Muita gente que mergulhou no mundo sombrio e hipnotizante de Reis de Joanesburgo se faz a mesma pergunta: afinal, essa história é real? Com tramas que misturam crime organizado, dramas familiares intensos e até elementos sobrenaturais, a série sul-africana da Netflix conquistou quem gosta de uma boa narrativa cheia de camadas — e agora, o público quer entender o que veio da realidade e o que foi criado para a ficção.
Spoiler: a série não é baseada em uma história real. Mas isso não quer dizer que ela não esteja profundamente enraizada na cultura, nos medos e nas lendas de Joanesburgo.
Crime, poder e sacrifícios: o que é real?
Criada por Shona Ferguson — que também interpreta Simon Masire, o “Vader” —, a série é, acima de tudo, uma obra de ficção corajosa. Mas ela se inspira em histórias que fizeram parte da infância do próprio criador. Ferguson revelou, em entrevistas, que boa parte dos elementos sobrenaturais foi influenciada por contos contados por seu pai, sobre demônios, entidades e pactos ocultos que faziam parte do imaginário popular da África do Sul.
A figura central dessa mística em Reis de Joanesburgo é a “Mamlambo” — uma deusa aquática do folclore sul-africano, frequentemente descrita como uma sereia. Na série, Simon faz um pacto com essa entidade para manter seu poder e riqueza. Mas, em troca, precisa realizar sacrifícios humanos. A lenda da Mamlambo realmente existe na cultura africana, especialmente entre os zulus e xhosas, sendo associada a histórias de poder, ganância e consequências.
Embora não haja provas científicas sobre a existência da entidade, o mito se mistura a um contexto histórico real: a desigualdade social, o legado do Apartheid e a busca por ascensão a qualquer custo.
A escolha de Joanesburgo como cenário não foi por acaso

A cidade de Joanesburgo, retratada na série como um terreno fértil para o crime e a corrupção, carrega essa reputação há décadas. Durante os anos 1980, em plena era do Apartheid, as taxas de criminalidade explodiram, e o centro da cidade foi esvaziado por moradores em busca de segurança. Mesmo após o fim do regime, os resquícios dessa violência ainda se fazem sentir.
A escolha de Joanesburgo como palco para Reis de Joanesburgo reforça o tom sombrio e brutal da série. É um território onde o poder se conquista com sangue e onde alianças são tão frágeis quanto promessas não cumpridas. A violência que vemos na tela, mesmo com toques místicos, tem suas raízes fincadas em uma realidade urbana tensa.
Entre a fantasia e a realidade: a mágica da ficção
Shona Ferguson foi habilidoso ao unir dois universos que raramente se encontram de forma tão intensa: o crime e o sobrenatural. Segundo ele, a ideia era pegar “os segredos sombrios” das histórias que ouvia quando criança e transformá-los em uma narrativa urbana, acessível e empolgante para o público moderno.
Na série, a dualidade entre os irmãos Masire — Mo, que busca redenção após sair da prisão, e Simon, cada vez mais envolvido com práticas ocultistas — espelha também o conflito entre o mundo real e o espiritual. O sobrenatural em Reis de Joanesburgo não está ali por acaso: ele representa a ganância, o poder, e a linha tênue entre o bem e o mal que os personagens atravessam a todo momento.
O legado de Shona Ferguson
Reis de Joanesburgo tem um peso ainda maior quando lembramos que foi o último projeto de Shona Ferguson antes de sua morte em 2021, vítima de complicações da COVID-19. A série, portanto, também se transforma em um tributo à sua criatividade, ousadia e paixão por contar histórias sul-africanas de maneira grandiosa.
Ele queria falar de crime, mas também queria falar de fé, ancestralidade, mitologia, e dos fantasmas que ainda assombram muitas comunidades negras — principalmente quando o poder entra em jogo.
Afinal, Reis de Joanesburgo é baseado em fatos reais?
Não. Reis de Joanesburgo não é uma história real, mas sim uma obra de ficção inspirada por:
- Lendas urbanas sul-africanas, como a da Mamlambo;
- Histórias e folclores da infância de Shona Ferguson;
- A realidade social e histórica da cidade de Joanesburgo, especialmente durante e após o Apartheid;
- Elementos recorrentes do crime organizado e da cultura de gangues que ainda se refletem em áreas marginalizadas.
A série é um espelho — distorcido, mas potente — de uma realidade marcada pela luta por poder, pela busca de identidade e por uma justiça que, muitas vezes, parece mítica demais para ser alcançada.
Em resumo: o que torna Reis de Joanesburgo tão envolvente não é o fato de ser real, mas a forma como se apoia em verdades culturais, sociais e espirituais para contar uma história que poderia, sim, ser possível — e é isso que assusta.