Orange Is The New Black – 4×10 – Bunny, Skull, Bunny, Skull

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Imagem: Arquivo pessoal

 

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Ver as detentas fora dos muros de Litchfield, à exceção de flashbacks e da licença que Piper conseguiu lá na segunda temporada, é coisa rara. Considerando as personagens principais, até então somente Vause e Taystee tinham saído em condicional e ambas retornaram ao presídio. A primeira embora tenha voltado por “pipeces” estava se sentindo constantemente ameaçada por seu antigo “chefe”. Sem qualquer tipo de auxílio protetivo por parte do Estado, resolveu comprar uma arma e se proteger por conta própria. Só que isso era uma violação da condicional e deu no que deu. Já Taystee até que tentou se reintegrar, mas esbarrou na falta de oportunidade e de apoio. Não se encaixou ao mundo do lado de fora e acabou violando a própria condicional. Em Litchfield, ela tinha pessoas, comida e um teto para dormir. Palavras que Aleida voltaria a repetir em “Bunny, Skull, Bunny, Skull”. É a dualidade que se passa na cabeça delas. Não há nada de poético ou dramático nisso.

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A questão da ressocialização e da reintegração são intrínsecas àquele universo e à sociedade, nós aqui. Todos os dias sabe-se lá quantas detentas e detentos são liberados por dia sem qualquer política de amparo eficaz. E para além das práticas do Estado e do ponto de vista dos cidadãos que estão do lado de fora, há o ponto de vista por parte daqueles que agora estão do lado fora. É a tão sonhada liberdade pelos olhos e pela estigma da ex-detenta. Essa é a proposta de Orange.

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Foi a vez de Aleida sentir esse mix de sentimentos e sensações. A começar por se liberada no meio da noite e se despedir ali de sua filha e de sua amiga. Sem contar a anedota inapropriada de McCullough, o desamparo do Estado começa ali quando não se tem nem um horário razoável para liberação da detenta. Mas Aleida ergueu a cabeça e teve uma saída triunfal. “All right, bitches. I’m out.”

Iniciou-se assim uma nova etapa da vida de Aleida e logo vieram os desafios e as descobertas ao lidar com estranhos, a sensação de estar sendo constantemente vigiada como se “ex-detenta” estivesse estampado em seu rosto, as traições, a falta de grana e ter que aprender a engolir o orgulho para ter um teto para dormir. É um novo cenário amedrontador, em que tomar um café e comprar uma roupa soam como experiências extraordinárias. Mas a vontade de seguir em frente e recuperar seus filhos vai mover aquela “barata”. Por trás da capa de durona, Diaz é movida a amor e dedicação, ainda que isso tenha significado alguns erros em sua vida.

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Só que tudo que Aleida não precisava era que Daya se envolvesse com a trupe de Ruiz. E Gloria esteve lá, tentando cumprir a promessa feita à amiga. Mas foi pelo amor, sem saber, que Aleida deu a deixa para Daya ir ao salão, ao dar de presente sua coleção de esmaltes. Ficou faltando só o convite que veio a galope.

Os argumentos de Daya são válidos. Para ela também uma nova etapa começou, um sentimento de liberdade (que só quem tem uma relação conturbada com a mãe entende) a tomou e ela quer tirar proveito disso, mesmo que signifique andar com Ruiz, mesmo que signifique voltar a se envolver em um esquema de distribuição de drogas. Intenções válidas, caminhos tortuosos. Bunny, skull, bunny, skull.

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O que nos leva a Ingalls e sua saga na SHU para encontrar Burset. Dias difíceis, Irmã, que renderam boas cenas. Ela é uma excelente estrategista, tinha tudo armado em sua mente, e seu plano estava funcionando, afinal conseguiu a certeza de que Sophia estava viva. Fraca, debilitada, machucada, sem auto-estima, sem dignidade, mas viva. Tem um quê de esperança em sua recuperação aí. Ingalls só não contava com uma tosse fora de hora. E aí Caputo resolve sair de sua torre de marfim e ressurgir e mais uma vez somos colocados de frente à dualidade desse homem, o Diretor de Atividades Humanas que deu uma dura na detenta e o cidadão que arrisca seu emprego pela justiça. Bunny, skull, bunny, skull. Não que isso justifique os erros de Caputo, sua inércia e sua rédea frouxa, para inclusive cuidar da vida pessoal, mas ele visitou o site de Danny, existe uma pontinha que seja de inquietação ali. Falta-lhe dosar ações e posicionamentos.

Quem decidiu agir foi Red. Senão contra os abusos de Piscatella, mas por Nicky. Depois do desabafo protagonizado no banheiro e da decisão de Nicky de ficar sóbria, Red ofereceu ajuda à filha recebendo um “valeu, mas vou me virar aqui” como resposta. Sagaz que é, não se contentou e fez o que se faz com gente teimosa, a deixa achar que estão agindo por conta própria. Reznikov foi a cada canto de Litchfield e fez jus a sua condição de alma mater, dona da porra toda, promovendo um embargo anti-drogas para Nichols. Só não contava com um Luschek em seu típico dia de covardia.

O que nos leva a Maritza, outra vítima da covardia de um guarda, visivelmente debilitada, com nojo de si, colocando as tripas para fora na tentativa de se limpar. Dividir a indignação com Flaca foi o que lhe restou. E Ramos, calada pelo medo e pela humilhação, se junta a Dogget no rol de vítimas dos abusos cometidos contras as detentas.

Coniventes ao que aconteceu foram Stratman e McCullough que, cientes das esquisitices e do comportamento incomum de Humphrey, escolheram se calar em nome de uma lorota contada por Piscatella. Estar por um grupo, um partido, uma ideologia, não deve significar nunca fechar os olhos para o que está ao redor. E Stratman e McCullough escolheram deliberadamente não ver que algo de errado havia acontecido a Ramos.

E era dia de Movie Night! Que já começou conturbado pela escolha do filme The Wiz (1978), uma adaptação urbana do livro O Maravilhoso Mágico de Oz, cujo enredo se passa no Harlem, bairro de Nova York, e cujo elenco é completamente formado por afro-americanos. Taystee fez a sugestão a Caputo por estar cansada de sempre assistir às mesmas comédias românticas, estampando brancos como protagonistas. Taystee queria ver a diversidade e a representatividade que os espectadores de Orange vêem. E Jefferson logo descobriu que conseguir espaço para o que não é convencionado é difícil. Se nem suas próprias amigas foram unânimes com a ideia, quem diria o bando do White Pride, que provocou até onde pode.

Engraçado é que a disparidade de tratamento dado aos grupos étnicos também se replicou ali. Ao invés de retirar as supremacistas brancas do recinto, Coates puniu a todas encerrando a sessão.

Ainda conseguiram colocar na mesma sequência Dogget se achegando a Coates, Nicky chegando chapada, Kukudio se vingando de Suzanne e uma Judy King partidária quando lhe é conveniente. Tenha havido fôlego!

E enquanto tudo isso rolava, Flores se mantinha firme em sua resistência, mesmo em condições precárias, aguentando a gritaria e o autoritarismo de Piscatella e o desrespeito das supremacistas. Comer a comida que lhe foi atirada foi a melhor reação-reposta que Branca poderia ter tido.

E ainda teve aquela conversa bizarra sobre as origens de Jesus Cristo.

A situação fez Piper cair na real de uma vez por todas. Concorda-se com Vause, não que Chapman tenha inventado o racismo branco ou que tenha sido a única responsável pela união das supremacistas. Mais cedo ou mais tarde elas se encontrariam e se reconheceriam, fosse pelas conversas de corredor, pelas cabeças raspadas ou pelas tatuagens (uma das delas tem tatuada uma cruz celta, símbolo dos boneheads, de todo tamanho, maior do que a cabeça), então não bastaria para que o ódio tomasse corpo. Contudo, Piper acelerou esse processo. Bunny, skull, bunny, skull.

Chapman tentou reverter a situação recorrendo a Piscatella e deu com a cara na porta. O poder já subiu à cabeça do ogro, diante da ausência de Caputo é ele quem está mandando em Litchfield, condição que ele faz questão de reafirmar, o tendo fez várias vezes ao longo do episódio. Piper, então, aderiu à desobediência e deu comida a Flores, desafiando Dixon a puni-la com uma advertência ou com o rastejamento para o dormitório determinado por Piscatella. Ela só não contava com genialidade (cof cof) de Dixon ao mandá-la se juntar a Flores.

E com aquelas duas detentas em cima da mesa, Dixon se viu enrascado e passou um rádio para Piscatella que, por sua vez, se via em um outro problema, um dilema, mais precisamente. E, novamente, na ausência de Caputo, deixando muito claro o que pensa e como se posiciona, mandou derrubar sem piedade o jardim e a estufa. Alerta vermelho para Alex, Lolly, Frieda e Red, afinal o corpo de Aydin estava ainda ali em plena decomposição.

E se perdoam o trocadilho, que composição do último plano do episódio!

Definitivamente, a porteira foi aberta para a reta final da quarta temporada.