Orange is The New Black – 4×08 – Friends in Low Places

maria
Imagem: IMDb/Divulgação

[spacer size = “20”]

Continua após publicidade

“Friends in Low Places” foi sobre o conforto que se pode encontrar nas alianças formadas, mas também sobre as amarras e as dores que essas mesmas alianças podem deixar. E que se fixe de uma vez por todas: para além de todas as diferenças, está todo mundo ali, junto, passando pelas mesmas situações. E não há máquina do tempo que mude isso. Só falta elas enxergarem isso.

Continua após a publicidade

A população de detentas ex-funcionárias da Whispers, não já fossem os abusos dos guardas, agora tiveram de aturar (mais) abusos da MCC, sendo obrigadas a trabalhar sem remuneração em um canteiro de obras disfarçado de aula de formação profissional. Lembrem-se que ali estavam detentas de vários grupos, a contragosto, sem receber um centavo sequer, debaixo de sol quente. O clima inevitavelmente esquentou em alguns momentos. Para piorar, trabalho braçal diante da escavadeira aparentemente quebrada (O povo te perdoa, Boo! Suas colegas já não se sabe…). E teve de tudo: provocações, ameaças,  conversas filosofais, outras nem tanto, e até um chefe de obras bonitão para dar uma alegrias às meninas. E, ao fim do dia, uma escavadeira que “resolveu” funcionar. Para resumir que o havia se passado naquele dia, nada mais preciso do que a fala de Abdul.

Continua após publicidade

Quem não estava nada bem era Piper que muito provavelmente teve a pior noite e o pior dia de sua vida. Desconsiderem a primeira noite na prisão, a temporada na SHU, tudo. Ali não havia lágrima que contivesse a dor, não haviam palavras de conforto que a fizessem esquecer daquela suástica. Marcou a pele, marcou a alma e a consciência. E na tentativa de sentir melhor, ligou para Cal, seu excêntrico irmão. Piorou. Ele ia ser papai e Piper estava ali, presa em Litchfield sabe-se lá até quando. Mesmo assim, a voz de Cal foi um conforto, logo em seguida quebrado pela convocação do alto-falante. Machucada, fraca, sem dormir, com dor e visivelmente febril, Piper foi trabalhar debaixo do sol com as mulheres que perderam o emprego por sua causa.

Nicky voltou com força total. O que significa que, tirando sua descontração, seu sarcasmo especial e suas verdades necessárias, quando Nicky quer algo ela é irredutível – mesmo que isso a leve a arrastar os outros com ela. Nicky gosta de Lorna. Lorna gosta de Nicky. Mas Nicky está mais preocupada em satisfazer seus desejos do que levar em consideração o que Lorna quer, precisa e sente. E isso é egoísmo. Resultado? Gatilho ativado, Morello noiada. E sua irmã a lembrou, foi isso que a levou para o confinamento.

Continua após publicidade

E para Nicky, como é sexo por sexo, tem outras mulheres. Pelo menos pensou que seria fácil com a solteirona do pedaço. Só não contava com uma dark Vause com a cabeça pelas tabelas. Jeito Nicky de resolver as coisas: chapar no milharal. Não restou muito para que Piper as descobrissem e a elas se juntassem, para espanto de Alex – não sabe que ela é gangsta com “a”? – Enfim, corpos e mentes flutuando, os desabafos vieram. E o Vauseman já podem voltar a serem felizes porque ao que tudo indica, com a admissão de alguns erros e pedidos de desculpas, o muro que as separava parece ter ruído.

Tudo isso para chegar na mãe de todas elas, Red, que tanto faz e ainda assim sua própria cria lhe passa a perna. Só que ela sabe muito bem como tudo ali funciona. São mais de 20 anos em Licthifield. Ela sabe que tem cuidar de suas filhas, protegê-las.

Falando em proteção, o tratamento particular para Judy King continua causando desconforto. Não bastassem as regalias, passou a ser acompanhada ao banheiro, o que significa que em 90% das vezes a presença de um homem numa área de privacidade. É um momento delas, nuas ou enroladas na toalha, é delas. Homens ali são corpos estranhos e colocassem qualquer um dos guardas daria o mesmo efeito, desconforto, insegurança, medo, falta de respeito. Sim, Judy King, deveras exagerado pedido de Jones. Porém foi Suzanne aparecer pelos corredores, mais inofensiva que as meias em suas mãos – meias que por sinal eram suas próprias marionetes –, que King repensou seu deboísmo. E, então, falemos desse racismo velado, enraizado nela.

A personagem tem sido sim interessante e surpreendente, por não se mostrar uma senhora abitolada pelo status social, por praticar o amor livre, por estar aberta a tudo e todos. Mas Judy King representa aquele comentário “sem maldade”, aquela piadinha, aquela desconfiança do moleque que passa na rua estritamente por conta da cor de sua pele. É aquela prática racista que passa despercebida, dita inofensiva, tornando-se a mais difícil de combater. É a cultura do racismo. É reprodução de um comportamento discriminatório e preconceituoso como se normal fosse.

King não cansa de repetir que não tem preconceitos, que se relaciona com todas as pessoas e tal. Defende-se dizendo que não é mais a mesma pessoa do programa de marionetes, admitiu seus erros e soltou a pérola de que nos anos 80 todos eram estúpidos e idiotas (nenhuma diferença para hoje. Continuamos estúpidos e idiotas quase três décadas depois). E aí Yoga Jones atacou King ao lembrá-la que os negros em sua vida estavam ou na plantação ou em sua cozinha. 1×0. Judy rebateu indagando sobre as origens de Jones e sobre como ela está bem diante das regalias. 1×1. Nesta perspectiva, todas sem razão. 0x0.

A celebridade foi então a Poussey, sua amiguinha negra e assistente nas aulas de culinária, buscando solucionar a ameaça que estava sentindo, se aproveitando da personalidade pueril de Washington e de seu ciclo de amizades, é claro. Dois strikes para dois problemas, não sejamos ingênuos. As negras conseguiram a foto e Judy calaria seu falatório provendo um amor lésbico inter-racial. A cena em si foi incrível.

No grupo das latinas, as amarras foram mais sentidas do que as benesses das alianças, especialmente por Ramos que, temendo ser pega por um dos guardas, recorreu a uma irredutível Ruiz. Com a cara na porta também deu Aleida ao questionar o uso do salão como fachada para uma boca. Ruiz, la jefa, mais uma vez deixou claro que quem está mandando é ela.

Por falar em uma Diaz, alguém mais tá começando a ficar com raiva de Daya? Mais uma vez, por pior mãe que Aleida seja, por mais egoísta, por mais tudo, o desafio que ela vai topar agora é o desafio que todas um dia toparão. Essa revolta de Daya perde total a razão quando deixa extrapolar o ressentimento que é ver Aleida em liberdade. Não quer ajudar? Ótimo. Mas também não atrapalha.

No âmbito das que vagam por Litchfield, Penssatucky insiste em estar perto de Coates, seja alfinetando, seja dando assunto. Situação difícil a dela, por continuar divida entre o que sofreu e o que sente por ele. É como se ela estivesse buscando qualquer forma de redenção, seja ouvindo o que gostaria de ouvir, seja se libertar dele. Vimos um Coates arrependido, dizendo um monte de coisas bonitas, e uma Dogget agradecendo por elas. Tudo muito turvo, muito difícil de engolir, tudo muito condicional e hipotético, pois de bonitos os fatos não têm absolutamente nada.

Como se não bastasse tudo o que já vem acontecendo, não há palavras para descrever a cena que se passou na casa de Caputo. Não só se descobriu para que serviria o novo prédio sendo construído em Litchfield, um novo dormitório, ou seja, mais espaço para entulhar detentas; mas o que se passou com a visita de Cindy Burset e as reações de Linda e Caputo. SUR-RE-AL.

E aí que vem à mente a fala de Red, na cozinha, cuidando do problema de Piper: “Quando Deus dá uma suástica, Ele abre uma janela. Mas então você se lembra que Deus não existe.”.

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.