Pulso, da Netflix, é mais uma Grey’s Anatomy – mesmo não querendo ser | Crítica

A primeira temporada de Pulso (Pulse), novo drama médico da Netflix, chega com claras influências de Grey’s Anatomy — e não faz muito esforço para disfarçar. Na verdade, em muitos momentos, parece estar em conflito com sua própria identidade, tentando negar o DNA de hospital com altas doses de romance, intriga e dilemas éticos que, na prática, é justamente o que a série oferece de melhor.

Desde o primeiro episódio, fica evidente que Pulso quer ser levado a sério. A narrativa se ancora em uma trama densa: a acusação de assédio feita por Danny Simms (Willa Fitzgerald) contra seu ex-chefe e ex-namorado Xander Phillips (Colin Woodell).

A partir daí, a série costura o presente e o passado para revelar o que levou à denúncia — e como os dois personagens, mesmo após o rompimento e a queda de Phillips na hierarquia do hospital, continuam emocionalmente entrelaçados. E mesmo que até uma piadinha no roteiro deixe claro: não somos nada de Grey’s Anatomy, na verdade, a série é apenas isso mesmo. O que não necessariamente seja algo ruim.

Pulso nada na fonte de Grey’s Anatomy mas não se afunda

Pulso o que aconteceu Danny e Phillips
Imagem: Netflix

O drama pessoal dos protagonistas domina boa parte dos episódios iniciais. É impossível não pensar em Meredith e Derek, especialmente porque Pulso tenta seguir uma linha similar de “relacionamento complicado em meio a emergências médicas”. A diferença? Enquanto Grey’s Anatomy sempre abraçou o caos emocional como parte do show, Pulso parece hesitar.

A série faz questão de se distanciar do comparativo com sua antecessora — de forma um tanto artificial. No segundo episódio, Danny repreende uma residente que menciona ter crescido assistindo Grey’s. “Esqueça tudo isso”, ela diz, com uma seriedade quase deslocada.

O problema é que, enquanto tenta se vender como um drama mais sóbrio e realista, Pulso mergulha de cabeça nas mesmas fórmulas que tornaram Grey’s Anatomy um sucesso duradouro. O resultado? Um desconfortável ruído entre intenção e execução.

Basta observar o episódio 3. Em meio a um atendimento de emergência, Danny e Xander travam uma discussão sobre o passado deles — com direito a gritos sobre escovas de dente no banheiro e traumas familiares — tudo isso enquanto entubam um paciente em estado crítico.

A cena, que poderia ser impactante se o foco fosse o dilema ético ou emocional, acaba soando absurda pela falta de timing e bom senso profissional. É entretenimento? Com certeza. Mas está longe do tom sóbrio que a série tenta emplacar.

Conflito do que quer ser pode atrapalhar a experiência de assistir Pulso na Netflix

Essa contradição compromete parte da experiência. Porque sim, Pulso tem méritos. A produção é visualmente eficiente, o elenco é carismático e o ritmo dos episódios prende. A tensão causada por um furacão que se aproxima de Miami oferece uma ótima ambientação para os dramas médicos e pessoais que se desenrolam.



Jack Bannon como o sedutor Tom Cole adiciona mais uma camada de intensidade (e confusão amorosa) ao ambiente hospitalar. E os flashbacks entre Danny e Xander conseguem, em alguns momentos, tocar na complexidade de relações tóxicas com mais delicadeza do que o esperado.

Mas Pulso ainda parece hesitar em assumir o que realmente é: um drama médico com foco nas emoções humanas, nos erros cometidos entre plantões e nos amores que se arrastam pelos corredores do hospital. Se a série parasse de tentar se desvincular de Grey’s Anatomy e, ao contrário, se assumisse como uma sucessora moderna — com suas próprias nuances — talvez funcionasse melhor.

A verdade é que o charme de qualquer boa série médica está no desequilíbrio entre a vida profissional e pessoal de seus personagens. Queremos ver esses médicos cometendo erros, apaixonando-se pelas pessoas erradas, desabando emocionalmente enquanto salvam vidas. E Pulso tem tudo isso. Só precisa aceitar que o coração da série bate mais forte justamente quando abandona a tentativa de ser “séria” e se permite ser um novelão médico de primeira.

Veredito:
Pulso tem potencial, bons personagens e temas interessantes. Mas sua maior barreira está em si mesma. Ao tentar negar o que é, a série freia o próprio ritmo. Se quiser crescer e conquistar um público fiel, precisa parar de fugir de comparações e, em vez disso, abraçar com orgulho o gênero do qual faz parte. Porque nem todo drama médico precisa reinventar a roda — às vezes, é só questão de fazê-la girar bem.

Nota: 7.5/10



Pulso, da Netflix, é mais uma Grey’s Anatomy – mesmo não querendo ser | Crítica
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.