Orange Is The New Black – 4×12 – The Animals

crazy eyes
Imagem: Banco de Séries

 

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Lembram-se que prometeram uma temporada mais sombria? Para os que ainda não estavam convencidos, se The Animals não os convenceu, fica difícil pensar no que o faria.

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O episódio, até agora o único da temporada iniciado com um flashback, trouxe a história pregressa de um personagem que até então não fedia nem cheirava, Baxter Bayley. Ele e os amigos, recém-saídos do ensino médio, resolveram comemorar com a típica transgressão de propriedade privada tão presente no imaginário (e no estereótipo) do adolescente norte-americano. Cerveja e maconha no alto da torre de Licthfield eram os elementos do ritual de passagem para a vida adulta. Passagem essa que só ficaria no plano das ideias diante da imaturidade persistente do grupo de amigos, reforçada pelas concepções que trazem de Litchfield, pelas súplicas na delegacia e pela a reação ao (des)emprego, ao tratarem uma demissão justificada com uma vendeta de moleques.

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Perfis de jovens brancos, médios, inconsequentes, voláteis, irresponsáveis que saem por aí em seus carrões se divertindo às custas da agressão ao próximo. Jovens ilesos para quem as “sapatões perigosas” estavam ali de bobeira e mereciam a ovada. O alvo? Frieda, aquela que realmente cortou o pênis do marido (2×10“40 OZ of Furlough”). No fim das contas, não era lenda, rapazes. A Golden Girl não se calou e gritou o que todas as detentas vêm querendo gritar ao longo da temporada: “I’m a fucking human being!”. E mesmo diante da humilhação, sofreu uma represália de Donaldson, na época ainda um guarda.

Assim como ficou subtendido que o ovo que acertou Frieda veio de Bayley, ficou subentendida na expressão dele o incômodo provocado pelas molecagens. Talvez isso o tenha levado a trabalhar em Litchfield, ainda que sem perfil nem experiência. Ele não soube dizer ao certo a Caputo seus motivos para estar lá. Um emprego enquanto outro não aparece. Fato é que lá está. Mais um guarda sem qualquer treinamento, sem qualquer preparo, empoderado por uma cacete na cintura e uma farda azul celeste.

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Desde o episódio passado, as inquietações de Bayley com tudo o que acontecia em Litchfield ganharam mais destaque e era visível que o menino estava a ponto de quebrar. Sem dormir e abalado, fez o que deveria ter feito há tempos ao relatar a Caputo que acontecia em ausências, mais especificamente o que havia se passado na noite anterior.

Por sua vez, Caputo enfrentou as consequências de suas próprias ações (ou omissões) e se encontrou impotente diante dos abusos da trupe de Piscatella. Foi cobrado acertadamente por Taystee e ridicularizado pelos agentes do FBI pela falta de discernimentos nas contratações. Então, ciente de sua própria perdição, tentou se livrar do caos ao tomar um ar fresco, não sem antes se deparar com Bayley e tentar livrá-lo de um destino algoz. Caputo sabe que carrega em si a cidade e o monstro e não quer ninguém mais nessa condição.

Agora pulemos algumas casas, e nos atentemos à conversa entre Bayley e Coates no auditório/capela. Faltou cumplicidade e sobrou covardia em Donuts para lidar com desabafo do colega. Sim. Há tentações, há mudanças. Perde-se o que há de humano e racional.

Quem também lutava para sobreviver em Litchfield era Burset, que depois de um risca-faca leve no banheiro com Mendoza, deu o braço a torcer e aceitou ajuda. O caminho tem sido árduo para Sophia e ela precisa de todo apoio que puder. E permitam dizer que Gloria, do alto de sua redenção, foi sensacional ao expulsar as meninas do salão e ao dar uma chamada em Daya. Aos poucos, Sophia vai se reerguer!

Em outros ares, Soso e Poussey faziam planos para o futuro. Fiji, bangolo, amor, novos empregos. “Vou escavar merdas, e você, sepulturas” (essas palavras voltariam a ecoar). E pensando tanto nessa vida lá fora que Washington foi a King pedir uma força, prontamente atendida. Poussey foi correndo contar a Brook e continuaria tudo bem não fosse a diferença de ideologias e posicionamentos entre o casal. Em seus últimos instantes, Poussey reveria isso.

Outro casal que ia bem era Piper e Alex. Enfrentando seu inevitável destino, decidiram que levariam uma vida leve e até sexo voltaram a fazer. A fala de Vause ecoa pelos corredores de Litchfield, transborda por aquelas pessoas, por Bayley e por Frieda. Escolhas e consequências andam juntas. Não que estejamos fadados à predestinação, mas de um jeito ou de outro as pessoas se cruzam.

Sem saber, Nicky reuniu Dogget e Big Boo e as duas se acertaram. Mais uma vez, destaque para a grandiosidade e a força do texto desta temporada. Uma fala de Pennsatucky (que particularmente me interessou desde quando assisti o trailer desta temporada) para carregar para vida: “Do you know the difference between pain and suffering? (…) pain is something that…Pain is always there, bacause life is freaking painful, okay? But suffering is a choice.” Processado isso, Big Boo meteu-lhe um tapão na cara de Coates e jurou proteção à amiga.

Vá lá que ele não ainda não tenha recebido a punição merecida pelo abuso cometido. Vá lá que Dogget tenha escolhido deixar isso para trás, ainda que tenha sido por uma fragilidade disfarçada de superação. E isso é desencorajante, como se uma conversa tivesse apagado aquilo tudo e a impunidade restasse. Acredita-se, sim, no perdão, em estar bem consigo, mas se agradece por Big Boo estar ali e se fazer a lembrança viva dos feitos do agressor.

No meio disso tudo tivemos uma Morello perdida, dando dez passos para trás em sua estabilidade emocional. Confessa-se que restou uma dúvida sobre a veracidade da traição de Vince. O que preocupou mais foi Lorna se enterrar de cabeça em seu mundo fantasioso ao contar paras as amigas que ela e Vince estavam planejando um filho. Lorna tem sua própria premissa: contar algo para os outros torna as coisas reais, seja um fato ou um sonho.

Próximo dali fomos apresentados a uma Judy King em pura aflição para sair daquele “buraco”. Quem delas não quer? Mais uma vez o privilégio batia à porta.

Posto isso, tendo em mente quatro conversas que rolaram no episódio (Bayley e Caputo, Bayley e Coates, Alex e Piper, Dogget e Big Boo) lembrem-se do livro que Bayley deu a Coates no episódio passado. It, de Stephen King, narra a história de um grupo de sete amigos que, quando crianças, enfrentaram uma criatura que se alimentava do medo e 30 anos depois voltam a enfrentá-la novamente, numa espécie de confronto final. É um livro que traz as linhas do passado e do presente para se construir, cujo lugar onde se passa o enredo tem muita força, quase um personagem, e não há protagonistas estritamente definidos. Parece com algo que a gente conhece. Não? Então ponha Litchfield no lugar de Derry (a cidade cenário do livro), Piscatella no lugar da criatura e as detentas no lugar das crianças/adultos.

Não que a formação da coalizão tenha sido fácil, vide o ranking de ódio de Sankey, a hostilidade intrínseca a elas e a desastrosa reunião da cúpula na biblioteca, mas ela era necessária e para além de quaisquer conflitos e divergências ela tomou forma.

Mas para essa intenção ganhar forma foi preciso Suzanne ficar naquele estado; foi preciso Dixon quebrar o relógio de Taystee; foi preciso saber que Humphrey perturbava a detenta que estivesse em sua frente; foi preciso Stratman incomodar; foi preciso deixar as rixas de lado; foi preciso destacar que existem outros grupos étnicos, e Hapakuka foi excelente nisso; foi preciso Red chegar à exaustão e pedir socorro a Healy; foi preciso Piscatella e seu discurso enfadonho no refeitório; foi preciso Red, novamente, o alvo declarado do orgro, ser humilhada e lançada ao chão para que o protesto pacífico começasse.

Adicionem a essas necessidades a ausência de duas figuras controversas e importantes para aquele momento, que escolheram cuidar de suas vidas pessoais. Ok. Healy chegou ao seu limite. Ao lado de Bayley, era, sem dúvida, o guarda mais abalado com o que havia acontecido na noite anterior, estava estampado em seu rosto. O fantasma de Lolly e de sua mãe o fizeram estático. O medo do que poderia se tornar o consumiu e, por contra própria, se internou em uma instituição psiquiátrica. O outro, Caputo, também movido a medo, aliado ao desespero e à impotência, procurou refúgio com ninguém mais, ninguém menos do Fig, o outro ser (desprezível) que consegue ser o monstro e a cidade. Novamente Caputo arregou quando teve a chance de voltar ao presídio e cumprir seu papel. Trocou sua função de Diretor de Atividades Humanas por um orgasmo.

O que nos leva à sequência final e ao rumo da jornada de Poussey.

Refeitório lotado. Lorna conta a Nicky, Alex e Pier sobre o bebê e elas falam sobre a volta de Vauseman. Piscatella chega. Vai a Red e a tira da salinha. Piscatella discursa e empurra Red que cai no chão. Bayley está parado na grade e nada faz. Ruiz levanta Red do chão. Piscatella vai saindo. Nicky o questiona. Piscatella dá ordens a Dixon sobre Red. Flores joga a bandeja e sobe na mesa. Seguida por Piper, Taystee, Hapakuka, Sankey e Vause. Todas sobem – elas estão em formação –. Dixon quer saber se é preciso reforço. Piscatella diz que não. Soso e Poussey se olham e se desculpam. Ruiz dá os informes. Piscatella pede reforços. Hapakuka reitera a pacificidade do protesto e seu motivo. Frieda olha para Red. Red olha para Piscatella – os dois estão exatamente em extremidades opostas do refeitório, de frente um paro o outro –. Red sobe em uma mesa com a ajuda de Frieda e Ruiz. O reforço chega. Piscatella ordena que tirem as detentas à força dali. Humprhrey está na frente. Suzanne vê Humphrey e se agita. Suzanne começa a se debater. Bayley observa atordoado. Piscatella ordena a Bayley que leve aquele animal (sic) dali. Bayley agarra Suzanne. Poussey pede para falar com Suzanne. Bayley solta Crazy Eyes, derruba Washington no chão e a imobiliza com uma mão na nuca e um joelho nas costas. Suzanne tenta tirar Bayley de cima de Poussey, que afirma que Suzanne não sabe o que está fazendo. Humphrey tira Maritza de cima da mesa. Poussey reclama de dor. Mais detentas são retiradas à força. McCullough tenta imobilizar Suzanne. As duas caem. Suzanne volta a puxar Bayley. McCullough grita por Piscatella. Poussey pede por socorro. Warren continua gritando que é ruim e que fez uma coisa ruim. Dixon arrasta Taystee. Judy está enojada com tudo. Taystee vê Poussey e grita por ela. Piscatella tira Suzanne de cima de Bayley. Coates tira Bayley de cima de Poussey. Suzanne grita desesperada. As detentas se aproximam de Poussey. Uma barreira de guardas começa a se formar. Piscatella manda que alguém chame um paramédico. Taystee se solta de Dixon e vai a Poussey. Taystee, inconsolável, se deita ao lado dela.

Tanto descritivismo para tentar compreender o caos que foi essa sequência final. E seu desenlace, inevitável e preciso diante de todos os acontecimentos da temporada. The Animals  seguiu o ritmo mais lento dos demais episódios da temporada, em que nada parece acontecer, quando de fato tudo acontece. À exceção de seus minutos finais.

Uma morte estúpida, consequência de um total despreparo por parte da equipe que deveria zelar pela segurança das detentas. Foi a falta de sensibilidade, o extremismo, o radicalismos e  a intolerância desembocadas em um fim trágico. Selvagens são os de farda, sem treinamento, sem estrutura, abitolados pela guerra, impregnados de preconceitos, imbuídos de um falso poder, equivocados em suas próprias condutas. Aquele ali não é só um emprego.

Poussey é uma personagem querida e morreu na tentativa de proteger uma amiga. Bayley é um personagem secundário e matou perdido entre a cidade e o monstro. Narrativamente era preciso que fossem personagens de seus perfis para arregaçar com as críticas levantas pela série. Foi preciso dar no que deu. Era para acontecer. Fantasioso seria o contrário. Um Piscatella rapidamente demitido sem qualquer estardalhaço. Orange é um drama e dramas são baseados em elementos palpáveis, prováveis e passíveis. Portanto, mais uma escolha madura e condizente com a prosposta e a abordagem de seu universo.

Em especial, o último plano, com  a câmera em topo em um movimento de afastamento dos personagens, serviu para nos lembrar do abismo que existe entre a realidade prisional e a sociedade. Afinal, somos espectadores da série e somos espectadores aqui.

É, “Litchfield parece até bonita à noite”. Só parece.

Menção honrosa:

  1. Os trejeitos de cada detenta subindo nas mesas, com destaque para Cindy.
  2. O embate entre Judy King e Yoga Jones,  na ressaca pós-ménage.  Elas já podem virar um shipp?
Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.