Orange Is The New Black – 5×10 – The Reverse Midas Touch

Imagem: Netflix/Reprodução

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“Quando a gente trilha esses caminhos, não é fácil sair deles.”

Eu comecei a review do episódio passado, “The Tightening” (5×09), falando que Piscatella era sádico. Eu estava enganada. Ele é pior do que isso e me faltam palavras para conseguir descrever o que ele é. Tal qual tivemos a história pregressa de um guarda na temporada passada, neste episódio os flashbacks se encarregaram de contar parte do passado de Desi Piscatella, com seu primeiro emprego como guarda, seu relacionamento com um dos detentos e etc. Mas antes faço um apontamento sobre o momento em que esse flashback veio. De início, senti como se estivesse no exato ponto da temporada passada, quando vimos o passado de Bayley, e logo me desanimei achando que a série havia se engessado em si mesma, tendo caído numa repetição descarada de estrutura de temporada. Por sorte estava enganada. Aliás, se ainda não havia falado disso, aqui vai: tenho passado a quinta temporada numa inevitável comparação com quarta, tendo impressões de que até os momentos de virada foram meticulosamente calculados para serem repetidos na mesma altura. Impressões que não se confirmaram. Obrigada.

Voltando a Piscatella, há na construção de sua história pregressa indicativos de que esse sadismo, de que essa raiva do mundo, de que esse desprezo para o que não é “padrão” (ou “socialmente aceito”) foram sendo construídas desde sua infância, quando enfrentou situações de repressão e de punição por ser gay. Os castigos aos quais foi submetido deixaram marcas que ele carregou consigo e que aprendeu a externalizar das piores formas possíveis. Meu pífio conhecimento em psicanálise não me permite discorrer sobre seus traumas mais profundos, portanto vou me atentar ao que vi: uma pessoa inescrupulosa que se esconde atrás de convicções deturpadas. E foi esse o mote que proporcionou o episódio mais impactante da temporada, que me tirou o fôlego e o juízo. Um episódio que provocou reações muito mais tangíveis do que a morte de Poussey, ou o estupro de Dogget, ou Lolly sendo levada para a ala psiquiátrica, por exemplo, para apontar outros momentos ao longo dessas cinco temporadas que mexeram comigo.

Foi tortura clara e límpida. Não há outro nome para adjetivar o que Piscatella fez com todas, mas sobretudo com Red, seu alvo maior e direto. Ali era pessoal. Pessoalíssimo, se me permitem o superlativo. E Desi Piscatella foi agindo meticulosamente, descamando parte por parte de Red, despindo-na verbal e fisicamente, destroçando-a, minando seu âmago, sua vaidade, sua feminilidade, sua dignidade. Ele foi em cheio para feri-la de todas as maneiras possíveis  e, pior, diante de suas filhas e protegidas. Como ele mesmo bradou, ele não queria a morte de Red, queria fazê-la sofrer, revelar suas fragilidade por motivos torpes.

Há tempos um episódio não me deixava tão angustiada com tamanha violência. Quando as personagens são bem construídas e quando direção e interpretação se fortalecem, o mínimo que se espera é excelência e a provocação de sensações  na pele, como se víssemos algo terrível acontecendo com alguém de carne e osso e que lhe é próximo. Quando mencionei, nas minhas expectativas, a espera por uma temporada mais visceral, não esperava tanto. Ao mesmo tempo, ver o descompasso obsessivo de Piscatella enfrentar a arrogância motivadora de Red foi pontual, como se a série, mais uma vez, tivesse posto um marco dentro de sua história. Agora existe um antes e um depois da tortura.

Imagem: Netflix/Reprodução

Enquanto isso, sequências bem menos violentas, porém não menos intensas aconteciam. As negociações agora a cargo de Taystee, Figueroa e Caputo seguiam um roteiro esplêndido. Cada fala ali reverbera por todas as temporadas, por todas histórias que foram e que estão sendo contadas. Foi tudo muito potente, todas as demandas são extremamente válidas, e por mais que saibamos a parcela de culpa no caos de responsabilidade de Caputo, ele representou uma onda de pessoas que sentiram puro orgulho e admiração pelo poder de argumentação de Taystee, pelo domínio das questões e pela paixão pela mudança. Arrepiante!

Outro ponto forte do episódio ficou por conta de Suzanne e sua trama, ao ter que encarar tantos esbarros no meio da rebelião. Ter que se ver pintada e ridicularizada, ter que ter a consciência de que Kukudio precisava da ajuda de um “adulto” e depois ter que lidar com o corpo de Humphrey. Sobre o primeiro momento, sem dúvidas, o mais emocionante, um discurso de auto-afirmação, de auto-valorização que permitiu que Suzanne não saísse dos trilhos de vez.

Selando as emoções à flor da pele do episódio, a conversa entre Dogget e Von Barlow/Linda no “Poo” foi um daqueles momentos clarificadores em que opressores param para escutar os oprimidos. Só estando na “merda” para Linda da MCC entender o que era o dia-a-dia das pessoas cuja única função era gerar lucro para a empresa. É aqui que a alegoria do banheiro químico se faz completa e a metáfora do título do episódio se completam. Não é Caputo que estraga tudo o que toca. É  o patriarcado, é o capital, é a sociedade que estragam e continuam estragando ao fazer dos menos favorecidos objetos de exploração. E tal qual na temporada passada, novamente é Dogget quem vai soltar as frases mais impactantes e reflexivas. Ali foi uma “entrando na pior” e a outra “mostrando o domínio dessa pior”. A porrada final foi apenas um acessório.

Afirmo com toda a certeza e com todo o meu entendimento da série que “The Reverse Midas Touch” (5×10) é, pelo menos até agora, o melhor episódio da temporada. Sem tirar nem por. Um episódio de roteiro fortíssimo e de um nível de atuação deslumbrante, com destaque, obviamente, para Kate Mulgrew (Red), Brad William Henke (Piscatella) e, claro, a merecedora de um Emmy, Danielle Brooks (Taystee).

Curiosidade: O episódio foi dirigido pela Laura Prepon (Alex)!

P.S.: Leanne e Angie podem ter sido o alívio cômico do episódio, numa perseguição a Stratman e no modo alienante com o qual trataram o enfermeiro bonitão. Todavia, eu continuo preocupada com possíveis desdobramentos desse comportamento descontrolado.

P.S. 2: Que vontade de dar um abraço em Gloria!

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

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