Chegando com pompa ao catálogo do Globoplay, o dorama sul-coreano Questão de Tempo (About Time) promete entregar uma história tocante sobre amor, tempo e destino. Mas a pergunta que fica é: será que essa trama vale mesmo o tempo do espectador?
A resposta, infelizmente, é mais complexa do que se esperava. Apesar de um início cativante e de um elenco carismático, Questão de Tempo se perde em melodramas repetitivos, excesso de canções e subtramas que desviam do que realmente importava: a poderosa metáfora da “vida com um relógio visível”.
A premissa de Questão de Tempo: tempo como metáfora da finitude
O drama gira em torno de Choi Michaela (Lee Sung Kyung), uma atriz de musicais que tem o dom — ou maldição — de ver os “relógios da vida” das pessoas. Ela sabe exatamente quanto tempo alguém ainda tem para viver. Isso, por si só, já cria um clima de tensão constante. A trama ganha contornos mais intensos quando ela conhece Lee Do Ha (Lee Sang Yoon), um homem misterioso cuja presença interfere diretamente no relógio da protagonista.
Esse conceito abre espaço para reflexões filosóficas: o que faríamos se soubéssemos quanto tempo temos? E mais — se esse tempo pudesse ser alterado por amor?
O casal principal: química com ressalvas
No começo, a relação entre Michaela e Do Ha parece forçada. A diferença de postura entre os dois personagens — ela, espontânea e quase infantil; ele, maduro e reservado — levanta dúvidas sobre a escolha do casal. No entanto, à medida que a série avança, Lee Sang Yoon transforma seu personagem em um homem emocionalmente envolvente, e o contraste entre os protagonistas passa a funcionar como tensão dramática.
Ainda assim, é a atuação de Lee Sung Kyung que mais chama atenção. Em seu papel mais trágico até então, ela equilibra bem o drama com leveza, evitando que sua personagem se torne deprimente demais. Sua capacidade de expressar a angústia silenciosa de quem vive com um prazo de validade é um dos pontos altos do dorama.
O problema: muitos musicais, pouca história
Embora o dorama se proponha a ser uma história de amor com elementos fantásticos, boa parte dos episódios acaba se concentrando nos bastidores da produção de um musical. E esse é o grande problema: Questão de Tempo insiste em transformar a vida da protagonista num eterno ensaio musical, com cenas que interrompem o ritmo da narrativa e que, com o tempo, se tornam repetitivas.
Não é que Michaela não saiba cantar — ela sabe. Mas as sequências musicais longas e constantes cansam. Para um drama com tantas questões existenciais, o excesso de números musicais compromete a fluidez do enredo.

Os coadjuvantes: onde mora o verdadeiro encanto
Apesar dos tropeços narrativos, o elenco de apoio é um alento. Kim Hae Sook, uma veterana dos K-dramas, entrega momentos emocionantes como ninguém. Sua personagem carrega um arco dramático que, apesar do pouco tempo de tela, provoca mais empatia do que boa parte da história principal.
Outro destaque é Im Se Mi, que vive Bae Soo Bong — a suposta vilã da história. À primeira vista, ela parece ser só mais uma personagem feminina criada para atrapalhar o casal central. Mas o roteiro, mesmo escorregando em alguns clichês, dá a ela camadas inesperadas. Ela brilha, inclusive, mais que a ex-namorada esquecível de Do Ha, cuja função na trama nunca se justifica.
A derrocada: Questão de Tempo tem um final decepcionante
Ao longo da série, Questão de Tempo acumula boas ideias, mas as desperdiça em tramas paralelas mal desenvolvidas: rivalidades familiares que não levam a lugar nenhum, diretores geniais e temperamentais saídos de uma comédia pastelão, e flashbacks que parecem servir apenas para preencher tempo de tela.
O último episódio, então, entrega um desfecho considerado por muitos como um verdadeiro “anticlímax”. Em vez de explorar a fundo a questão do tempo, da mortalidade e da escolha entre amor e vida, o roteiro opta por uma saída fácil. E pior: previsível.
Para quem acompanhou toda a jornada de Michaela e Do Ha esperando por um clímax à altura da proposta, o encerramento pode soar como um golpe de oportunismo emocional — ou um simples “corte de cena”, como se os roteiristas tivessem desistido de algo mais ousado.
Afinal, vale a pena assistir Questão de Tempo?
A resposta depende do que você busca em um dorama. Se você é fã de romances trágicos com uma boa dose de fantasia, talvez valha a pena dar uma chance — desde que com o controle remoto em mãos e a coragem de pular algumas canções repetitivas.
Questão de Tempo começa com uma proposta instigante e entrega bons momentos emocionais. O romance central, apesar dos tropeços, ganha força com o tempo. E algumas atuações coadjuvantes são, de fato, memoráveis.
Mas é impossível ignorar o fato de que a série desperdiça muito do seu potencial com subtramas que não engrenam, escolhas dramáticas clichês e um final aquém do que se esperava. Como muitos doramas de fantasia romântica, ela tenta equilibrar leveza e profundidade — mas acaba escorregando nos dois.
Veredito final: assista se estiver curioso, mas vá com expectativas ajustadas. E esteja preparado para cantarolar à força — mesmo quando não quiser.
Questão de Tempo está disponível no Globoplay.