Pare! Apenas pare!

The Exorcist

-Que ótimo dia para um exorcismo.

Dizia uma jovem Reagan possuída pelo demônio. Do outro lado do quarto, um jovem padre. Do lado de cá da tela, uma plateia aterrorizada. O Exorcista, obra máxima do horror dirigida por William Friedkin, espantou multidões em 1973 e desde então segue firme como o filme mais assustador já feito. É bem verdade que filmes recentes como A Bruxa de Blair e Invocação do Mal, bem como os pouco conhecidos Lake Mungo e The Den, defendem com honra o gênero, mas nada no audiovisual teve tanto impacto quanto a história de Reagan e os padres Merrin e Karras.

Eis, então, que alguém tem a brilhante ideia de fazer uma série baseada no filme e no livro que deu origem a tudo, escrito por William Peter Blatty. A primeira pergunta é: por quê? Qual a necessidade? Para começar, é uma história que já conhecemos muito bem. Já a vimos no longa-metragem original e em suas sequências e cópias lançadas através dos anos. Além disso, qual seria a mensagem? Teríamos algum comentário social e/ou religioso? Teríamos uma nova abordagem? Difícil. Logo de cara já temos um problema gigantesco: o canal é a Fox. Sim, temos bons programas no canal, mas este seria o ambiente ideal para algo com o selo Exorcista?

Ser mais assustador é possível garantir que a série não será. Como sei disso? Simples. Há mais de 40 anos a TV e o Cinema tentam emular os resultados da obra de Friedkin e até hoje ninguém conseguiu. Não seria um programa da Fox que mudaria este cenário. Assim, o que sobra é apenas ganância, a sede por lucro dos produtores e demais envolvidos. Não espere que o amor pela arte esteja envolvido. O que está em jogo aqui é a marca “O Exorcista” e o que ela representa. Assim, o único resultado será o prejuízo a uma obra que não deve ser tocada.

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“Eles querem adaptar O Exorcista, Don Corleone! Faça justiça!”

Os Intocáveis

Existem obras que são – ou ao menos deveriam – intocáveis. Ponto. Livros, filmes, músicas, pinturas. Algumas coisas devem ficar onde estão e serem respeitadas. Por que reescrever Orgulho e Preconceito (mesmo que com zumbis), ou refilmar O Poderoso Chefão, ou então tentar recriar a Mona Lisa? São todas perfeitas como são, não há necessidade de maculá-las tentando repetir suas qualidades ou ganhar dinheiro com suas replicações.

O Exorcista é uma destas intocáveis. As próprias sequências, que envolviam membros do elenco e equipe do filme original, já não agradavam, não há sentido algum em reviver, mais uma vez, essa história. Minority Report, pasmem, um longa-metragem muito mais novo que o de Friedkin, é outro que não merecia uma adaptação como a própria Fox tentou nos empurrar recentemente. A ficção científica de Steven Spielberg é uma das melhores produzidas nas últimas décadas, levá-la para a TV se mostrou um equívoco enorme.

E essa mania de reviver produções na TV cresce cada vez mais, e estamos falando principalmente de filmes. Já foi confirmada, além de Exorcista, uma série de Máquina Mortífera. Esta sofre do mesmo problema de Rush Hour. Por que raios alguém vai investir dinheiro em 1) uma franquia que nem é tão boa; 2) uma franquia que já possui sequencias suficientes. Veja Rush Hour, em exibição atualmente: a série não inova em absolutamente nada e repete tudo o que os filmes já nos mostraram. É capital e talento gastos em um engodo.

E você acha que Máquina Mortífera, a série, vai mudar a fórmula dos filmes? Óbvio que não. A formação do elenco já aponta para os mesmo rumos tomados pela franquia estrelada por Mel Gibson. O mesmo serve para Taken, série que adapta os filmes com Liam Neeson: se as próprias versões para o cinema trataram de se repetir sem parar, a versão televisiva pouco tem a inovar.

40-FARGO-MGMPra não dizer que não falei de flores

É claro que nem tudo é ruim e desnecessário. Levar às telinhas adaptações de filmes pouco conhecidos ou pouco aproveitados é algo positivo. Westworld, por exemplo, traz para a HBO um longa antigo e pouco visto. Limitless se saiu bem ao trazer a fita com Bradley Cooper para a TV, mas aqui estamos falando de uma série “boazinha” que adapta um filme igualmente “bonzinho”. Sem Limites não é Exorcista.

Scream é outra que não faz feio, mas segue a mesma abordagem do original. Bates Motel é ótima, mas isso porque revisita a história por outro viés. Fargo ressuscita uma grande película e se sai muitíssimo bem, talvez até melhor que o material original. Mas este é um ponto fora da curva. Uma exceção dentro de uma vasta regra.

No horizonte avistam-se adaptações de Advogado do Diabo, que pode render diversas abordagens diferentes, o que já facilita o percurso. Temos também Big, que adapta o filme homônimo com Tom Hanks, o romance Ghost, no cinema eternizado por Demi Moore, e O Ilusionista, que na tela grande trouxe Edward Norton no papel principal. Qual dessas pode dar certo? Aparentemente nenhuma. A CW, que planejava uma série baseada em Diários de uma Paixão, já desistiu do projeto. Talvez tenham notado o risco que corriam.

Ei, emissoras: parem! Apenas parem!

Tags Editorial
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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