Profecia do Inferno é a inteligente e divertida estreia da Netflix

Série pode ser o novo sucesso sul-coreano na Netflix.

Profecia do Inferno
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Produções sul-coreanas já fazem sucesso no Cinema há um bom tempo. Os filmes produzidos no país são tão bem feitos quanto os norte-americanos sob o ponto de vista técnico. No quesito narrativo, entretanto, a Coréia do Sul tende a ir além. Sem muitas amarras, as histórias vindas do país sabem, como poucas, mesclar diversão e comentário sócio-político. Logo, ao analisarmos obras de Bong Joon-ho, por exemplo, percebemos o intuito de divertir enquanto faz pensar sem forçar a barra. O Hospedeiro pode ser encarado apenas como um filme de monstro gigante, mas também pode ser visto como uma intensa crítica de cunho ambiental. Assim como a nova Profecia do Inferno.

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E os exemplos não param por aí: Parasita, The Handmaiden, Oldboy, Eu Vi o Diabo são alguns dos melhores filmes deste século. Outros, como The Wailing e Train to Busan são divertidíssimos, sem jamais perder a consciência e a autocrítica. Com isso, chegamos a Profecia do Inferno, nova série sul-coreana da Netflix após o sucesso estrondoso de Round 6.

Série mescla religião e sociedade sem jamais perder a diversão

Profecia do Inferno mescla elementos fantásticos e sobrenaturais com realismo como se fosse a coisa mais normal do mundo. E, dessa forma, traz o mistério de criaturas que surgem do nada para levar almas para o inferno. Aparentemente são pecadores. E que, de início, recebem a visita de um rosto sinistro que decreta sua data e hora da morte. Quando o momento chega, três monstros enormes e assustadores aparecem para coletar as almas condenadas. Os casos ficam cada vez mais frequentes, enquanto grupos religiosos tentam dar sentido e tirar proveito dos fatos.

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E é aqui que Profecia do Inferno, como toda boa produção sul-coreana, aproveita para mergulhar em complexos comentários sociais, políticos e religiosos. Se Round 6, extremamente escapista, encontrava espaço para criticar o capitalismo e as colossais diferenças entre classes, Profecia do Inferno se esbalda em toda a polêmica religiosa da premissa. A série, aliás, não busca apontar dedos para nenhum religião específica. O foco aqui é mostrar os reflexos das religiões e seus líderes (independente do que e de quem sejam) em uma população assustada e desinformada.

Profecia do Inferno tem olhar aguçado para elementos modernos

Assim, não demora para que as mortes e ataques ganhem contornos míticos, com anjos, Deus e demônios misturados à ameaça. Enquanto um grupo parece mais pacífico, outro rapidamente demonstra intenções violentas, buscando justiça com as próprias mãos. Todos usando, claro, o contexto religioso para justificar suas ações. Entra, aqui, um importante tema atual que tem assolado diversos países ao redor do mundo: a população inconformada que explode por qualquer motivo, seguindo as palavras de qualquer lunático que surja berrando em microfones e telas de computadores e celulares.

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Neste sentido, um dos pontos mais interessantes de Profecia do Inferno é justamente o personagem que surge entre cenas, através de vídeos postados na internet. Neles, o sujeito inflama seus seguidores distorcendo informações e empurrando seus posicionamentos sem qualquer vestígio de interpretação ou empatia. Assim, quando o personagem surge aos berros, condenando uma mulher como se esta fosse pecadora e merecesse morrer, não nos surpreendemos, já que é justamente isso que vemos diariamente, minuto a minuto, em qualquer canto da internet.

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Monstros talvez não sejam apenas as criaturas assassinas do inferno

Não espanta, portanto, que os tais pecados sejam de natureza banal: a mulher que tem filhos de pais diferentes, o homem que deve, aquele que mente. No fim, em um mundo de pecadores, gritam aqueles que não enxergam os próprios erros. No meio de tudo, ainda há um problema inexplicável: o que são as criaturas que surgem e matam violentamente suas vítimas? De onde vêm? Qual o objetivo? Profecia do Inferno jamais esquece disso, e capricha em várias cenas de ação envolvendo os ataques. O principal, entretanto, seguem sendo os personagens e seus dramas pessoais.

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É impossível, desta forma, não lembrar de Stephen King. O autor sabe, como poucos, inserir elementos sobrenaturais em situações cotidianas, extraindo, então, drama e narrativas surpreendentes. Assim, quando os três monstros surgem assassinando uma mulher de forma extremamente violenta, a sequência não surge gratuita. Ela choca e machuca justamente porque passamos alguma tempo com aquela personagem. A cena funciona, aliás, porque há vários questionamentos e desenvolvimentos por trás daquele triste fim.

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Temporada de seis episódios tem muito para contar

Deste modo, Sang-ho Yeon merece todos os créditos pela efetiva adaptação dos quadrinhos homônimos. Depois de comandar o excelente Train to Busan, ou Invasão Zumbi, o diretor e roteirista leva para as telas, com bom nível de fidelidade, a graphic novel que fez sucesso no país de origem e chega ao Brasil este ano. Sang-ho acerca, acima de tudo, ao calibrar no drama e no suspense envolvente. O criador ganha ainda mais pontos quando parte para a ação, já que está jamais decepciona. Seja pela direção efetiva ou pelos excelentes efeitos visuais, Profecia do Inferno pode funcionar para vários públicos, tanto para os que buscam uma aventura ágil quanto para quem procura um suspense mais sofisticado.

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Mantendo-se perto dos personagens, Profecia do Inferno promete fazer sucesso no ocidente. Diferente de muitas produções orientais, a série não pesa a mão em histrionismos típicos dos filmes e séries sul-coreanos. Além disso, o roteiro é objetivo e mantém o foco em poucos nomes e rostos. Os seis capítulos desta temporada, aliás, passam voando, já que não perdem tempo com diálogos ou acontecimentos desnecessários. Logo, não se surpreenda ao ver um grande plot twist no episódio 3 e um rumo distinto na metade final, quando a história muda. Cada capítulo vale a não há tempo a perder.

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Com isso, Profecia do Inferno é uma série melhor e ainda mais divertida e relevante do que Round 6, o sucesso colossal da Netflix em 2021. Deixando um grande gancho para uma possível segundo temporada, Profecia tem potencial para crescer e debater assuntos espinhosos com propriedade e segurança. Desta forma, Profecia do Inferno mostra que uma premissa nas mãos certas faz uma grande e positiva diferença. Assim como a religião, a política e tudo o que nos cerca.

Nota: 4/5