Ringue Mix – Crimes e Detetives

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As antologias têm conquistado a televisão e seu público nos últimos anos. Em linhas breves, uma antologia é aquele programa com uma história diferente a cada temporada. Cada arco tem início, meio e fim e geralmente têm elencos diferentes. American Horror Story foi uma das primeiras antologias de sucesso. Em 2014 surgiram duas séries que representam o que há de melhor no formato. True Detective, da HBO, e Fargo, do FX, foram sucesso de público e crítica e chegam ao Ringue Mix para decidir: qual antologia, afinal, é a melhor?

 

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De um lado do ringue:

True-Detective-1True Detective

1 temporada (2014-atualmente)

8 episódios

Criada por Nic Pizzolatto

True Detective começa em 2012 nos mostrando o interrogatório de dois homens: Rust Cohle e Martin Hart. Não demora e voltamos no tempo: 1995. Rust e Martin são dois detetives. Parceiros, os dois não combinam em nada: enquanto para Hart tudo é preto ou branco, Cohle enxerga o mundo em tons de cinza. Com passado obscuro, Rust filosofa e fala sobre coisas que seu parceiro ou não entende ou não se importa. São dois homens diferentes que vieram de lugares diferentes e têm passados distintos. Aos poucos descobrimos que a dupla se encarregou da investigação de um caso envolvendo um serial killer que assombrou a Louisiana na década de noventa. O problema é que o caso não foi resolvido e passado e presente acabam se misturando em uma trama intrincada que vai e volta no tempo para nos contar como verdadeiros detetives fazem seu trabalho.

 

Do outro lado do ringue:

Fargo40-FARGO-MGM

1 temporada (2014-atualmente)

10 episódios

Criada por Noah Hawley

Dizer sobre o que Fargo se trata é complicado. Digamos que a série acompanha Lester Nygaard, um homem infeliz que já levou e ainda leva muitos golpes de uma vida miserável. Ainda que estável no trabalho e no casamento, ambos não lhe dão prazer. A bola de neve de problemas começa quando Lester encontra um antigo “inimigo”. Ao acidentalmente quebrar o nariz, Lester vai para o hospital e na recepção conhece um homem chamado Lorne Malvo. Em uma conversa estranha, Malvo entende que Lester quer se vingar do tal “inimigo”. Assim, o sujeito, que é um assassino profissional, resolve matar o homem que perturbou o frágil Lester Nygaard. As coisas pioram quando Lester se cansa da esposa e a mata com uma martelada. Malvo volta para ajudar o desesperado Lester e o resto é uma longa sequência de erros, mortes e arrependimentos.

 

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Fargo e True Detective são aquilo que chamamos de “nata” da televisão. O que há de melhor, técnica e narrativamente falando, pode ser encontrado na primeira temporada de cada uma. Detective conta com o selo HBO, emissora que sempre investe em produções seriadas e que dá total liberdade criativa às equipes de seus programas. Fargo vem do FX, outro canal conhecido pelo respeito com que trata suas produções. São shows quem vêm de casas respeitadas. Pela liberdade criativa concedida pelas emissoras, temos o total controle dos showrunners que podem arriscar o quanto quiserem. Fargo e Detective, portanto, são obras autorais, representam a liberdade criativa que qualquer artista deseja. Não é à toa que ambas são escritas por um só roteirista. Pizzolatto e Hawley escreveram inteiramente sozinhos suas respectivas temporadas. É um trabalho árduo de roteiristas competentes que sabem exatamente o que fazer.

Além dessa liberdade para criar tramas e personagens como bem entenderem, os escritores dessas séries podem criar toda a história tendo um espaço pré-definido para trabalhar. Pode não parecer, mas é muito mais fácil pensar e criar quando se há um horizonte visível à frente. Antologias, portanto, oferecem uma espécie de segurança para um showrunner/escritor, já que cada temporada terá um início, meio e fim delineados. Escrever sem ter um limite específico pode atrapalhar o desenvolvimento da obra: como introduzir uma trama? Quando apresentar um personagem? Quantos mais episódios ainda restam para desenvolver este assunto? Tendo um limite estabelecido, o escritor sabe exatamente quando e como dar seguimento à sua criação.

Neste sentido, Fargo e True Detective são perfeitas, já que tudo está definido desde o primeiro episódio. Com o final já criado, roteiristas e diretores sabem como desenrolar certas coisas, quais detalhes podem ser liberados, quais segredos devem ser mantidos. Toda a temporada é pensada e construída como se fosse uma coisa só, como um livro, filme ou série da Netflix. Essa construção delicada de todo o arco narrativo pode ser notada com mais clareza em True Detective, que possui duas linhas temporais e um mistério central a ser solucionado. Ainda que muitos critiquem o desfecho da trama, não há o que reclamar: True Detective, no fundo, não era sobre quem é o assassino. Há várias séries que propõem o mistério básico de “quem é o culpado” a cada episódio. Detective foi sobre os dois personagens principais e os reflexos dos crimes e da investigação em suas vidas.

Em termos visuais a batalha entre os programas é ainda mais difícil: True Detective tem uma fotografia perfeita, que transforma a própria cidade em personagem. Além disso, Cary Fukunaga dirige todos os episódios com precisão cirúrgica. Além de arrancar atuações absolutamente impecáveis de Woody Harrelson e, principalmente, Matthew McConaughey, Fukunaga ainda faz um brilhante trabalho de câmera (o plano sequência em Who Goes There é simplesmente magnífico). Fargo, ainda que não seja dirigida por um só diretor, também tem uma identidade visual muito particular. Com visual de cinema, a série não decepciona e investe em metáforas, rimas visuais e sequências memoráveis (o tiroteio na neve, o plano sequência no lado externo de um prédio, etc.). Aqui, as séries acabam basicamente empatadas.

No campo das atuações elas também dão um show. De um lado, Harrelson e McConaughey vão a fundo ao compor seus personagens. É uma vergonha, vale dizer, que Matthew tenha perdido o Emmy. Ainda que Bryan Cranston seja genial, o que McConaughey faz é coisa de mestre. Mas Fargo também tem seus ótimos representantes: Martin Freeman faz uma mistura de Bilbo com Forrest Gump que dá certo, Colin Hanks e Allison Tolman surpreendem, mas é mesmo Billy Bob Thornton quem rouba a cena. Malvo é o tipo de personagem que os irmãos Coen (responsáveis pelo filme homônimo que inspirou a série) criariam. Misterioso, Malvo é como o psicopata Anton Chigurh, de Onde os Fracos Não Têm Vez: chega, faz o serviço, vai embora, chega em outro lugar, faz o serviço, vai embora. É um indivíduo sem sentimentos que roda o mundo matando e seguindo em frente. São alguns dos melhores atores e personagens vistos nos últimos dois anos.

 

E o vencedor é…

Até aqui você deve estar se perguntando: qual, afinal, é a melhor? Depois de comparar alguns pontos de ambas as séries e chegar à conclusão de que ambas são igualmente geniais, o desempate é um fato puramente pessoal. Fargo, no quadro geral, agradou mais que True Detective. A série da HBO é psicologicamente mais profunda que a da FX, mas não é só de complexidade e profundidade que se faz uma série. Fargo acaba como uma experiência muito mais satisfatória e bem amarrada do que Detective. O problema não está no encerramento abstrato e anticlimático da série de Nic Pizzolatto. O fato é que Fargo agrada – e muito – logo no primeiro episódio. E a série segue regular até o fim, sem pontos baixos.

True Detective, por outro lado, demora a realmente pegar o ritmo. Além disso, a primeira temporada é um tanto irregular: em alguns momentos o ritmo cai, o interesse do espectador se desvia, a trama se complica desnecessariamente, etc. É um trabalho de primeira linha, mas ainda que tente, Fargo acaba por ser mais catártica. Detective deixa diversas filosofias no ar, mas é a outra que consegue satisfazer mais.

 

KO-Fargo

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

3 comments

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  1. Avatar
    Tainara Hijaz 9 junho, 2015 at 12:01 Responder

    Aê! Muito feliz – e surpresa – com a vitória de Fargo, já que eu amo essa série (e o filme) e dormi no piloto de True Detective (sei que é genial e tal, mas o que se pode fazer). Ótimo texto, como sempre, Matheus! 😉

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