Existem filmes desnecessários. E existe Pan, a tentativa equivocada de transformar Peter Pan em um prelúdio épico que absolutamente ninguém pediu. Lançado em 2015 e dirigido por Joe Wright, o longa tenta reinventar o clássico de Peter Pan apostando em uma origem “grandiosa”, mas acaba entregando uma experiência confusa, cansativa e estranhamente vazia.
A ideia central já nasce problemática. Em vez de conduzir a história até o ponto conhecido do público, o filme cria uma mitologia inchada, cheia de profecias, “escolhidos” e explicações desnecessárias. O jovem Peter, vivido por Levi Miller, passa quase todo o tempo ouvindo exposições sobre seu passado, cartas misteriosas, árvores mágicas e destinos grandiosos. Nada avança de verdade. O filme gira em círculos, como se estivesse mais interessado em preparar continuações que nunca deveriam acontecer.
Peter Pan: um espetáculo barulhento, confuso e sem alma
O maior problema de Pan é que ele confunde excesso com criatividade. O vilão Barba Negra, interpretado por Hugh Jackman, é o exemplo perfeito disso. Jackman até se esforça, mas sua atuação soa automática, exagerada e completamente deslocada. O personagem nunca se impõe como ameaça real e parece existir apenas para preencher espaço com gritos, caretas e números musicais bizarros.
E é impossível ignorar uma das decisões mais constrangedoras do filme: piratas cantando Smells Like Teen Spirit e Blitzkrieg Bop. A intenção claramente era soar ousada e moderna, mas o resultado é constrangedor, datado e quase constrói uma paródia involuntária. Nada combina com nada. A trilha, os figurinos, o tom e a narrativa parecem disputar atenção em vez de trabalhar juntos.
O elenco desperdiçado só reforça o problema. Rooney Mara como Tiger Lily é um símbolo de escolhas questionáveis, tanto narrativas quanto culturais, enquanto Cara Delevingne surge como uma sereia digital que mais parece saída de um videogame mal renderizado. Até os personagens clássicos, como Gancho e Smee, aparecem descaracterizados, sem carisma ou propósito claro.
Visualmente, Pan também decepciona. Apesar do orçamento alto, o filme é escuro, mal iluminado e artificial. Grande parte da ação acontece em cavernas, minas ou cenários sombrios que sufocam qualquer senso de encantamento. O clímax, longo e exaustivo, parece uma obrigação contratual, não uma conclusão emocional.
No fim, Pan é o tipo de filme que faz o público perder a paciência rapidamente. Pais entediados, crianças inquietas e uma sensação coletiva de “por que isso existe?”. Em vez de resgatar a magia da Terra do Nunca, o longa prova que algumas histórias simplesmente não precisam de origem, reinvenção ou explicação. Algumas deveriam, honestamente, ter ficado no papel.