Os melhores filmes do ano

Continua após as recomendações

2017 chega ao fim. Além de torcer por um novo ano cheio de coisas boas, é hora de rever o que tivemos de melhor nos últimos meses. Por isso, formamos uma lista com 10 dos melhores filmes de 2017. Vale lembrar que entram na lista apenas filmes lançados comercialmente no Brasil, seja nos cinemas, direto em DVD/Blu-Ray, mídias digitais e plataformas de streaming. Com isso, algumas obras sensacionais lançadas em 2017 no exterior não entram no TOP 10, pois não chegaram oficialmente ao nosso país. Além disso, sempre é bom frisar que a lista é de cunho pessoal e não representa a opinião do site como um todo. Assim, foram levados em conta apenas o gosto pessoal do redator e nenhum outro artifício – como bilheteria, equipe ou prêmios.

Continua após a publicidade

Sem delongas, o TOP 10 dos Melhores Filmes do Ano:

O cinema é marcado por grandes mudanças que reorganizaram o curso de sua história. Com o passar dos anos e o crescimento constante da sétima arte, vimos o futuro chegando cada vez mais ousado: o que era mudo e em preto e branco ganhou som e cores, vieram os efeitos visuais, o Imax, o 3D e algumas mudanças maiores ou menores que tornam o cinema uma manifestação artística em interminável metamorfose. Hoje, presenciamos o futuro dos filmes através do motion capture, a captura de movimentos. Caso a indústria caminhe nesse ritmo e com essa proposta, não haverá limites para a imaginação e para a performance dos atores: com a tecnologia, todos podem ser qualquer coisa ou pessoa, basta vestir uma roupa especial e atuar da mesma forma tradicional que se faz há décadas, só que, agora, sem limites visíveis. E é empolgante que presenciemos isso. No futuro é possível que estudem o cinema da nossa época e percebam o valor que atores como Andy Serkis e filmes como Planeta dos Macacos: A Guerra possuem.

Toda crença, seja ela religiosa ou de qualquer tipo, deve ser questionada. Não há sentido se não há dúvida. O senso crítico é o que move relações, é o que fortalece a sociedade em seus anseios e permite que escolhas sejam feitas. Silêncio, de Martin Scorsese, não é um filme sobre religião, mas sobre dúvida. Mesmo que os personagens acreditem cegamente em Deus, na vida ou em pessoas, há sempre uma forte dúvida pairando no ar. E é quando estes personagens agem com certeza que os erros acontecem e os problemas surgem. É por isso que filmes como Silêncio se mostram melhores e mais relevantes ao propor a dúvida, ao contrário de tantas outras obras de cunho religioso que apenas almejam catequizar, mostrar o lado positivo e limpo do que acreditam. Ao fim, o projeto de Scorsese não afirma nem nega a existência de Deus, mas propõe debates que certamente instigam tanto os que creem quanto os que não creem. Deus está no silêncio e na falta de sua ações? Ele está onde queremos que esteja ou onde estamos? No limiar, não é um filme sobre religião, mas sobre dúvidas e seres humanos.

Há poucas coisas mais belas no cinema do que um simples recorte do cotidiano de um personagem. Richard Linklater é um dos mestres da abordagem: Boyhood, Jovens Loucos e Rebeldes, Antes do Amanhecer/Pôr do Sol/Meia-Noite são apenas alguns exemplos do que o roteirista e diretor sabe fazer de melhor: captar pequenos momentos no espaço e no tempo, encontrando sentido na simplicidade do dia a dia. Outros cineastas, como os irmãos Dardenne e Cristian Mungiu seguem a mesma vertente, e é interessante perceber que um dos maiores filmes americanos do último ano faça parte desse grupo de observação do comum, do ordinário. Em Moonlight, Barry Jenkins capta três momentos-chave da vida de um jovem rapaz. Chiron segue o curso de sua vida tendo de lidar com as dificuldades de ser pobre, negro e gay em uma periferia violenta. Jenkins aproxima sua câmera de momentos particulares da infância, adolescência e vida adulta do rapaz, criando um sincero e sensível retrato de um ser humano tão complexo quanto qualquer um de nós.

Denis Villeneuve é um dos maiores diretores da atualidade, e certamente será um dos mais respeitáveis cineastas das próximas décadas. É arriscado afirmar, mas o canadense pode ser no futuro o que Steven Spielberg é hoje. Ao lado de Paul Thomas Anderson, David Fincher, Christopher Nolan e outros grandes nomes, Villeneuve caminha a passos largos para se tornar um dos mais respeitáveis talentos da indústria. Basta olhar para sua recente e impecável filmografia. De suspenses menores e intimistas como O Homem Duplicado até ficções ousadas como A Chegada, o diretor parece ter alcançado o panteão com Blade Runner 2049, blockbuster gigantesco com coração de filme cult. É uma pena que a sequência do clássico de Ridley Scott não tenha feito tanto sucesso de bilheteria, pois é desse tipo de blockbuster que precisamos: ao passo que empolga com visual arrojado, faz pensar com uma trama bem construída, desenvolvida com calma e ritmo marcado. Ao capturar a atmosfera do primeiro Blade Runner, Villeneuve prova mais uma vez que é um dos grandes artistas atuais, além de colocar seu filme no mesmo nível do anterior.

Um dos gêneros mais queridos e respeitados do cinema é o western, o popular faroeste. Embora tenha enfraquecido com o passar dos anos, o gênero regularmente ganha as telas com uma nova releitura. Atualmente, há uma espécie de western moderno que tem conquistado público e crítica. Filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez são exemplos de como o faroeste ainda tem muito o que mostrar. As tramas geralmente são simples: a lei persegue o crime. Enquanto um foge, o outro vai atrás. A Qualquer Preço segue essa linha com afinco, e o que importa não é complexidade da história, mas a dos personagens. Neste sentido, o longa de David Mackenzie é impecável. Calcado em três atuações impecáveis de Chris Pine, Jeff Bridges e, principalmente, Ben Foster, A Qualquer Preço acompanha dois irmãos roubando bancos enquanto um xerife e seu parceiro tentam prender os foras da lei. Por trás de toda a dureza dos atos e do cenário, há uma belíssima fotografia e uma trilha irretocável composta por Nick Cave.

O cinema é a arte do audiovisual. O poder da imagem e do som, unidos para criar um entretenimento impactante e inesquecível. Por esta perspectiva, Dunkirk cumpre sem papel com primazia. Muitos apontam a fraqueza – ou falta – do roteiro, mas sabe-se que a intenção de Christopher Nolan não era criar uma história mirabolante, mas sim jogar com a câmera e criar um espetáculo visual arrojado. Depois de investir anos em filmes repletos de diálogos e histórias grandiosas, Nolan parece querer falar apenas com imagens, e assim joga seu público no meio da guerra. Seja em terra, água ou ar, o diretor acompanha a ação de perto e atinge resultados que só o cinema pode alcançar e oferecer. As cenas aéreas são de tirar o fôlego, a urgência da praia é enervante e o suspense no barco eleva a tensão em um filme calculado justamente para isso: criar uma atmosfera sufocante de ação e horror. E Nolan consegue. É por entender a força de sua arte que o cineasta entregou uma das experiências cinematográficas mais poderosas de 2017.

Conhecido por Oldboy, o diretor sul-coreano Chan Wook-park eleva seu estilo no elegante – e erótico – A Criada. Baseado no livro Na Ponta dos Dedos, A Criada leva a história para a Coréia do Sul, durante a ocupação japonesa. A única coisa que posso dizer é que a trama envolve uma jovem que é contratada para ser a criada de uma rica mulher que mora com o tio autoritário. Qualquer outro detalhe pode estragar a experiência de acompanhar a história cheia de surpresas do longa. A Criada é daqueles que prende o espectador com facilidade, chamando-o pra perto e o envolvendo em uma trama cheia de reviravoltas. Caso fosse série, A Criada seria um sucesso digno de maratona. É impossível desgrudar os olhos durante as quase duas horas e meia de duração, seja pelas surpresas, pelo bela história de amor ou pelo apuro estético.

Todos nós já perdemos alguém importante em nossas vidas. É algo natural e fica mais frequente conforme o tempo passa. Em toda a perda, contudo, há algo positivo, alguma luz no fim de um longo e complicado túnel. Enquanto atravessamos o luto, não percebemos, mas podemos tirar muita coisa boa das dificuldades empregadas pela morte. O mínimo que pode acontecer de positivo é uma profunda e delicada avaliação de nossas próprias vidas; é impossível não pensar na própria trajetória quando a caminhada de alguém querido chega ao fim. Além disso, é natural que família e amigos se reúnam e muitas vezes retomem contato depois de anos, reafirmando laços perdidos no correr da vida. Kenneth Lonergan entende a dor como poucos em Manchester à Beira-mar, e embora seja um filme triste, é dotado de uma humanidade irretocável. Assim como na vida de cada um, há muita tristeza, mas também muita alegria. Mesmo entre tanta dor, os personagens acham jeitos de rir ou criar momentos felizes ou engraçados mesmo que não percebam e não sorriem por isso.

O tempo é fascinante. Inexorável, passa sem prestar contas. O tempo nos tem e nós temos o tempo. É bela a forma como nossa memória passeia por nossas lembranças e como nos agarramos a pessoas e lugares. Pois não somos feitos sozinhos, não nos constituímos apenas de nós mesmos. A maior parte de nossa identidade – e as melhores – é feita com reflexo nas pessoas e lugares que amamos. Podemos fechar os olhos e lembrar com nostalgia de um verão, uma praia, uma brisa e a presença de alguém. A nossa capacidade de viajar pelo tempo através de nossas lembranças é o que nos molda, dentre tantas outras coisas. São os laços que construímos que nos levarão pelo futuro quando já não estivermos aqui. Se alguém, em um futuro distante, cantarole uma canção e a perpetue, talvez alguém lembre da nossa imagem, do som da nossa voz. É por entender a sensibilidade da nossa posição em frente ao tempo e sua passagem que A Ghost Story é uma das obras-primas mais lindas que tive o prazer de assistir.

Às vezes surge um filme que nos faz lembrar o porquê amamos o cinema. Não só: nos lembram que é bom viver, que é bom colocar a cara na rua e quebrá-la de vez em quando. Que é bom se apaixonar e sonhar. Land é daquelas obras que já nascem clássicas, destinadas ao amor incondicional do público. Os risos que provoca, as lágrimas que faz brotar, o bem-estar que faz sentir; o musical de Damien Chazelle é brilhante do primeiro ao último segundo. O longa enaltece as coisas simples: antes do primeiro beijo, o casal flutua em um céu abarrotado de estrelas; ao correr apaixonada em direção ao amado, um poste rodeado de borboletas ilumina a rua e dá o tom do sentimento da moça. É como se Chazelle pegasse a realidade pura e traduzisse em momentos literais, de beleza ímpar. La La Land é uma apaixonante homenagem ao cinema e seus amantes; ao amor e seus altos e baixos. É, também, um aceno à passagem do tempo, que acaba nos trazendo as verdades. E é o tempo, infalível, que fará de La La Land o clássico que ele já é.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

No comments

Add yours