Penny Dreadful – 3×07 – Ebb Tide

Imagem: Arquivo Pessoal/Richard Gonçalves

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

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“And then all light will end and the world will live in darkness. The very air will be pestilence to mankind. And our brethren, the Night Creatures, will emerge and feed. Such is our power, such is our kingdom, such is my kiss.” Vanessa Ives.


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Penny Dreadful começa seu sétimo episódio de maneira inusitada. Depois de todo o plot “de volta para a minha terra” de Ethan ter sido finalizado com a bala que Sir Malcolm colocou na cabeça de Jared Talbot, e depois do primeiro “contato direto” entre Vanessa e Drácula, não esperava que a série fosse nos revelar mais um mistério de Brona/Lily. Quem entre nós imaginaria que a Imortal teria uma filha?

Mas mesmo sendo uma cena bizarra para se abrir o episódio, o bucolismo da cena em si, o quanto a cena se relaciona com a ambientação temporal da série – já que a expectativa de vida infantil entre as classes mais pobres era muito pequena – e o simples fato de que Brona Croft teria perdido muito mais do que imaginamos acaba tornando a cena do cemitério um início interessante para “Ebb Tide”.

Certo, a trama de lamento acaba por fazer sentido quando, num jantar que só é superado, em termos de bizarro, pelo red wedding, a nossa morta-viva contou seu conto de bashees e clamou o levante de suas mulheres, numa cena que só me dá a certeza de que, até entre os mais críticos, todos devem admitir que ainda não vimos tudo o que Billie Pipper tem a nos oferecer como atriz.

É claro que, talvez para nos compensar, a série segue um caminho mais previsível logo em seguida, nos apresentando uma das cenas do trailer da temporada que eu mais queria ver: Vanessa dormindo e sendo lambida pelo vampiro, numa combinação de erotismo (e sua paleta de cores) e clássicos do gênero de vampiros, a nossa querida Amunet parece muito mais em paz do que o Príncipe da Noite. Embora tenha sido muito divertido vê-lo levantar seu bichinho de estimação do chão.

O reencontro de Vanessa e John Clare – novamente um encontro que representa uma calmaria antes das duras batalhas que ambos terão que lutar – foi magistralmente usado como sequência para esses fatos, centrando todos os personagens mais uma vez, como quem procura nos lembrar onde deixamos todos eles da última vez, para que então possamos avançar.

E, talvez por esta razão, somos levados ao Novo Mundo, para nos reencontrarmos com Ethan, Kaetenay e Sir Malcolm, que agora mais do que nunca sabem – graças a visão do Apache – que eles precisam retornar para salvar Vanessa. Gostei muito que, apesar desse tom de recap, a sensação de não pertencimento de Ethan tenha sido mantida. A jornada dele como um personagem perdido acabou nos rendendo ótimos momentos com Hecate, e talvez mais do Lupus Dei revoltz não vá fazer mal à trama.

As coisas finalmente são postas em movimento depois disso. O descontentamento, que levará a traição, de Dorian com o clubinho criado por Lily é temporariamente deixado de lado (para retomarmos no parágrafo seguinte) quando vemos a Criatura/John Clare finalmente se reencontrar com sua esposa. E, para a nossa surpresa, contar a ela toda a verdade sobre sua ressurreição – o que só fortalece a minha teoria de que ele, talvez a pedido da mulher, force Victor a trazer o filho enfermo de volta à vida. Pelo menos a cena foi tão poética quanto era de se esperar, até mesmo com o drama da Criatura sobre si mesmo (“The sun will never shine so bright for me now that I have walked in darkness”).

Talvez uma das melhores cenas do episódio, quer dizer, sem contar com as de Vanessa, tenha sido o primeiro passo para um verdadeiro showdown entre Dorain e Justine. Embora ele acabe por trair Lily, talvez pensando que seria suficiente findar a origem para findar os problemas, gostei de ver que ainda há no Imortal algum instinto de luta, algum do cinismo enigmático que tanto amamos em suas primeiras aparições. E, mesmo sabendo que não acabará por aí, acho que a série não tinha um “coloque-se no seu lugar bitch!” tão bom quanto esse que Dorian deu em Justine há bastante tempo. “Listen, child. I can toss you out like the baggage you are whenever it pleases me. And don’t think for one moment your tiresome sapphic escapades shock me. You think you’re bold? You think you know sin? You’re still learning the language. I wrote the bloody book.”

Imagem: Arquivo Pessoal/Richard Gonçalves

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Ele não parou as verdade por aqui. Finalmente a série decidiu voltar a explorar a magnitude da imortalidade de Dorian, que só agora parece disposto a compartilhar sua experiência e apontar as falhas das revoluções. Das guilhotinas e do saque de Bizâncio eu não sei, mas o que eu sei é que “So much noise in anarchy. And in the end it’s all so disappointing.” é uma das primeiras quotes da temporada a retratar o verdadeiro tédio de um Imortal frente a uma revolução. Quer dizer, frente a volatilidade da condição ideológica humana que lidera essa revolução. E embora a magia dessa cena seja meio que arruinada quando Victor sai com aquele discurso de “proper woman”Hey Victor, you’re a dumbass! (a ser lido com a entonação de Red Forman do That ‘70s Show) – é impossível negar que agora sim Dorian fez por merecer um episódio só sobre ele, nesta ou numa próxima temporada.

Ainda no departamento de show-off de poderes, começo a adorar cada dia mais essas visões de Kaetenay. Sejam elas espontâneas ou invocadas pelo Apache, o misticismo e falta de linearidade temporal delas só deixa as coisas ainda mais intrigantes na série. E o diálogo dele com a visão/versão de Vanessa foi simplesmente espetacular. Fica aqui a minha primeira standing ovation para Wes Studi nesse papel, porque finalmente a atuação dele foi elevada ao nível dos outros titãs que a série abriga.

ADOREI a reaparição de Catriona Hartdegen! Não só porque ela simplificou em muito as coisas, também não exclusivamente por ela ter dado um novo propósito a missão de Vanessa – a missão de uma espiã, de uma assassina silenciosa, muito similar à imagem de Vanessa que conhecemos no início da série – mas principalmente porque a tensão sexual que está sendo construída para essas duas é cruelmente deliciosa.

É claro que no fim, e para a surpresa de todos nós, Penny Dreadful coloca em xeque muito do que imaginávamos sobre os rumos finais da temporada. Não haverá mais um confronto em que Vanessa luta por aqueles que ela ama ou para defender um ideal, mas sim um confronto, ou para resgatá-la ou para matá-la, agora que ela se entregou ao Príncipe dos Vampiros numa cena verdadeiramente silenciadora.

 

P.S.: Como não amar um episódio em que Vanessa recita poesia, mais ainda, quando ela recita Shelly? “Alastor”, assim como foi com “Adonias” na primeira temporada, chega para se tornar mais um lema da série. “I have made my bed In charnels and on coffins, where Black Death keeps record of the trophies won.” não poderia ter chegado a série em momento melhor.

O próximo episódio nos promete não só um confronto espetacular entre Ethan e Drácula, como também nos promete mortes, carnificina, vingança de Lily e a encenação da frase mais épica de Drácula (the children of the night. What music they make!”), a mesma que foi feita com tanta maestria por Gary Oldman em sua encarnação de “Dracula” na sua versão clássica dos anos 90, dirigida por ninguém menos que Francis Ford Coppola.

 

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Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.

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