Os Melhores – e piores – filmes de 2016

Melhores Filmes do Ano

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2016 finalmente chegou ao fim. Se em outras épocas chegávamos em dezembro com sentimentos de dever cumprido e bons resultados, agora chegamos aos últimos dias com um gosto amargo. Não foram doze meses amistosos pra muita gente. Muita coisa deu errado, mas não podemos esquecer que outras tantas deram certo. A arte, como sempre salvou vários dias de um ano nublado. O cinema, como sempre, foi um bom refúgio. Em 2016 tivemos muita coisa boa e algumas delas surgem aqui, na lista dos melhores filmes do ano. Vale lembrar que entram na lista apenas filmes lançados comercialmente no Brasil, seja nos cinemas, direto em DVD/Blu-Ray, mídias digitais e plataformas de streaming. Com isso, algumas obras sensacionais lançadas em 2016 no exterior não entram no TOP 10, pois não chegaram oficialmente ao nosso país. É o caso de A Criada, Hacksaw Ridge e tantos outras sensações do próximo Oscar, por exemplo. Além disso, sempre é bom frisar que a lista é de cunho pessoal e não representa a opinião do site como um todo. Assim, foram levados em conta apenas o gosto pessoal do redator e nenhum outro artifício – como bilheteria, equipe ou prêmios.

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Sem delongas, vamos ao que interessa:

TOP 10 – Os Melhores Filmes de 2016

10 - O Lagosta

10 – O Lagosta

O cinema de Yorgos Lanthimos não é fácil, mas se comparado ao elogiado longa anterior do cineasta, Dente Canino, O Lagosta é bem mais acessível. Ainda assim, o novo filme do diretor grego traz impresso em cada quadro uma espécie de surrealismo pouco visto no cinema atual. O próprio modo como os personagens se movem, falam ou interagem entre si já revela uma abordagem incomum. Nas mãos de um diretor pouco competente, o projeto falharia ao criar laços com a audiência, tamanho o estranhamento. Com Lanthimos, entretanto, somos jogados no universo inventivo da história e, aos poucos, vamos nos aproximando daqueles estranhos seres que habitam aquele universo. Embora distante da realidade, o filme consegue traçar paralelos relevantes com nossas existências, assim como toda boa fábula. Para completar, Colin Farrell surpreende com a melhor atuação de sua subestimada carreira.

8 - Creed

9 – Creed

Creed não traz absolutamente nada novo. A jornada do lutador que sai do nada – ou do muito pouco – e tenta se provar como campeão já foi contada inúmeras vezes das mais diversas maneiras. No universo de Rocky, contudo, esse arco se repete e ainda tem forçam. Sai Balboa, entra Adonis. Pouco muda, mas quando se tem Ryan Coogler numa direção poderosa e um elenco afiado, o que poderia se tornar um engodo torna-se um dos grandes dramas do ano. Creed, assim como Rocky – Um Lutador, entende que o importante não está nas lutas e nem mesmo no treinamento, mas no desenvolvimento de seus belos personagens. É na parceira e na união inquestionável de Rocky e Adonis que nascem alguns dos momentos mais emocionantes que o cinema entregou nos últimos meses. Sylvester Stallone prova mais uma vez aquilo que já mostrou ao decorrer de todo sua carreira: além de astro de ação, é um grande ator. Basta ver o olhar cansado, mas cheio de humanidade, de Rocky para perceber a perfeita comunhão entre ator e personagem, feitos um para o outro.

8 - A Bruxa

8 – A Bruxa

Antes de ser um filme de terror, A Bruxa é uma fábula. Todas as fábulas que conhecemos, da Chapeuzinho aos Porquinhos, tinham versões bem mais pesadas e realistas antes de serem o que são. Dizem que as histórias originais eram regadas de violência e subversão. A Bruxa, de Robert Eggers, é uma espécie de fábula crua, antes de se tornar um leve relato de princesas e lobos maus. O próprio cenário, a pequena casa cuja chaminé nunca para de exalar fumaça, os animais, o perigo, as morais. Tudo está lá, como em um clássico da Disney. A grande diferença é que The VVitch é um visceral terror calcado na atmosfera. Não espere jump scares; não espere sustos de qualquer forma. O grande trunfo do longa é a ambientação pesada, regada a uma fotografia dessaturada, uma trilha desconcertante e direção precisa. A Bruxa tem quadros tão belos e perturbadores quanto as melhores gravuras das mais intensas e misteriosas histórias que atravessaram os séculos e amedrontam gerações até hoje.

7 - Capitão Fantástico

7 – Capitão Fantástico

Quando os primeiros acordes de Sweet Child O’Mine saem das cordas de um violão, em uma linda e doce versão acústica, ao ar livre, cantada por jovens vozes de uma família tão linda e doce quanto, Capitão Fantástico já havia ganhado meu coração há muito tempo. O debate proposto pelo longa pode ser batido, mas nunca perde a força, principalmente em um mundo embasado em ódio como o atual. Em um ano tão difícil como 2016, um filme tão sincero e otimista como Capitão Fantástico parece aquela velha imagem da flor nascendo entre a fissura no concreto. Cheio de vida, o filme propõe o desapego, o crescimento pessoal e espiritual calcado no amor coletivo e na vida livre das amarras urbanas. A família tradicional (brasileira ou não) terá uma síncope ao acompanhar o capitão e seus filhos. Feliz Dia de Noam Chomsky!

6 - O Quarto de Jack

6 – O Quarto de Jack

As premiações e críticos mundo à fora estabeleceram Jacob Trambley como coadjuvante de O Quarto de Jack. Embora a decisão seja compreensível, pelo fato de garoto dividir o peso com sua colega, Brie Larson, a impressão que fica é de equívoco. O fato é que o pequeno ator é protagonista do longa de Lenny Abrahamson, mais do que Larson, inclusive. É ele que faz as engrenagens se mexerem e é ele que sustenta boa parte da história na ausência da parceira. Não só: todos os momentos de pura emoção e peso dramático recaem sobre ele, que domina cada cena com talento irretocável. O primeiro encontro com o cãozinho de seus avós é de arrancar lágrimas e risos, mas é realmente a fuga do cativeiro que marca a projeção, numa sequência comandada pelo diretor de forma exemplar. Abrahamson, aliás, mereceu cada honraria, incluindo a indicação ao Oscar, por seu trabalho sensível e tecnicamente esperto. Ao fim, O Quarto de Jack é uma obra de humanidade inquestionável, de sensibilidade ímpar.

5 - Os Oito Odiados

5 – Os Oito Odiados

Certa vez li alguém escrever que Quentin Tarantino era uma metralhadora de palavras. Embora a analogia pareça tola, não deixa de ser verdade. Basta assistir os primeiros minutos de Os Oito Odiados para notar a verborragia elegante do roteirista. E embora pareça, Tarantino não é prolixo. Por mais que as quase três horas de duração sugiram um autor no auge de sua autoindulgência, Quentin usa todo seu tempo para desenvolver seus distintos personagens e levar sua história adiante. É tanta coisa que o sujeito quer contar que ele precisa apelar para flashbacks e pontos de vista para sugerir mistérios e amarrar pontas soltas. E olha que quase toda a história se passa em uma cabana! Mas Tarantino, no domínio de seu talento, constrói um épico de palavras abundantes, personagens icônicos e clímax sangrento. Não é melhor que Django Livre (seu melhor filme), mas é outra joia em sua brilhante carreira.

4 - Carol

4 – Carol

Assistir Carol é perceber que Todd Haynes, seu diretor, possui total domínio de sua arte. Acompanhar os belíssimos quadros compostos pelo cineasta e seu diretor de fotografia é notar que tudo foi minuciosamente planejado. Dos enquadramentos que rementem às antigas fotografias da época ao jogo de cores, tudo parece exatamente onde precisa estar. Note, por exemplo, que Carol é representada frequentemente pelo vermelho, remetendo à paixão e à personalidade da personagem. A cor aos poucos vai tomando conta de Therese, primeiro no gorro de Natal (“Adorei o gorro”, diz Carol no primeiro encontro), depois em detalhes nas roupas e objetos. O verde, presente quando as duas se relacionam, invade a vida da jovem Therese mesmo depois que as duas se separam (a cena dela pintando paredes de verde é a prova disso). O amor entre as duas mulheres é explícito, mas o melhor está nas minúcias, nos detalhes que muitas vezes nem percebemos. Todo amor é assim, afinal. Fora direção, fotografia, arte e trilha sonora irretocáveis, Blanchet e Mara estão impecáveis neste que é o melhor romance do ano.

3 - Spotlight

3 – Spotlight

Alguns podem não entender o sucesso de Spotlight com a crítica e nas premiações. Filme de apuro estético mínimo, Spotlight aposta no roteiro e nas atuações de seu afiado elenco. Os resultados são positivos do início ao fim, mas a importância do longa-metragem vai além da denúncia, além da crítica à Igreja, às leis, corporações e até ao jornalismo. O projeto de Thomas McCarthy é um atestado histórico, algo que vai marcar o cinema e sua identidade como espelho da realidade. Assim como Todos os Homens do Presidente mostrou o jornalismo da época, focado no impresso, Rede de Intrigas mostrou o sensacionalismo que começava a dominar a TV na década de 70 e O Informante escancarou o jornalismo moderno amarrado às corporações, Spotlight também é mais do que uma história, é uma janela para a profissão. Aqui, vemos o jornalismo impresso vendo seus órgãos começarem a falhar e a respiração ficar afetada, frente ao boom cada vez mais notável da internet. É quase um documento histórico, mas longe do didatismo. Fora toda a importância, o longa ainda traz uma baita de um história envolvente e bem contada.

2 - A Chegada

2 – A Chegada

Quem ama e acompanha o cinema sabe de cor a máxima de que a sétima arte é um retrato da sociedade na qual está inserida. Ainda que muitas vezes inconscientemente, o cinema é capaz de criar histórias que dialoguem, direta ou indiretamente, com a realidade de sua época. Nossa percepção acerca das coisas vem com o tempo, pois só o passar dos anos regala sentido e importância a uma peça de arte. É por isso que só agora estamos percebendo a contemporaneidade desenhada pelos filmes. Nos últimos anos da era Bush, os filmes vencedores e favoritos do Oscar exalavam cinismo; 2008 que o diga: Onde os Fracos não Têm Vez, Sangue Negro, Conduta de Risco e até Desejo e Reparação, um romance totalmente agridoce. Na era Obama, o cinema aos poucos foi tomando ares de esperança, tons mais claros. Agora, em um momento de decisão e passagem, o cinema também começa a acenar alterações. A Chegada talvez seja um dos mais atuais e importantes, pois fala de algo fundamental nos dias de hoje: o diálogo. É a falta deste e a escassez de vontade em nutrir diálogo que assola a sociedade atual. É o ódio e a ignorância, muitas vezes nutridos por falta de empatia e conversa que nos leva a lugares obscuros. A Chegada propõe, então, que usemos nossa maior e melhor ferramenta: a voz. Dispostos a usá-la e recebê-la, estaremos em um caminho melhor.

1 - O Regresso

1 – O Regresso

É natural que, com o tempo, as pessoas passem a criticar – e até mesmo odiar – aquilo que deu certo ou recebeu aprovação massiva de público e crítica. Tem gente que critica blockbuster só por serem o que são. É com certa frequência que, agora, vejo crítica a Clube da Luta mais pelo filme ser popular do que qualquer outra coisa. É aquela velha máxima dos metidos à cult, avessos à popularidade dos produtos: se é moda, não presta. Algo parecido ocorre com Alejandro G. Iñárritu, embora o diretor não seja tão reconhecido entre o grande público. Convencionou-se em grupos de cinéfilos a crítica ao diretor. Na maioria são apontamentos rasos: indicar que o ego do cineasta é inflado pode até fazer sentido, mas afirmar que ele não sabe filmar é uma imbecilidade sem tamanho. Mesmo não apreciando o conteúdo de seus filmes, são inegáveis suas qualidades técnicas. Neste sentido, O Regresso é uma aula de direção e fotografia. Basta acompanhar a sequência inicial e notar um cinema pulsante e épico. Dito isso, O Regresso é muito mais que técnica; é um filme que toca, que envolve e desperta sentimentos que só o grande cinema é capaz. Sentimos medo, raiva e até mesmo frio, tamanha entrega do elenco e equipe para construir o melhor longa possível. E eles conseguiram, pois O Regresso não só é o melhor filme do ano, mas uma das coisas mais incríveis que já vi.

E agora, alguns filmes que se destacaram em seus respectivos gêneros. Alguns quase entraram no TOP 10 e merecem uma chance.

Melhor Drama O Regresso

Melhor Comédia Sing Street

Melhor Filme Nacional

Melhor Animação

Melhor Filme de Ação

Melhor Documentário

Melhor Terror

Melhor Filme de Super heróis

Para encerrar, nem só de coisas boas vive o cinema. Ao contrário: uma porção de coisas ruins aparecem no decorrer dos meses. Abaixo, listamos cinco dos piores filmes lançados em 2016. Antes de seguir adiante, um adendo: há filmes piores que estes. O filme do Adam Sandler na Netflix, por exemplo, é terrível. Para separar os cinco “piores” filmes, contudo, levei em conta o nível de decepção. Warcraft, para citar um, não é desastroso por completo, mas é um dos mais desapontadores do ano, pois uma expectativa fora depositada na produção. O mesmo serve para Regression, dirigido pelo competente Alejandro Amenábar. Ambos são longas que tinham tudo para serem bons. Os demais – principalmente os números 1 e 2 – merecem a faixa de “piores filmes do ano”.

Os piores filmes

2 comentários

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  1. Avatar
    Saturno, o Pogobol de Deus 22 dezembro, 2016 at 21:43 Responder

    Boa lista, mas BvS entre os melhores e como melhor de heróis num ano de Dr Estranho e Civil War forçou legal. Mas gosto é gosto.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 22 dezembro, 2016 at 23:59 Responder

      Então, BvS não está entre os melhores filmes como um todo, apenas como o melhor de super-heróis. Dito isso, ele está aí pq ele é um filme de heróis puro. Deadpool talvez seja melhor, acredito, mas é mais uma comédia do q um filme de herói. Dr. Estranho tbm é ótimo, mas brinca com outros gêneros tbm. Exclusivamente de heróis, prefiro BvS do que Civil War, q é um grande filme. Mas como vc disse, gosto é gosto e eu entendo que BvS é polêmico demais hahah. Abs

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