Quem começou a assistir Rainhas da Grana na Netflix pode até pensar que tudo ali é exagero típico de uma comédia criminal.
A série acompanha Rosalina, funcionária de banco e mãe solo que enfrenta dificuldades financeiras após o marido ser preso. Afogada em dívidas e sem perspectiva, ela tem uma ideia absurda: assaltar o próprio banco onde trabalha.
O que começa como um plano desesperado, no entanto, rapidamente se transforma em algo maior. Rosa convence suas amigas Sofia, Kim, Alex e Chloe, todas também enfrentando problemas financeiros, a entrarem no esquema. Para despistar a polícia, elas se disfarçam de homens, usando roupas largas, barbas falsas e óculos escuros.
Conforme os golpes aumentam de proporção, também crescem os riscos. A investigação policial se intensifica, a pressão psicológica aumenta e o grupo passa a lidar com consequências que vão muito além do dinheiro.
Embora tenha uma ponta de ficção, a verdade é que a série tem raízes em um caso real que chocou a França no fim dos anos 1980. E, embora a produção tome várias liberdades criativas, a inspiração por trás da trama é absolutamente verdadeira.

O grupo feminino que inspirou a série
A base da história vem da Gang des Amazones, um grupo de cinco mulheres que realizou uma série de assaltos a bancos entre 1989 e 1990, no sudeste da França, na região de Vaucluse. Assim como na série, elas se disfarçavam de homens, usando roupas largas e caracterizações masculinas para despistar a polícia.
As integrantes reais se chamavam Hélène, Laurence, Carole, Fatija e Malika. Todas enfrentavam dificuldades financeiras, e a decisão de cometer os crimes teria começado após uma delas, mãe solo de três filhos, enfrentar uma crise econômica severa. Ao todo, foram sete assaltos antes de serem presas em 1991, durante a oitava tentativa.
As penas variaram entre seis meses e um ano de prisão. Anos depois, o caso voltou aos tribunais, ganhou grande repercussão cultural e inspirou filmes franceses, consolidando o episódio como um dos crimes mais inusitados do período.
O que é ficção em Rainhas da Grana
Apesar da inspiração clara, a série da Netflix amplia e dramatiza bastante os acontecimentos. As personagens Rosa, Kim, Sofia, Alex e Chloe não são retratos diretos das criminosas reais. Elementos como a protagonista trabalhar no próprio banco que vira alvo, o envolvimento com autoridades locais e a escalada milionária dos assaltos são invenções do roteiro.
Na vida real, o valor total roubado pelo grupo girou em torno de 330 mil francos, muito distante das cifras espetaculares mostradas na série. Também não há registros de envolvimento com outras organizações criminosas violentas, algo que a produção utiliza para aumentar a tensão dramática.
Além disso, enquanto os crimes reais ocorreram no final dos anos 80, a série transporta a história para um contexto contemporâneo, misturando crítica social, humor ácido e comentários sobre desigualdade econômica.
No fim das contas, Rainhas da Grana é uma mistura ousada de fato e ficção. A essência vem de um caso real surpreendente, mas o que vemos na tela é uma versão turbinada, estilizada e muito mais caótica do que os eventos históricos.