Palavra Final – O fim de The Newsroom

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Como um apaixonado por filmes e seriados desde criança, sempre pensei em fazer uma faculdade de Cinema e viver disso. Um sonho, claro. A vida real é uma curva mais íngreme e se não nos cuidarmos, derrapamos. Não acredito que tenha desistido de um sonho (ainda há tempo e, como muitos dizem, todos podem “fazer” arte), afinal, investi minhas fichas em outro: o Jornalismo. Está aí outra paixão de criança: por volta dos quatro ou cinco anos, enquanto aprendia o português e ralava os joelhos e cotovelos praticamente todos os dias, eu assistia telejornais. Na época eu não tinha a TV a cabo disponível exibindo desenhos animados todo o dia; as coisas eram diferentes: desenhos pela manhã, um filme à tarde e os jornais que meus pais assistiam à noite. Eu era fascinado pela eloqüência dos âncoras dos telejornais, embora estivesse longe de saber o que “eloqüência” queria dizer.

Mas divago. De todo modo, a pequena introdução que você acabou de ler (se é que leu) apenas nos traz a um ponto: The Newsroom. O Informante (filme de 1999 com Al Pacino) e The Newsroom foram as principais inspirações para eu escolher o Jornalismo. The Newsroom, por exemplo, parece ter despertado aquele guri que repetia o noticiário quando este acabava. Eu voltei a achar todo aquele universo lindo novamente. Aquele corre-corre na redação, a fala e a imagem como ferramentas poderosas, a verdade como norte.

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Por isso, então, agradeço Aaron Sorkin, criador da série, embora este nunca vá ler estas singelas palavras. O fato é que uma paixão despertou outra.

Mas The Newsroom acabou. A série que um dia fora mais importante pra mim do que qualquer outra, chegara ao fim. Sorkin, é bem verdade, várias vezes errou a mão durante as três temporadas de seu controverso show. No plano geral, porém, Newsroom foi bem sucedida. É fato consumado, por exemplo, que o humor da série não funciona. Muitas vezes infantil, o humor não surtia o efeito necessário e acabava quebrando o ritmo da narrativa. A verborragia do programa também pode ter prejudicado o sucesso entre público e crítica. Sorkin é conhecido pelo texto ágil e por não se importar se a audiência pode ou não acompanhar suas ideias. É difícil crer que alguém fale tão rápido e com tanta segurança como TODOS os seus personagens. Sorkin não facilitou para o público e, por mais que isso seja bom, acabou afastando uma audiência que poderia garantir ao programa mais alguns anos.

Pois não nos enganemos: The Newsroom foi cancelada por ser uma série pouco acessível e de pouca audiência. O elenco estava lá, a direção competente também, assim como a fotografia e uma boa trama. O que faltou, então? A aproximação e o interesse do público. O que é uma pena. Ainda que The Newsroom tenha tentado se impor demasiadamente na primeira temporada, os resultados foram melhores no segundo e no terceiro ano. Assim como Will McAvoy, Newsroom parecia estar em uma cruzada para ensinar o público ou empurrar goela abaixo da audiência certos conceitos. Sorte que Sorkin concertou o problema a tempo.

 

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Mas falemos sobre a rápida terceira e última temporada. Assim como nos anos anteriores, Aaron Sorkin usou sua licença poética para adaptar o fazer jornalístico às suas ideias. Uma redação de verdade talvez esteja longe do que é mostrado na série, mas os debates levantados pelo roteiro são pertinentes. O terceiro ano reservou boa parte de seu tempo à questão do sigilo reservado às fontes e informações cedidas aos meios de comunicação. Para discutir o assunto, Sorkin criou uma elaborada conspiração que envolveu fugas, FBI e a prisão do protagonista. Ainda que confusa e um tanto longa, essa parte da trama rendeu bons momentos e enriqueceu a última temporada.

Outro ponto alto do último ano foi a utilização dos atentados na maratona de Boston. No episódio em questão (a season premiere), The Newsroom trouxe apontamentos debatidos anteriormente como a importância da verificação das fontes, evitando a vergonha que o caso Genoa havia se transformado. Além disso, Sorkin aproveitou para construir os finais de seus personagens com cuidado: Don e Sloan, em suas idas e vindas, terminam juntos. O perrengue entre Jim e Maggie é resolvido e a relação de Will e Mackenzie parece estabilizada. Mas nem todos foram aproveitados sabiamente: Neal, por exemplo, foi um personagem completamente esnobado neste último ano, mesmo sendo um dos nomes centrais da temporada. Outro erro foi manter Leona (a poderosa Jane Fonda) de lado.

Mas nada, de bom ou ruim, estava preparando o público para o espetáculo que fora Oh Shenandoah, penúltimo episódio da série. Tivemos no capítulo ao menos dois momentos antológicos: o primeiro é a conversa entre Will e seu companheiro de cela. Em um debate reflexivo de auto-conhecimento, Will relembra vários de seus passos dados até aquele momento. Ao fim, descobrimos que o parceiro de cela era, na verdade, fruto da imaginação de Will: uma lembrança do próprio pai.

Outro momento, claro, é a morte de Charlie Skinner, o melhor personagem da série. Ainda que sua morte tenha vindoWill-McAvoy-750px de repente e soe como uma saída covarde de Sorkin para encerrar sua história, é preciso admitir que o momento em que Mackenzie dá a notícia da morte de Skinner para Will é uma das coisas mais poderosas produzidas pela televisão em 2014. Até o momento, não sabíamos se Skinner havia falecido, pois acabáramos de vê-lo entrar ainda com vida em uma ambulância. Eis, então, que Mackenzie surpreende Will e a audiência confirmando a morte do melhor e mais adorável personagem de The Newsroom.

No último capítulo, enfim, Sorkin mostra o funeral de Skinner, Mackenzie descobrindo que será mãe, um ótimo número musical e belos flashbacks que comprovam a qualidade da narrativa e do elenco da série. Ao vermos um flashback de como Will era no início do programa (e antes da chegada de Mackenzie), percebemos como o personagem cresceu e se transformou em três anos de show. A simples volta ao passado mostra a inteligência do arco narrativo do personagem e a atuação fantástica de Jeff Daniels. O último capítulo não é melhor que o penúltimo, mas fecha a série satisfatoriamente.

Ao fim, vemos Aaron Sorkin e os personagens se entregando à emoção, deixando a racionalidade de lado. Assim como o pai de Will, The Newsroom talvez não quisesse filosofar ou debater a importância e as características da “pescaria”. The Newsroom queria apenas um tempo conosco e, então, pescar. Nada mais.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

4 comments

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  1. Avatar
    Mariana Bisonti 19 dezembro, 2014 at 11:27 Responder

    Eu não sabia que era o último episódio, que essa temporada final só teria 6. E não percebi pelo episódio, porque todo episódio de The Newsroom tem a grandiosidade de um series finale. Fiquei triste com a falta de outros 6 episódios.Fico triste com o cancelamento da série, e com a ironia das razões de seu cancelamento em paralelo a audiência do próprio News Night, provavelmente não foi coincidência. Mas fico feliz, de pelo menos ter um final planejado, e belo.

    Muitas vezes eu não conseguia acompanhar os diálogos, o que me deixava mais interessada e me fazia voltar e pausar. Mas entendo que isso não seja um atrativo de audiência, muito pelo contrário. Okay, querer produzir uma série foda e ignorar o interesse da grande audiência, só que The Newsroom é uma série, não um jornal.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 19 dezembro, 2014 at 12:41 Responder

      Oi Mariana,

      exatamente. The Newsroom tinha essa problema de “se fazer de difícil”, complicando as coisas pra audiência. Este foi um dos principais motivos pra queda de audiência e eventual cancelamento. Mas este é um problema do criador da série, Aaron Sorkin. Você já assistiu o filme “A Rede Social”? Ou a série “The West Wing”? Ambos são criações dele e também são difíceis de acompanhar graças ao falatório constante e extremamente rápido (e muitas vezes técnico ou específico, falando de temas que fogem do conhecimento do público).

      Também acho que a série merecia uns 10 episódios, como nas temporadas anteriores, e não 6. Não custava muita coisa produzir mais 4 capítulos.

      Abraços!

  2. Avatar
    Mariana Bisonti 19 dezembro, 2014 at 11:27 Responder

    Eu não sabia que era o último episódio, que essa temporada final só teria 6. E não percebi pelo episódio, porque todo episódio de The Newsroom tem a grandiosidade de um series finale. Fiquei triste com a falta de outros 6 episódios.Fico triste com o cancelamento da série, e com a ironia das razões de seu cancelamento em paralelo a audiência do próprio News Night, provavelmente não foi coincidência. Mas fico feliz, de pelo menos ter um final planejado, e belo.

    Muitas vezes eu não conseguia acompanhar os diálogos, o que me deixava mais interessada e me fazia voltar e pausar. Mas entendo que isso não seja um atrativo de audiência, muito pelo contrário. Okay, querer produzir uma série foda e ignorar o interesse da grande audiência, só que The Newsroom é uma série, não um jornal.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 19 dezembro, 2014 at 12:41 Responder

      Oi Mariana,

      exatamente. The Newsroom tinha essa problema de “se fazer de difícil”, complicando as coisas pra audiência. Este foi um dos principais motivos pra queda de audiência e eventual cancelamento. Mas este é um problema do criador da série, Aaron Sorkin. Você já assistiu o filme “A Rede Social”? Ou a série “The West Wing”? Ambos são criações dele e também são difíceis de acompanhar graças ao falatório constante e extremamente rápido (e muitas vezes técnico ou específico, falando de temas que fogem do conhecimento do público).

      Também acho que a série merecia uns 10 episódios, como nas temporadas anteriores, e não 6. Não custava muita coisa produzir mais 4 capítulos.

      Abraços!

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