A comédia dramática da HBO Max estrelada por Jean Smart se aproxima do fim entregando talvez um dos episódios mais emocionantes de toda sua trajetória. O nono capítulo da quinta temporada de Hacks não funciona apenas como preparação para o encerramento da série. Ele funciona como uma despedida antecipada de Deborah Vance, do palco e de um tipo de televisão que parece cada vez mais raro hoje.
Passei praticamente o episódio inteiro com lágrimas nos olhos.
Não por manipulação emocional barata. O que torna “The Garden” tão devastador é justamente a forma delicada como a série entende o peso daquela noite para Deborah. Existe uma sensação constante de fim inevitável atravessando cada cena. A impressão é de acompanhar alguém tentando eternizar a própria existência antes que as luzes finalmente se apaguem.
Poucas séries recentes conseguiram transformar uma personagem fictícia em alguém tão viva quanto Deborah Vance.
Hacks transforma sabotagem em uma das cenas mais dolorosas da temporada
Durante o episódio inteiro existia aquela sensação inevitável de que algo daria errado no show do Madison Square Garden.
A série constrói essa tensão de maneira brilhante. Deborah repete obsessivamente o texto, faz exercícios, aquece a voz, mergulha o rosto em gelo e se prepara como alguém prestes a entrar numa batalha definitiva. A própria review destaca como toda a sequência cria quase um clima de “fim do mundo”, reforçando o peso daquele momento para a personagem.
Só que Hacks sempre foi genial justamente porque entende sutileza. O episódio não transforma o fracasso do show em um simples colapso emocional. A sabotagem ganha uma dimensão muito maior quando Deborah descobre que Bob Lipka comprou praticamente todos os ingressos apenas para destruí-la publicamente.
Ali não existe apenas vingança. Existe poder tentando silenciar uma mulher que ousou confrontá-lo.
A reação de Deborah resume perfeitamente quem ela sempre foi. “Foda-se seu termo de silêncio e vá se fuder”. Qualquer outra personagem aceitaria o acordo. Deborah prefere perder tudo antes de deixar alguém controlar sua voz.

Deborah Vance faz literalmente de limões uma limonada
Talvez o momento mais bonito do episódio seja justamente a forma como Deborah transforma humilhação em triunfo.
Ao invés de aceitar o fim da própria carreira naquele palco vazio, ela decide ocupar outro espaço. Um espaço público. Livre. Vivo.
O show gratuito no Central Park representa exatamente o coração de Hacks. Deborah não precisa mais provar que é engraçada. Não precisa mais da validação de executivos ou da indústria. Tudo o que ela quer é continuar fazendo as pessoas rirem.
E a série entende perfeitamente o quanto isso é emocionante. A preparação para o evento funciona quase como uma carta de amor para todos os personagens que construíram aquele universo ao longo de cinco temporadas. Damien, Ava Daniels, Jimmy, Kayla, Marty. Todo mundo se mobiliza numa tentativa desesperada de impedir que Deborah desapareça.
Existe algo profundamente bonito nisso. Porque Hacks sempre falou sobre pessoas tentando manter umas às outras vivas emocionalmente.
O show no Central Park pareceu real demais
Quando Deborah finalmente sobe naquele palco diante de 30 mil pessoas, bate quase uma raiva legítima de aquilo não existir fora da ficção.
A energia da multidão, a cidade abraçando Deborah Vance, o sentimento de celebração coletiva… tudo parece grande demais para ser apenas uma cena de televisão.
Jean Smart faz Deborah parecer uma pessoa real em absolutamente todos os momentos. Existe passado nela. Existe ego, insegurança, fome de palco, ressentimento, solidão e necessidade de aplauso convivendo ao mesmo tempo.
Talvez seja justamente isso que torne a despedida tão dolorosa. Porque Hacks criou personagens que não parecem escritos. Parecem vividos.

O episódio entende que estamos nos despedindo de algo maior
No fundo, “The Garden” não fala apenas sobre Deborah Vance. O episódio fala sobre legado e fala sobre envelhecimento. Fala também sobre o medo de deixar de ser relevante num mundo obcecado pelo novo o tempo inteiro.
Deborah passa o episódio inteiro tentando impedir que apaguem sua existência. Só que a grande ironia é que ela já venceu isso há muito tempo. Deborah Vance já entrou para a história justamente porque se tornou impossível esquecê-la.
Existe também uma camada muito melancólica em perceber que Hacks representa um tipo de televisão de prestígio que parece cada vez mais raro hoje. Uma série paciente, inteligente, emocionalmente madura e completamente interessada em personagens acima de qualquer algoritmo.
A relação entre Deborah e Ava continua sendo o coração disso tudo.
A série já nem precisa explicar mais o vínculo das duas. Ele simplesmente existe. Ava entende Deborah de uma forma que ninguém mais consegue. Deborah ama Ava da única maneira torta que aprendeu a amar alguém. A própria série mostra como Ava finalmente percebe que sua grande ideia criativa sempre foi justamente a convivência entre as duas.
Talvez seja isso que torne o fim tão assustador. Porque não parece apenas o encerramento de uma série. Parece a despedida de pessoas que passaram a existir de verdade dentro da nossa rotina.
E sinceramente? Vai ser muito triste viver num mundo onde não existe mais Hacks.