Os deixados para trás

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Com a estreia da segunda temporada e sob a perspectiva de que o novo ano se libertará do livro que lhe deu origem, The Leftovers é um dos projetos que melhor sintetiza a palavra adaptação. Baseado no livro homônimo de Tom Perrotta, publicado no Brasil como Os deixados para Trás, a série da HBO é o tipo de projeto que se debruça sobre os personagens e ideias de um autor para modificá-los e desenvolvê-los da forma que achar melhor.

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Criada por Damon Lindelof e pelo próprio Perrotta, The Leftovers se passa três anos após um evento inexplicável fazer com que aproximadamente 140 milhões de pessoas desaparecessem sem deixar rastros. A história, porém, não se dedica ao acontecimento e seus mistérios, mas sim às pessoas deixadas para trás – os leftovers. Ao seguir de perto o drama das pessoas que não foram levadas (seja para onde for), tanto o livro quanto a série tentam mostrar a sociedade tentando se restabelecer depois de um evento tão impactante. No processo, há toda uma reconstrução política, social, religiosa e econômica. Cresce a paranoia, o medo, novas religiões, novas filosofias. Neste meio há Kevin Garvey, chefe de polícia que tenta manter a ordem em um novo mundo que não parece se estabilizar.

Para começar, as grandes diferenças entre a série e o livro se dão pelo fato de que é impossível transpor algumas coisas das páginas às telas. É mais simples, por exemplo, desenvolver um personagem através de mínimos detalhes que podem ser escritos. Além disso, o autor pode, sem maiores problemas, contar e aprofundar histórias apenas descrevendo o estado mental, os pensamentos e imaginações dos personagens. Na TV ou no Cinema, as coisas são bem diferentes, já que é impossível revelar o que se passa na mente de alguém sem apelar para narrações em off ou conversas expositivas.

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Muitos fãs do livro reclamam que a série é pouco fiel ao material de origem. Mas o próprio autor tenta acalmar os ânimos. Para começar, o show foi criado e é escrito e produzido pelo próprio Perrotta, ou seja, tem o aval direto do próprio mentor. Além disso, Perrotta afirma que o programa deve ser visto como uma reinterpretação da mesma história. O escritor conta, por exemplo, que uma das melhores coisas da produção é poder desenvolver tramas que não pôde contar com afinco no livro, reciclando e criando novas ideias.

Um dos pontos iniciais é que o livro é notavelmente melancólico e muitas vezes racional. A série, por outro lado, como todo produto áudio-visual, precisa manter o público interessado e, para isso, precisa investir em abordagens diferentes daquelas vistas nas páginas. Um dos pontos mais perceptíveis é a violência declarada do show, enquanto o romance é mais “pacifista”. A mudança toda já começa no protagonista: na versão literária, Kevin é um homem de negócios inteligente que depois do Arrebatamento acaba virando prefeito da cidade. Na versão televisiva, Garvey é um chefe de polícia estressado que tem medo de ficar louco como o pai.

Essa mudança é facilmente explicada e nos leva ao ponto inicial: algumas coisas funcionam muito bem quando escritas, mas não tão bem quando filmadas. De início é preciso reconhecer que anti-heróis são populares na televisão atual, o que torna o policial de pavio curto muito mais atrativo do que o político inteligente. Além disso, segundo o co-criador Damon Lindelof, é muito mais fácil colocar um policial no centro da ação do que um político. Para encerrar a discussão, o público se interessa muito mais pela rotina intensa de um policial do que a burocracia e o falatório político. Nem Perrotta pode discordar disso, certo?

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Outra diferença gritante é o viés sobrenatural da série que não está no livro. É claro que ambas as versões partem do princípio inexplicável do Arrebatamento, mas o programa vai muito além e investe em diversos mistérios confusos. Marca registrada de Lindelof, conhecido por ser um dos principais roteiristas de Lost. O que é ou de onde vem o veado que Kevin vê vez ou outra? E o assassino de cachorros? Aliás, quem explica a situação dos cachorros, pombos e de diversos animais que se comportam de forma estranha? E o mendigo e seus sonhos proféticos? Nada disso está realmente no livro. Apenas a história envolvendo os cachorros partiu de um capítulo não publicado por Perrotta.

Outro fator que prova o perfil “sangue nos olhos” da série é que o culto “The Guilty Remnant” é muito mais ativo do que no livro. Enquanto nas páginas o grupo se mostra complacente, nas telas é ativo e incisivo. Esse dinamismo do show promete continuar na segunda temporada, que muda de cenário e promete se livrar de uma vez por todas do livro. É quase um reboot do programa: nova ambientação, livre de amarras, novos personagens e até mesmo uma nova abertura.

Assista a nova abertura da série:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=rLSH-81yT7s[/youtube]

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