A nova série Os Donos do Jogo, da Netflix, vem chamando atenção por seu retrato intenso do submundo do Rio de Janeiro. Criada por Heitor Dhalia, Bernardo Barcellos e Bruno Passeri, a produção mergulha nas disputas de poder do jogo do bicho, nas alianças familiares e na transição desse império centenário para o mundo digital das apostas online.
Apesar de ser uma obra de ficção, a série se apoia em fatos, estruturas e dinâmicas muito próximas da realidade — especialmente nas relações entre crime, política e Carnaval. Veja o que é real e o que é ficção em Os Donos do Jogo.
3 VERDADES sobre Os Donos do Jogo

1) O poder das famílias criminosas é real
Na trama, Profeta (André Lamoglia) é o herdeiro de uma família de bicheiros do interior que se muda para o Rio de Janeiro para ampliar seus negócios. Lá, ele enfrenta os poderosos clãs da capital, liderados por Búfalo (Xamã) e por sua esposa, Suzana (Giullia Buscaccio), enquanto a cunhada Mirna (Mel Maia) tenta tomar o controle da família.
Essa estrutura de poder reflete com precisão a realidade do jogo do bicho no Rio. Como explicou o sociólogo Daniel Hirata, da UFF, o “familismo” é uma característica marcante: o poder é transmitido por laços de sangue, e as disputas internas entre herdeiros e cunhados são comuns.
Casos reais, como o de Castor de Andrade, cuja morte em 1997 desencadeou uma guerra entre filho, genro e sobrinho, inspiram o tipo de conflito que Os Donos do Jogo leva à tela — uma luta constante por legitimidade e sobrevivência dentro da própria família.
2) As “cúpulas” do crime e o elo com o Carnaval e a política
Na série, há um “conselho de contraventores” que define territórios, resolve disputas e mantém conexões com políticos e empresários. Esse elemento também é inspirado em fatos reais.
Nas décadas de 1970 e 1980, existiu no Rio a Liga Independente dos Bicheiros, formada por nomes como Castor de Andrade, Anísio Abraão David e Capitão Guimarães. Juntos, eles dividiram o controle da cidade e usaram sua influência para financiar escolas de samba, consolidar poder político e infiltrar-se na economia formal.
A relação entre jogo, samba e política é um dos pilares de Os Donos do Jogo. Como observa o cientista político Danilo Freire, o patrocínio ao Carnaval foi uma forma de “legitimar o poder”, criando empregos e transformando os bicheiros em figuras públicas respeitadas. A série traduz esse universo com fidelidade, mostrando como o crime organizado se mascara sob o brilho do samba e da cultura popular.
3) O conflito em torno da legalização dos cassinos é real
Um dos eixos principais da série é a ameaça da legalização dos jogos de azar, que pode desmontar os impérios ilegais. Na história, o avanço de projetos de lei e o surgimento de plataformas digitais de apostas forçam Profeta e outros bicheiros a reinventar seus negócios para não perder espaço.
Essa tensão é baseada em fatos reais. O Projeto de Lei nº 2.234/2022, em debate no Congresso, propõe legalizar cassinos integrados a resorts, com o objetivo de gerar empregos e aumentar a arrecadação de impostos. Caso aprovado, ele pode reduzir a influência das facções e milícias que lucram com o jogo ilegal — exatamente como a série sugere.
Além disso, investigações policiais mostraram que bicheiros reais têm migrado para o universo das apostas online e cassinos virtuais, usando esses sites para lavar dinheiro e ampliar o lucro. Essa mudança de cenário é retratada em Os Donos do Jogo através de Profeta, que tenta lucrar com apostas digitais, simbolizando a passagem do crime tradicional para o crime de “colarinho branco” digital.
2 MENTIRAS sobre Os Donos do Jogo

1) Os personagens da série são pessoas reais
Embora a trama soe familiar, Os Donos do Jogo não usa nomes ou histórias reais. Nenhum personagem — nem Profeta, Búfalo ou Mirna — representa indivíduos específicos. Segundo as fontes, os roteiristas se inspiraram em estruturas e contextos do crime organizado carioca, mas criaram figuras totalmente fictícias.
A ideia é construir um retrato verossímil, mas sem dramatizar casos verdadeiros. A série é, portanto, uma obra ficcional com base social, não uma dramatização documental.
2) A legalização dos cassinos já foi aprovada
Outra confusão comum é achar que o Brasil já legalizou os cassinos. Isso é falso. A série reflete o debate sobre o tema, mas o projeto ainda está em tramitação. O texto do PL 2.234/2022 propõe a criação de cassinos e resorts, mas o assunto continua em discussão no Congresso.
Na realidade, o jogo de azar ainda é ilegal no país — o que mantém o poder das redes clandestinas que a série retrata.
Um retrato brutal — e reconhecível
Ao fim, Os Donos do Jogo combina ficção e realismo com rara habilidade. A disputa entre clãs familiares, o vínculo com o Carnaval e a política, a migração para o mundo digital e o debate sobre a legalização compõem um retrato do poder enraizado na cultura carioca.
Heitor Dhalia define a produção como uma “máfia tropical”: uma narrativa de ambição, sangue e tradição, onde o Rio de Janeiro brilha e apodrece ao mesmo tempo.
E, mesmo sendo ficção, o incômodo que ela causa vem do fato de que, no Brasil real, as fronteiras entre o jogo e o poder continuam perigosamente turvas.