Penny Dreadful – 3×04 – A Blade of Grass

Imagem: Arquivo Pessoal/Richard Gonçalves

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

Continua após as recomendações

“There was only thee and there was only me.”

Continua após a publicidade

Penny Dreadful segue sua jornada pelo passado de Vanessa Ives e pelos muitos segredos que ele ainda esconde. Não satisfeita em revelar que Ives já conhecia John Clare antes, quando ela foi confinada numa cela da Clínica Bannig, agora somos levados a uma visão muito mais perturbadoramente clara do tempo que Vanessa passou naquela cela.

Para começar, a cena dela arranhando as paredes acolchoadas da cela foi sufocante de tão bizarra. Mais uma vez, o talento de Eva Green continua a ser evidenciado pela série. Todo o barulho das unhas dela em contato com o tecido, a animalização da personagem, até mesmo o ângulo usado, os closes nos olhos e rosto de Vanessa, e a paleta de cores escolhida nos dão a impressão que estamos apenas a centímetros da personagem, testemunhando – ou até mesmo vivenciando com ela, tamanha é a verossimilhança – a situação em primeira mão, um recurso muito similar ao usado por Ryan Murphy na última e única boa temporada de American Horror Story – a.k.a. Asylum. Cenas como a da alimentação forçada, apresentada de maneira tão visceral e, ao mesmo tempo, como uma consequência corriqueira, são mais exemplos da razão para amarmos tanto a série.

E, assim como o próprio Rory Kinnear, ficamos muito satisfeitos com a oportunidade de ver o ator indo além de seu papel como a Criatura e até mesmo além de seu papel como John Clare. Sabemos que, em algum momento, Victor o trouxe de volta à vida, mas tudo o que havia antes, o que ele fazia, quem ele era, todas essas coisas foram deixadas de lado até aqui, e é bom ver que a temporada se sente segura ao ponto de trabalhar simultaneamente no presente e nas visões de Vanessa o passado deste personagem que, com certeza, pode ser um aliado significativo na luta contra o Conde Drácula.

Os diálogos entre os dois foram brilhantes. Ele repetindo que eles não devem conversar mas falando com ela mesmo assim, ela sofrendo e implorando, ele cuidando dela e, ao mesmo tempo, tentando não quebrar nenhuma regra da clínica, o ataque falho, até mesmo a ironia nele defender os tratamentos, chamá-los de ciência, quando nós sabemos exatamente o que será feito com ele em nome dessa mesma ciência… é difícil descrever como a série consegue colocar tantas coisas tão significativas para a construção da Vanessa Ives e do John Clare que conhecemos na primeira temporada em poucos minutos e, mesmo assim, fazer desses minutos cenas impactantes.

No que toca aos recursos dialógicos, ADOREI que tenham inserido a Dr.ª Seward nas memórias de Vanessa. Mostrar o diálogo delas só pelo lado de Seward, ou mostrar a doutora somente como observadora era bom, mas inseri-la ali, quebrar qualquer barreira de realidade dentro da mente de Vanessa faz com a experiência seja ainda mais próxima do telespectador, e combina perfeitamente com todo o misticismo pré-estabelecido pela série. A fuga dissociativa de Vanessa e a cena dela deitada no colo da Dr.ª Seward, possibilitadas pelo emprego deste recurso visual-narrativo, foi umas das cenas mais emocionantes da série.

Imagem: Arquivo Pessoal/Richard Gonçalves

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

É claro que isso passa longe de ser realmente o momento mais emocionante do episódio. Numa cena que começa com uma dualidade incrível, e constrói caminho para algo ainda maior, escorpião, víbora e morcego dividem a tela enquanto o Pai das Bestas e o Arcanjo Caído disputam Amunet. Os argumentos dos dois são singulares e perfeitos em sua poesia sombria. Primeiro o Caído mostra o future que ele planeja caso a mãe da escuridão aceite: “We stand at the fire as it consumes all men and all women and all the beasts of the Earth until only we are left.”; Depois, o Senhor das Trevas é (numa repetição da cena da première da temporada) categórico ao mostrar quem ele realmente é: “I am the Demon. I am the Dragon. My name… is Dracula.”. Mas no fim, numa cena tão espetacular quanto a da temporada passada, Vanessa mostra a seus “pretendentes” a real extensão de seu poder, com direito até mesmo a uma exibição de seu verbis diablo.

No fim, o episódio que contou apenas com três personagens alcançou e ultrapassou o nível definido pelo último episódio centrado em Eva Green e Patti LuPone. A jornada da nossa heroína para confrontar agora o mais animalesco dos seus adversários promete finalmente nos levar a lugares ainda mais fantásticos. “A Blade of Grass” foi exatamente aquilo que a temporada precisava, mais um episódio magnífico, que faz com que a ausência de um Emmy para Eva Green pelo papel brilhante que ela tem desempenhado nas últimas três temporadas continue a ser um tapa na cara dos seriadores.

P.S.: O poema que ele lê para Vanessa é chamado “My Shadow” de Robert Louis Stevenson.
P.S.2: A promo do próximo episódio nos mostra que teremos um “intensivão” de Sir Malcolm, Ethan e Victor para compensar a ausência deles neste episódio. Confiram:

[youtube] https://www.youtube.com/watch?v=JNSiwBYRp08 [/youtube]

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.

No comments

Add yours