Penny Dreadful – 3×01 – The Day Tennyson Died

Imagem: Arquivo Pessoal
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Imagem: Captura de Tela/Reprodução

 

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“Life, for all its anguish, is ours, Miss Ives. It belongs to no other.” Lyle, Ferdinand.

 

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Depois da longa espera, a nossa moeda semanal de terror da Summer Season finalmente se juntou a nós. Após um release muito conveniente, voltamos a nos aventurar nas jornadas de Vanessa Ives e sua turma, num retorno que, mesmo sendo extremamente consistente com aquilo que a finale da temporada passada prometeu (e isso para não mencionar a reciclagem estética do formato da trama), conseguiu ser uma premiere mais-que-espetacular de Penny Dreadful.

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Mas antes que eu explique a minha afirmação sobre a reutilização estética que a trama promoveu da própria trama, quero parar para falar diretamente dela, que encerrou a temporada passada e que abriu esta em situações bem diferentes, noutro exemplo da capacidade de atuação verdadeiramente titânica de Eva Green.

A Vanessa Ives que nos deixou na temporada passada era uma força da natureza, que venceu Madame Kali e o último teste bizarro apresentado a ela pelo Anjo Caído, abraçando parcialmente a escuridão de Amunet e lançando mão do Verbis Diablo para tal. A Vanessa que vemos agora, depois de um tempo no profético “and so we walk alone”, mais parece uma combinação bizarra de Beetlejuices e da Srª Lovett (personagem de Helena Bonham Carter em Sweeney Todd). Essa vulnerabilização e até mesmo a animalização da personagem nos prova que o peso na consciência dela, o preço por tudo o que aconteceu na temporada passada (somado fortemente a “perda” de Ethan) é tão grande que quando a figura paterna e unificadora de Sir Malcolm decide também deixá-la por um tempo, Vanessa acaba desmoronando por completo.

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E é nesse meio tempo que fica claro o quanto “and now we walk alone” realmente dará o tom da narrativa nesta temporada – certo, o final do episódio ajudou a provar essa noção, mas ela surge realmente aqui. Assim como feito na primeira temporada, em que havia uma quest central que unificou as histórias separadas de cada um dos membros da versão de Sir Malcolm para uma Liga Extraordinária (os quadrinhos, não o filme), a terceira temporada se propõe a nos apresentar cada um dos membros originais ainda vivos – ainda vou continuar sentindo falta de Sembene – e os caminhos que eles trilharão, aprofundando agora quem eles são depois de tudo que aconteceu quando eles foram postos juntos na luta contra o mal – seja este o mal que já está em cada um deles ou as abominações que eles criaram.

Logo, enquanto a história de Vanessa começa onde terminou, contando com, para a felicidade de quem espera que ele continue a aprofundar a mitologia da trama, Ferdinand Lyle, com a nova personagem de Patti LuPone – que promete impactar tanto nesta temporada como fez na temporada passada, como a Cut-Wife de Ballentree Moors – e com referências absurdamente gigantes (talvez numa tentativa de melhor situar historicamente a série, aumentando a verossimilhança da mesma) à estética do Romantismo inglês e alguns de seus mais notórios poetas, como Wordsworth, Colleridge e até mesmo Tennyson, que empresta o título e certa poesia (“I hold it true, whate’er befall / I feel it, when I sorrow most / ‘Tis better to have loved and lost, / Than never to have loved at all.”) ao episódio.

Mas deixando a sombria Londres de lado por hora (mesmo que para retornar daqui a pouco), em algum lugar nos territórios do Novo México, a extradição de Ethan continua, e até mesmo Bartholomew Rusk – insuportável com suas reflexões tediosas na temporada passada – parece ter sido melhorado, apresentando uma visão incomum para alguém que vem do lado dominante da empreitada Colonial, a de que a brutalidade havia construído aquele território, uma visão muito destoante da esperada de alguém como ele, algo que é enfatizado pela fala do outro inspetor.

Certo, o que realmente importa nesta trama não são as visões Coloniais dos personagens secundários, e sim a “reunião” de Ethan com seu pai, decididamente alguém a ser temido, visto que os capangas dele limparam um vagão inteiro de policias armados, pararam o trem e conseguiram ficar com o prisioneiro, tudo isso num único turno de trabalho.

Vale lembrar, entretanto, que a crítica à empreitada Colonial não se restringe ao início da trama de Ethan; na África, Sir Malcolm, tendo ele mesmo ajudado a mapear, desbravar – e, portanto, possibilitar a entrada das nações escravagistas – (n)aqueles territórios, depois de enterrar Sembene, nos apresenta o que parece ser uma casa de ópio como cenário e uma (mais uma) carta para Vanessa como suporte para sua crítica ao resultado da Colonização naquela parte do mundo. Que o leitor não me tome por ingênuo. Sei perfeitamente que a crítica de Sir Malcolm não se dá por uma profunda realização de seu papel como Colonizador e do impacto disso, mas sim como resultado de sua encarnação do ideal Colonial ao ponto de que o banal no exótico das terras já Colonizadas não lhe agrade mais, e que uma busca por “maravilhas” num “novo mundo” seja necessária.

Colonialismo a parte, foi ótimo ver que Sir Malcolm ainda vive a cada uma das nossas expectativas para esse velho explorador, e que não foi suficiente um controle mental, a perda de muito do que lhe era importante e de seu fiel escudeiro para desconstruir por completo o espírito de luta que, com a ajuda de alguém que coleciona escalpos, lutou contra vários adversários numa rua escura de um canto sombrio da África Oriental. Um estranho não tão estranho assim, que vem para direcionar Malcolm no primeiro passo de sua jornada, que fará algumas paradas no Velho Oeste antes de finalmente retornar a sua batalha por Amunet.

A única coisa que talvez tenha sido mais surpreendente do que isso talvez tenha sido o destino de Caliban, digo, John Clare, que, dos cantos mais gelados do Norte, é o primeiro a decidir que é preciso voltar (que um assemble é necessário) depois de perceber que ainda há partes do homem que ele costumava ser, muito antes de sua morte e do que Victor fez, enterradas em seu subconsciente.

Finalmente, de volta à velha Londres, alguém muito inesperado se junta à trama, e nem mesmo ele escapa das reflexões Coloniais. Um Dr. Jekhyll com traços indianos vem se juntar a um Victor Frankenstein inteiramente destruído pela realização da maldade de suas criações. Na verdade, o adensamento da trama deste personagem em particular foi muito sutil, mas muito efetivo. Pela primeira vez, ao conversar com Jekhyll, ele se refere às criações como “monstros” – e assume a responsabilidade pelos erros de suas criaturas “And every act of my hideous creations, their every sin, hangs on me.” – e decide finalmente apresentar um relato de suas traquinagens nas fronteiras da vida e da morte, algo também introduzido pela primeira temporada e retomado, de maneira brilhante, aqui.

A inserção da ideia de pecado, ou pelo menos, da dualidade entre brutal e vilão e químico humano existente em Jekhyll como um contraste, uma solução – mesmo que nós saibamos como essa ideia de “domar” quimicamente o cérebro acabe mal para o bom Doutor – ao problema de Lily, ou do lado “depravado” da mesma surgem como uma ótima maneira de reinserir a trama dos Imortais deixada pela dança sangrenta de Lily e Dorian.

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Londres ainda nos reserva outra surpresa, a consulta de Vanessa com a Dr.ª Seward, onde vemos a mesma intensidade da antiga personagem de Patti LuPone ser apresentado (com a mesma brutalidade) e, felizmente, vemos um pouco da Vanessa mais intensa, mais sagaz, mais encantadora, retornar simplesmente por este contato. O tom soturno deixado no consultório quando Vanessa sai só indica que o mistério envolvendo a descendência da Dr.ª Seward e as implicações/ligações dela com Joan Clayton.

A cereja do bolo no episódio decididamente foi o momento de Vanessa no museu de história natural, vendo os seus “amados” escorpiões depois de ser chamada de beloved na rua por uma garota cujo vampirismo era tão óbvio que dispensava todo aquele diálogo sobre o albinismo ser um aviso da natureza “Albinoism is exceedingly rare in nature, a sign of caution to the world. The absence of color, that is… signifying what? Bloodlessness. Uniqueness.”, embora não posso dizer que tenha ficado insatisfeito com a maneira com que ele descreve a apreciação do ser humano (algo que o Romantismo, como movimento, enfatiza) ao que é errado, ao perigoso, ao exótico – ao “mad, bad and dangerous to know” que uma vez foi usado para definir Byron e que eu insiro aqui como uma menção honrosa a um certo grupo de Beloveds… –, numa alusão à simbologia já construída da série.

A carta final de Vanessa, o momento de se redescobrir, de desempoeirar as gaiolas dos menos amados, dos não-visitados, dos ignorados. O recitar da poesia de Tennyson, que se encerra com o desejo mais intimo que Vanessa pode expressar – “Let it all be well” – foi contrabalanceado perfeitamente para a retomada, a verdadeira retomada que eu abri a review mencionando, do ciclo dos Vampiros, agora com Vampiros humanos e, num momento que nos encheu de horror, o maior vampiro da literatura finalmente se juntou a nossa trama, com direito a “My name… is Dracula”, exército de vampiros humanos e tudo o mais. E olhe que, se aquilo que o trailer da temporada (logo abaixo) nos promete for cumprido, esta é só a primeira de muitas surpresas que nos aguardam.

Enquanto esperamos para descobrir quem dos nossos “heróis” vai morrer, vamos nos preparar para uma temporada excelente, que terá reviews semanais aqui no Mix. Au revoir!

 

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Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.