Os Causos Nordestinos de Ariano Suassuna

O Auto da Compadecida filme

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O Nordeste brasileiro é praticamente um universo à parte, tanto para quem conhece as mais diferentes culturas quanto para quem já viajou pelos mundos que a literatura dispõe. Um dos maiores expoentes das artes nordestinas é o paraibano Ariano Suassuna. Romancista, dramaturgo, poeta, ensaísta. Fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco ainda durante a faculdade de Direito, entre os anos 1940-50, e escreveu peças que viriam a ser premiadas.

O Auto da Compadecida, por exemplo, é dessas que todo mundo conhece. Uma das primeiras obras escritas para o Teatro do Estudante, encenada pela primeira vez em 1955, foi tão bem recebida que teve seus três atos publicados anos depois como livro. Mesmo quem não leu a publicação nos tempos de escola certamente deve conhecer a minissérie de quatro capítulos exibida pela Rede Globo em 1999. Com direção de Guel Arraes, adaptada por Adriana Falcão e João Falcão, além do próprio Arraes, O Auto virou filme no ano seguinte, porém com uma hora a menos de duração do que a obra televisa completa.

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O enredo conta as desventuras do mentiroso João Grilo (Matheus Nachtergaele) e do covarde Chicó (Selton Mello), que sem nenhum dinheiro caminham pelo vilarejo de Taperoá, no sertão da Paraíba, anunciado a exibição de “A Paixão de Cristo”. É interessante notar como não apenas os protagonistas são figuras fáceis de reconhecer no mundo real, mas os demais personagens trazem sujeitos marcantes que existem espalhados pelo Brasil. Como o coronel Antonio Moraes (Paulo Goulart), o Padre João (Rogério Cardoso) e o Bisco (Lima Duarte) que representam os maus sacerdotes.

Auto-da-compadecidaAliás, a mistura de personagens distintos e tão presentes na cultura popular é o que mais marcou nos produtos literário e audiovisual. O Cangaceiro Severino (Marco Nanini) e a Compadecida, interpretada por ninguém menos que Fernanda Montenegro, são papéis que justificam a existência de figuras representativas não apenas na crença sertaneja, mas no país inteiro. Outro detalhe interessante na adaptação é que o roteiro faz uso de outras obras de Suassuna para complementar a narrativa, como a comédia teatral “O Santo e a Porca” e “Torturas de um Coração”.

Outro título de Ariano Suassuna, este considerado a obra-prima do autor, também ganhou as telinhas nos anos 2000. “O Romance d’a Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” deu origem à minissérie A Pedra do Reino, tendo os cinco episódios exibidos em junho de 2007.

O romance, iniciado em 1958 e concluído apenas em 1971, é inteiramente inspirado na literatura de Cordel e nos repentes, subgêneros populares na cultura nordestina, além de misturar histórias de cavalaria com elementos da Idade Média e da cultura árabe. A obra é dedicado ao pai do autor e outros escritores regionalistas como Euclides da Cunha (de “Os Sertões”) e José Lins do Rêgo (de “Fogo Morto”).

Adaptada por Bráulio Tavares e Luís Alberto de Abreu e dirigida pelo inventivo Luis Fernando Carvalho, a microssérie foi a primeira realização do projeto Quadrante, que visava mostrar a diversidade cultural brasileira adaptando clássicos literários.

Ariano Suassuna faleceu em 23 de julho de 2014, aos 87 anos, deixando um rico apanhado de obras que deve ser lido não apenas por quem não dispensa uma boa leitura, mas por qualquer brasileiro. Em junho deste ano, o autor deu carta branca para adaptar “Auto da Compadecida” para romance gráfico – ou como gostamos de chamar, história em quadrinhos. Segundo o ilustrador pernambucano responsável por transpôr a obra, Jô Oliveira, “é possível transformar a história para o público infantil ter acesso ao texto de uma maneira menos pretensiosa”. A ideia não poderia ser mais certeira. Novos leitores são sempre bem-vindos.

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