Realidade? Não pense nisso!

Imagem: Odyssey Online (Reprodução)
Imagem: Odyssey Online (Reprodução),

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Finalmente – finalmente mesmo! – consigo escrever essas linhas. Entre todas as tretas interdimensionais que o multiverso pode reservar, consegui, numa combinação de acaso e muita sorte (além de absurdamente atrasado, como era de se esperar), assistir a terceira temporada de Rick and Morty. E antes que isso tome uma curva em que deixe de ser um Editorial e passe a ser uma review – esse é um risco que eu não me atrevo a correr – não estamos aqui para falar sobre a temporada, nem sobre a série em si.

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Pois é. Que verdadeiro absurdo! Mas para evitar o bait-post, quero esclarecer já nessas linhas a intenção desse passeio, que com certeza será tão ou mais absurdo que o habitual. Frente à contemplação dos últimos meses, atribulados como eles foram, essa dose maravilhosa de Rick and Morty me deu o espaço e a oportunidade para refletir sobre algumas coisas que resultaram nessas linhas.

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Existencialismo, determinismo, niilismo e todas as noções de filosofias, todas tão mencionadas quando Rick and Morty entram na discussão e que, vez ou outra, passeiam por esses textos seriam, então, o lugar para ir depois de afirmar que não teremos uma divagação sobre a temporada. Contudo, esse também não é o roteiro do dia. A cruzada que vez ou outra toma conta desses textos, em que tento, a minha nada sã maneira, argumentar sobre a necessidade de um “algo a mais”, de um novo formato, de uma nova expectativa, de um novo paradigma de consumo, essa sim é a vítima da vez.

Porque enquanto parei para refletir, como era de se esperar, no curso deste que com total certeza, tem sido um ano inacreditavelmente absurdo – agravado pela sequência de absurdos que temos vivido, local, nacional e mundialmente – algumas coisas simplesmente perdem o sentido. Então, ao me deparar mais uma vez com essa página em branco e seu word-count, momento em que as coisas geralmente não parecem nada simples – sempre é, pelo menos para mim, um desafio considerável escrever, mesmo quando eu tenho certeza de cada palavra do texto e já o imaginei completamente – me vi surpreso com a naturalidade com que essas linhas se desenhavam. Vindas da mesma fonte de absurdo habitual, mas destituídas de sua cacofonia interna constante, nunca pareceu tão fácil apresentar essa ideia.

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Até porque, e aqui roubo um pouco dos mestres para fazer graça, existem muitas maneiras de se afirmar, mas apenas uma de negar. E existe realidade demais! Tanto, que as fronteiras entre o real e o “hiper” real já não são mais as mesmas. Claro, mesmo que de maneiras escandalosas e de fontes inusitadas, coisas ruins têm sido expostas e (espera-se) um mundo melhor, uma sociedade melhor… Talvez resulte disso. Entretanto, ao mesmo tempo, um sem-fim de coisas que caminham na direção oposta e que simplesmente nos fazem querer abandonar a busca por qualquer sentido maior, por qualquer “porquê” – fazendo o niilismo muito mais atrativo do que ele deveria ser.

Mesmo assim, é exatamente nessa realidade tão irreal, tão “hiper” real, tão paradoxalmente real que nos vemos todos os dias. Então, qual o ponto? Qual o motivo? Qual a relevância para qualquer coisa, quando todas as coisas ou podem ser relativizadas ou simplesmente não são boas o bastante para a “realidade”. É nesse exato momento, quando o existencialismo quase sai vitorioso que entra o absurdo – e esse texto.

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Afinal – e não me atrevo a dizer que nada disso faz o menor sentido, pelo menos não mais que o “normal” – todas as coisas caem na mesma categoria. E, sendo assim, até mesmo à falta de propósito falta um propósito. Partindo do meio desse eufemismo um tanto quanto tautológico, podemos dizer, sem nenhuma segurança, que nem uma coisa nem a outra são a solução. Não podemos consumir, teorizar, discutir, criticar e fazer tudo o que normalmente fazemos, mas também não podemos simplesmente abraçar falta de propósito e esperar o “encontro imprevisto” que dá fim as coisas. Talvez, só talvez, e esse é um dos motivos pelos quais é Rick and Morty que me faz escrever linhas tão sem definição, tudo o que precisamos sejam dos lembretes. E isso a TV sabe fazer muito bem.

Seja pelo inacreditável marco de 300 episódios – já faz tanto tempo assim?! – ou pelo plot twist agressivo ou pelas verdades ácidas jogadas em nós tão diretamente e até mesmo pelo absurdo, que se liberta das possibilidades e joga fora limitações para nos entregar algo completamente… absurdo. Por qualquer caminho, o entretenimento ainda é, a TV ainda é o melhor lugar para que sejamos lembrados de que, algumas vezes, a “realidade” trabalha em oposição ao que precisamos. De que, algumas vezes, há mais de uma “realidade”, criada, orquestrada e conduzida por fatores muito além daquilo que conseguimos trazer ao domínio do mensurável e prático.

Então, talvez, só talvez, nós devêssemos ouvir com mais atenção a algo que essa indústria já está tentando nos dizer por muito tempo. Algumas vezes, não pense nisso. Não é que o randômico vá servir ou resolver – na maioria das vezes, entregue ao randômico, as coisas tendem a ficarem muito piores. É só que, algumas vezes, a quietude dentro da inquietude responde mais, resolve mais… é mais real do que a própria realidade se propõe a ser. Não precisamos abandonar nada – e talvez, nem negar nada. Afinal, todo o caos que poderíamos pedir para uma imersão tão completa já existe. Resta apenas lembrar que, as vezes, todo o matiz do desconhecido sempre esteve a nossa disposição. Não precisamos buscar por ele, nem dar-lhe forma, precisamos apenas sermos lembrados que, as vezes, é preciso não pensar para que as coisas façam sentido. (don’t) think about that.