

Então fomos levados ao passado de Whitehill, uma jovem jornalista, apegada a costumes antigos e já adepta das teorias do que acontece por trás daquilo que se vê. Também já uma jovem atordoada por vozes que só ela ouvia. De volta ao presente, Whitehill é flagrada por Piscatella revirando o lixo. Questionada, ela se amedronta e foge. Mais um flashback e vemos que Lolly, sem família, por motivos não explicados, foi levada por uma amiga e colega de trabalho para uma casa de repouso bem esculhambada. Novamente vemos a figura de uma Lolly amedrontada que não vê escapatória senão fugir.

No presente, Piscatella teve a única ideia boa desde que apareceu ao levar Lolly até Healy, não sem ameaçá-la caso algo novo acontecesse. E Lolly deu ótimas respostas ao comentários e ataques do gigante, mostrando seu brilhantismo. Vimos a ciência que ela tem de seus próprios delírios e alucinações e o quanto ela luta para se mantar sã. E quando questionada por Healy sobre as evidências das conspirações e das perseguições, ela soltou uma bomba: “Não preciso de provas. Minha vida é minha prova.”.

Continua após publicidade

Um novo flashback, com uma Lolly já mais velha, moradora de rua, que se sustenta da empatia popular e da venda de cafezinhos pela cidade de Seattle. Destaque para um pedaço de pau, cheio de penduricalhos barulhentos, que ela carrega para cima e para baixo e chacoalha ao redor da cabeça para espantar as vozes. Tinha um quê de xamânico esse hábito.

Pela arte, figurino e algumas referências, acompanhamos Lolly pelas décadas de 80 e 90 tentando viver e, sobretudo, existir, apesar  da ameaça da expansão imobiliária, das cafeterias, do descaso, do preconceito e da truculência dada ao que não é de comportamento padrão. Acusada de perturbar a ordem e ter uma arma em seu porte, foi levada ao chão e não pode fugir, como era de costume.

Por seus próprios relatos em episódios anteriores, Lolly passou por lugares horrendos e Litchfield é um paraíso. Um paraíso que a fez matar um homem. Sua máquina do tempo talvez seja, pois, uma tentativa de reconstruir sua própria história.

De lirismo bem dosado, uma das storylines – e backstories – mais sensíveis e delicadas até hoje apresentadas em Orange, diante de um tema tão denso. Sem contar o excelente trabalho de interpretação de Christina Brucato, a young Lolly, que trouxe os trejeitos e até a entonação da Lolly do presente. (Só não precisava daquela música tristonha na cena no escritório de Haeley, o silêncio teria sido mais eficaz.).

Uma temática necessária, posto o despreparo do Estado para lidar com infratores que apresentam indicativos de psicoses, défices e outros transtornos. Em Litchfield, são pelo menos duas detentas de mais destaque representando essa falta de estrutura, Lolly e Suzanne, constantemente ameaçadas com um ticket só de ida para a ala psiquiátrica. Warren ainda se encontra melhor amparada e protegida pelas amigas, em contrapartida, Lolly talvez sinta mais o peso por também ter que lidar com a solidão.

Deixando o clima mais pesado, nem a movimentação de episódios passados aliada aos acontecimentos de “It Sounded Nicer in My Head” poderiam ter previsto o que seria o revide de Ruiz, nem quando. Sabia-se que haveria vingança. Isso era certo. No desenrolar deste episódio Sankey e companhia, que veem em Piper uma líder, só fizeram pressioná-la para criarem uma espécie de irmandade ariana em Litchfield. Piper, mesmo ameaçada, foi incapaz de descer do salto nem perder um pouco da arrogância. Não concorda com as neonazistas, mas não toma qualquer atitude para mudar esse rumo extremista, chegando a estimular o comportamento racista. Nem respeito à própria aliança formada com Hapakuka ela teve. Big Boo avisou de novo. Nicky cantou a pedra. Agora Piper está marcada, pois “às vezes o que parece ser é tudo o que veem”.

Que não se tire a agressividade da cena – reforçada pela montagem alternada com a festa de boas-vindas a Nicky – nem o que pode vir a ser do futuro de Chapman, com uma suástica gritando em seu braço. Mas que também não se tire os atos de Hapakuka, tampouco de Ruiz. São consequências das leis que foram postas nessa disputa. Ninguém é santo, ninguém deu sinais de bandeira branca. Pragmatismo por pragmatismo, estratagema por estratagema, está todo mundo perdendo.

Para outras bandas, o negócio vai piorar mais ainda já que a felicidade pela volta de Nicky parece que vai acabar mais rápido do que o pacotinho de heroína. Sem saber, Morello deu a deixa para Nicky descobrir quem tinha drogas malocadas: Angie, a Cagona. Caso resolvido, problema aumentado. Mas Red já se ligou. O conselho dado a Vause para lidar com Lolly serviria para ela mesma, não tivesse o hábito do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

No geral, a volta de Nicky tentou dar uma sacudida nas coisas, mas ainda foi calma para a intensidade da personagem. Pelo menos agora Mendoza e Irmã Ingalls sabem que as coisas com Burset não estão (ou estavam) nada bem.

Falemos do grande alívio cômico do episódio e uma sequência de diálogos maravilhosos? Quatro detentas tentando tirar uma foto de outra detenta, que vem a ser uma celebridade, com um celular contrabandeado. Entre os vários planos rolou um freestyle – um borrão –, uma tentativa de aproximação natural – Suzanne achou que Judy estivesse sozinha na sala de TV, mas Yoga Jones foi o olho que tudo vê e nada sabe – e, por fim, um cerco armado que rendeu uma foto espetacular! Pararia por aí não fosse o fim da bateria do celular e o bafafá que corria sem que Cindy, Taystee, Abdullah ou Suzanne soubessem. Afinal, King, que a cada dia traz algo novo, estava envolvida em um escândalo, acusada de racismo por um programa de marionetes do qual fez parte. Daí a foto não casou muito bem com o que elas queriam, ou casou, dadas as novas circunstâncias. Tomara que arranjem um carregador logo.

Quem sabia do escândalo era Yoga Jones, que mega preocupada com Judy, quer dizer, com as regalias, procurou Caputo para uma intervenção. E no jeito MCC de ser, a celebridade passou a ter suas refeições servidas no quarto. Certeiro foi o comentário de Mendoza, pois quando Burset precisou de proteção a levaram para a SHU.

Falando em Caputo, a provocação de Red foi ótima porque é para lá que ele está caminhando, para a torre de marfim, e nem está percebendo. Apresentou uma proposta dos sonhos, dadas as condições, e recebeu de voltar a aprovação de um programa de trabalho forçado. Seu inimigo está dividindo a cama com você, Caputo.

Ah, e teve o drama da família Diaz. Daya parece que resolveu descontar todos os erros e más escolhas da vida em Aleida que, já fragilizada com as incertezas da liberdade, se desesperou. Vá lá que Aleida não seja um exemplo de mãe, mas ela tem um grande desafio pela frente, ser uma ex-detenta se reerguendo. E como implacável que é, agora focando em ser legalmente implacável, não tardou para que a ideia viesse, com um empurrãozinho da família (estou falando de Gloria, Flaca e Maritza), do talento próprio e de uns privilégios concedidos a uma certa detenta. Vai que é tua, Aleida!

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.