Orange Is The New Black – 4×13 – Toast Can’t Never Be Bread Again [SEASON FINALE]

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Imagem: Banco de Séries

“Is this the bus to the underworld?”. De certa forma foi. Ao menos para Poussey, vítima do despreparo, da falta de tato da equipe de Litchfield. E quando se supôs que sua jornada em Orange havia se encerrado, fomos tomados de assalto por sua voz e postos diante de mais um capítulo de sua backstory.

Não à toa, este e o episódio anterior – “The Animals” (4×12) –  são os únicos que começaram com um flashback. Bayley e Poussey, respectivamente, na casa dos 20 anos, de um acaso nas ruas de Nova York a Litchfield, cada um deixou uma marca no outro.

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Fomos levados ao dia em que Poussey foi presa por invasão de propriedade privada e posse de drogas, cravando sua vaga em Litchfield . Faça-se uma ponte com o episódio anterior em que Bayley e os amigos também invadiram uma propriedade privada, carregavam drogas consigo e, mesmo menores, ingeriam bebida alcoólica. Ganharam foi um tapinha nas costas. Façam as contas.

Voltando ao flashback de Poussey, é inegável o tom diferenciado da abordagem do “último dia de liberdade”. Diferentemente dos outros, tão densos e sombrios, às vezes desesperadores, o flashback da vez foi irreverente, descontraído e alegre. Foi de uma ponta à outra Poussey Washington, a party person. E que noite maravilhosa ela teve! Deu vontade de curtir aquilo tudo junto com ela. Lugares incríveis, experiências incríveis, pessoas incríveis. Em contrapartida, tornou o processamento do tempo presente muito mais doloroso.

Lembram-se do papo de Alex sobre destino no episódio passado? Ele foi fundamental para os acontecimentos de “Toast Can’t Never Be Bread Again”. Os sinais do destino estavam ali em diálogos do flashback, estiveram na temporada, estariam no episódio (um roteiro literário é um destino se pararmos para pensar).

No cruel tempo presente, ainda sendo desrespeitada por corporações, sistemas e condutas, Poussey, ou melhor, seu corpo, continuava estatelado no refeitório. Mesmo a vigília dos guardas não evitou que a equipe da cozinha o visse. Mais provas de despreparo da equipe administrativa.

Finalmente Caputo foi para cima de Piscatella, meio tarde, mas pelo menos foi. E nem sob as circunstâncias postas, o ogro desceu de sua arrogância, crueldade e intolerância. Quem é Pornstache perto de Piscatella? Quem? Para deixar sua marca mais funda, ainda foi capaz de cuspir o chiclete no chão.

Por suposto, boa parte do episódio abordou o luto, e seus estágios, de Taystee, Cindy, Watson e Suzanne, cada uma a sua maneira, todas compartilhando a dor. Taystee cobrando Caputo, Suzanne usando seu raciocínio empírico, Cindy comendo e Watson exteriorizando sua raiva. E que dor! Absolutamente cabível toda a indignação e revolta das negras. Pensem se fosse uma Judy King da vida, ou uma Piper. A marginalização das negras, das latinas e de qualquer minoria está ali também, naquele corpo largado. Se ainda há dúvidas, volte na cena em que Dixon leva Bayley para casa. Voltem no circo que foi a liberação de Judy King. Voltem os olhos para Sophia Burset.

Soso também se entregou ao luto, procurando conforto nos braços de Norma – e que momento lindo! – e no hooch deixado pela amada. Obviamente a morte de Poussey era o assunto e afetou todas as outras detentas,  ainda que não próximas dela, postos os assunto/conflitos desenvolvidos ao longo da temporada e trazidos à tona. Alex e Piper, Nicky e Lorna, Red e Nicky, King s Jones, Kukudio e Suzanne.

Para além, o episódio foi bem feliz ao dosar tanto peso com momentos de certo alívio cômico, especialmente com Maritza e Flaca no banheiro, Piper e Alex na estufa, Angie e Leanne bêbadas, a retirada do véu de Abdullah (arrasou, menina!).

Voltando para o papo sério, as neonazistas precisam ser controladas. Sophia já virou alvo e elas foram extremamente insensíveis diante da morte de uma detenta. Menos não se esperaria, né? Ruiz lembrou bem: poderia ser uma delas. Qualquer uma delas. Qualquer.

E ambulância chegou. Mais dor. Mais intolerância. Mais dor. Ai, o ser humano…

A promessa de mais embate foi  recebida com sucesso. “All we got is time”.

Desumana também a atuação da equipe de gestão de crises da MCC, vasculhando a vida de Poussey e de Bayley procurando um culpado. Hellooo, ambos são vítimas do sistema prisional. E aqui vem a polêmica: foi um acidente. Não houve a intenção de Bayley sufocar Washington até a morte. O que não quer dizer que o caso não devesse ser avaliado com imparcialidade, nem que medidas não devessem ter sido tomadas.

Chegada a hora da coletiva de imprensa, era de se esperar que Caputo não seguiria as coordenadas da equipe de gestão de crises. Muito provavelmente a foto de Bayley e a ligação para o pai de Poussey o deram a coragem que precisava para mandar a MCC e as detentas às favas. Mais um erro para sua lista. Caputo, que deliberadamente escolheu o lado de “seus homens”, não levou em consideração as demandas das detentas. Pode não ter caído no papinho de Piscatella com “A” versão da história”, todavia ele criou a sua própria. Cobrou tanto respeito e não teve o mínimo.

Taystee, muito esperta, ficou por ali para ouvir e se encarregou de espalhar a notícia, uma traição do Diretor de Atividades Humanas.

Voltem no episódio na cena em que Piper, Hapakuka e Dwight conversam em seu cubículo. Dwight está lendo “Lord of Flies” (William Golding, 1954) cujo enredo é sobre um grupo de garotos que, após a queda do avião em que estavam, encontram refúgio em uma ilha deserta. Lá, sem qualquer tipo de supervisão ou regras, criam suas próprias condutas e acabam por se encontrar em processo de regresso à selvageria. Semelhanças com o caos que estava prestes a tomar conta do presídio.

Agora retornem a instantes antes sequência final. “Attica! Attica!”, que Leanne e Angie saíram gritando, é uma referência a um rebelião ocorrida no presídio de Attica, em 1971, no estado de Nova York. Pedia-se melhores condições de vida e respeitos ao direitos humanos. A expressão ficou popularizada pelo filme “Dog Day Afternoon” (Sidney Lumet, 1975), no qual Sonny, personagem de Al Pacino, a brada e logo se forma um coro.

Imbuídas de toda a indignação que lhes cabia, exauridas as vias pacíficas, somado ainda o calor das disputas étnicas – muito bem trabalhadas pela montagem e pela escolha de um cruzamento de corredores para ação –, as detentas não viram outra solução senão a luta. As premonições de Red estavam certas.

A sequência foi toda muito bem elaborada e conseguiu reunir quase todos os personagens centrais. E é importante destacar como tudo que foi desenvolvido até agora, neste e nos outros episódios, foi tão bem amarrado nessa sequência. Um exemplo? A arma malocada por Humphrey lá no início do episódio não era sinal de boa coisa e ver Maritza o empurrando lavou um tico da alma. Outro? A caça a bilhetes de Piper e Alex e o balde sendo chutado.

O mais bizarro de toda essa movimentação? Linda, da MCC, não poderia ter escolhido pior hora para visitar o presídio. Vai ter que descer da torre de marfim na marra.

A surpresa ficou por conta da songa monga da Daya pegar arma e tomar as rédeas da situação, nos deixando com um cliffhanger daqueles! Mas Diaz era a representante de todas elas. Diaz continha todas. Foi a tal líder que tentaram tirar da coalizão. Optar por uma câmera circulante intensificou isso.

E aí veio o tiro final, quando achávamos que tinha sido aquilo ali, os cabelos em pé arrumaram um jeito de espichar mais. Se o episódio passado terminou com o movimento de câmera nos afastando de Poussey, uma quebra da quarta parede a pôs de todo o tamanho na nossa frente nos dizendo “eu fui real”. “Isso tudo o que vocês viram é real”. E também não deixou de ser uma baita homenagem à personagem. “I believe this world’s a damaged place, and if you can finda a sliver of happiness, stay in as longs you can.”. E assim Poussey se eternizou.

Sem sombra de dúvida, a melhor, mais madura e consistente temporada de Orange (até agora). A próxima tem o dever de pelo menos manter seu papel social e dramático.

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

2 comments

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  1. Anderson Narciso
    Anderson Narciso 3 julho, 2016 at 17:16 Responder

    Não tava preparado para a morte da Poussey, muito menos pra esse flashback 🙁
    Foi de partir o coração essa cena final…

  2. Anderson Narciso
    Anderson Narciso 3 julho, 2016 at 17:16 Responder

    Não tava preparado para a morte da Poussey, muito menos pra esse flashback 🙁
    Foi de partir o coração essa cena final…

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