Rectify: realidade e contemplação

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Qual a diferença em assistir um blockbuster de verão e um filme artístico? Enquanto o blockbuster te deixa mega animado, com os olhos ardendo e a ansiedade nas alturas pela continuação que com certeza estreará no próximo verão, o filme artístico te faz refletir, contemplar os detalhes, pensar sobre o tema e em como ele influencia na sua vida e nas suas escolhas. Calma, não me odeiem, isso não é uma verdade absoluta, mas, adaptando isso à nossa realidade, Rectify é uma série artística que causa todos os sentimentos próprios desse tipo de obra.

Antes de tudo, é preciso falar do canal. O SundanceTV é um tímido canal norte-americano que investia principalmente em filmes independentes, documentários e curtas-metragens até ter sido comprado pelo AMC Networks e abrir-se para o mercado roteirizado. Em 2013 o canal estourou com as estreias da minissérie Top of the Lake e de sua primeira série original, Rectify, ambas aclamadas pela crítica e com uma visão bem peculiar da vida humana, contemplativa e realista. Rectify é dos mesmos produtores de Breaking Bad e feita originalmente para o AMC, mas que se encaixa bem mais na visão do Sundance.

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Rectify conta a trajetória de Daniel Holden, um homem que foi condenado pelo estupro e assassinato da sua namorada, passou quase duas décadas no corredor da morte e é posto em liberdade graças às novas evidências de DNA. Ele volta para sua família, sua casa, sua cidade, mas nada é como antes, ele não é como antes. A trama então foca nas dificuldades de Daniel em se readaptar à vida em sociedade, enquanto traz flashbacks da sua estadia na prisão.

Durante os quase 20 anos em que Daniel esteve preso muita coisa aconteceu do lado de fora. O seu pai morreu e sua mãe, Janet, contraiu outro matrimonio, com Ted, que já era pai de Ted Jr. Janet e Ted tiveram então Jared, meio-irmão adolescente de Daniel. Ainda do primeiro casamento, temos Amantha, irmã mais nova de Daniel. Mas como são quase 20 anos, Ted Jr. se casa com Tawney e Amantha se envolve com o segundo advogado de Daniel, Luke. A história já inicia com tudo isso formado e se para mim já foi confuso associar esses laços, imagine para o Daniel.

Cada familiar reage de uma forma diferente e isso é perceptível desde o princípio. Janet aparenta não acreditar que o filho foi liberto e fica meio receosa, enquanto Ted parece aceitar bem esse retorno. Jared tenta ajudar o meio-irmão a se adaptar ao mundo atual, enquanto Ted Jr. faz a vez de vilão, personificando o preconceito. Amantha sempre acreditou na inocência do irmão, sempre militou em sua defesa e é meio que superprotetora. Já a religiosa Tawney é curiosa sobre o que ele viveu, o que ele está vivendo, o que ele sentiu e sente.

Cada membro da família representa uma maneira de enxergar e aceitar essa nova realidade. Receio, curiosidade, preconceito, discriminação, suspeita, indiferença, credibilidade, sentimentos palpáveis e aos quais todos nós estamos sujeitos, sem precisar conviver diretamente com um caso semelhante.

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Fora da família temos a sociedade. As autoridades locais, as testemunhas, os novos suspeitos, a família da vítima, a mídia. Em cada olhar uma opinião e uma reação distinta.

Já na prisão, retratada em flashbacks, Daniel estava totalmente isolado em uma cela inteiramente branca, exceto pelos presos das celas vizinhas. À esquerda, Kerwin, preso por assassinato e com quem Daniel mantém uma amizade única. À direita, o repugnante Wendall, sempre ouvindo e se intrometendo nos diálogos de Daniel e Kerwin. Essa dualidade é incrível, como um anjo e um demônio sussurrando em cada ouvido.

Mas é Daniel o grande protagonista dessa série. Sempre calado, misterioso, isolado, uma mente impenetrável. É ele quem dita o ritmo da série, que avança lentamente a cada descoberta, que contempla esse novo mundo, essa nova vida. O constante silêncio nos leva a interpretar cada olhar, cada movimento, cada respiração. Dialogamos com a sua quietude, somos totalmente inseridos no seu mundo, na sua tentativa de viver o que foi perdido. Como voltar a viver quando já se tinha aceitado a morte?

Todas as atuações são dignas, mas o destaque é, claro, para Aden Young, com o intimista e hipnotizante Daniel. Abigail Spencer esbanja carisma com a sua Amantha, a minha favorita, com certeza o melhor desempenho da atriz, rendendo uma indicação ao Critics’ Choice Television Awards, infelizmente a única indicação da série.

A trama não tenta cercar o crime de mistério, não tenta ser ágil, obscura, muito pelo contrário, é lenta e contempla uma nova realidade, um novo mundo claro e brilhante. O crime aqui não é o foco, é uma visão nova que recai sobre a culpa e a absolvição. Uma viagem ao mundo de Daniel e uma retratação do nosso mundo, da nossa humanidade. O moralismo, as motivações, os preconceitos, as opiniões, as escolhas, a demonização e a santificação. A minha visão sobre a trama no piloto é totalmente diferente da do season finale.

Rectify é isso, um soco no estômago, um tapa na cara, um abrir de olhos, uma ampla contemplação, uma profunda reflexão, um completo estudo sobre a humanidade. Assista, avalie essa realidade que é tão nossa, avalie-se como ser humano.

Equipe Mix

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Perfil criado para realizar postagens produzidas pela equipe do Mix de Séries.

30 comments

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  1. Avatar
    Douglas Couto 23 junho, 2014 at 11:46 Responder

    Nossa que texto bom João. Eu ainda não vi (pretendo ainda esse mês) mas é bem isso o que eu imagino que a série seja. Espero gostar.

    • Avatar
      João Victhor Sales 23 junho, 2014 at 12:11 Responder

      Essa é uma das séries que mais mexe comigo, eu fico bobo assistindo aquilo tudo que nem sinto o tempo passar e o ritmo lento é tão gostoso. Tomara que vc goste, Foug!

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    Douglas Couto 23 junho, 2014 at 11:46 Responder

    Nossa que texto bom João. Eu ainda não vi (pretendo ainda esse mês) mas é bem isso o que eu imagino que a série seja. Espero gostar.

    • Avatar
      João Victhor Sales 23 junho, 2014 at 12:11 Responder

      Essa é uma das séries que mais mexe comigo, eu fico bobo assistindo aquilo tudo que nem sinto o tempo passar e o ritmo lento é tão gostoso. Tomara que vc goste, Foug!

  3. Avatar
    Luis Carlos 23 junho, 2014 at 20:01 Responder

    Ótimo texto, parabéns cara! Captou muito bem a essência da série. E essa primeira temporada já foi algo bastante novo e único. E sem falar que é uma série que tem uma identidade própria, o que é bastante interessante e digno de aplausos, por exemplo. Agora é esperar acabar a segunda temporada, que promete ser melhor que a primeira. Essa série vai ter muita atenção futuramente (já te crescido bastante de uns tempos pra cá), não aquela atenção como de outras séries populares, porém, crescerá bastante para sorte de muitos felizardos que provavelmente conhecerão essa obra de arte que é Rectify.

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      João Victhor Sales 23 junho, 2014 at 23:15 Responder

      Única, essa é a melhor definição. Acredito que estamos presenciando a construção de uma grande obra de arte que é Rectify, veio no momento certo, a TV precisa dessa renovação e que muitos outros felizardos possam contemplá-la.

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    Karla 23 junho, 2014 at 21:55 Responder

    Com um texto desse fica impossível não despertar interesse pela série, parabéns João!
    Já tô incluindo na lista pra fazer maratona.

  5. Avatar
    Karla 23 junho, 2014 at 21:55 Responder

    Com um texto desse fica impossível não despertar interesse pela série, parabéns João!
    Já tô incluindo na lista pra fazer maratona.

  6. Avatar
    Gláucia Freire 24 junho, 2014 at 11:44 Responder

    Gosto dessa ideia de rompimento que Rectify traz, fazendo-nos revisitar nossos conceitos, nossos padrões. Os sentimentos e a forma como os captamos em constante questionamento, cercados de possibilidades, lembrando que a gente deve fugir de pré-julgamentos. Rectify reúne mesmo lições bem profundas, bem filosóficas.

    E que texto bonito o teu, moço! Traduz bem essa inquietação que atinge a gente depois de cada episódio =)

    • Avatar
      João Victhor Sales 24 junho, 2014 at 14:48 Responder

      É realmente isso Gláucia, poderia ser uma série explosiva, mas escolheram desenvolver esse tema forte de uma forma intimista e lírica, e é essa escolha o seu grande acerto. A tela não explode, mas nós telespectadores implodimos, olhamos para o nosso interior, para reavaliarmos nossos conceitos e pré-julgamentos. Muito obg, moça 😀

      • Avatar
        Gláucia Freire 24 junho, 2014 at 19:37 Responder

        “nós implodimos”… é isso mesmo! E eu admiro vc por conseguir sistematizar tão bem o pensamento depois dessas implosões todas, rs. Avante, moço.

  7. Avatar
    Gláucia Freire 24 junho, 2014 at 11:44 Responder

    Gosto dessa ideia de rompimento que Rectify traz, fazendo-nos revisitar nossos conceitos, nossos padrões. Os sentimentos e a forma como os captamos em constante questionamento, cercados de possibilidades, lembrando que a gente deve fugir de pré-julgamentos. Rectify reúne mesmo lições bem profundas, bem filosóficas.

    E que texto bonito o teu, moço! Traduz bem essa inquietação que atinge a gente depois de cada episódio =)

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      João Victhor Sales 24 junho, 2014 at 14:48 Responder

      É realmente isso Gláucia, poderia ser uma série explosiva, mas escolheram desenvolver esse tema forte de uma forma intimista e lírica, e é essa escolha o seu grande acerto. A tela não explode, mas nós telespectadores implodimos, olhamos para o nosso interior, para reavaliarmos nossos conceitos e pré-julgamentos. Muito obg, moça 😀

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        Gláucia Freire 24 junho, 2014 at 19:37 Responder

        “nós implodimos”… é isso mesmo! E eu admiro vc por conseguir sistematizar tão bem o pensamento depois dessas implosões todas, rs. Avante, moço.

  8. Daniele
    Daniele 24 junho, 2014 at 14:38 Responder

    Excelente texto, kalindao. Parabéns!!!

    Bom, rectify já está na minha geladeira há um bom tempo. Ao ler o texto, sinto na obrigação de ver soon as possible. Já tinha visto a crítica dele na veja e já tinha curtido a série. Ao ler o seu texto, só reforçou a ideia de q devo assistir.

    😀

  9. Daniele
    Daniele 24 junho, 2014 at 14:38 Responder

    Excelente texto, kalindao. Parabéns!!!

    Bom, rectify já está na minha geladeira há um bom tempo. Ao ler o texto, sinto na obrigação de ver soon as possible. Já tinha visto a crítica dele na veja e já tinha curtido a série. Ao ler o seu texto, só reforçou a ideia de q devo assistir.

    😀

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