Ringue Mix: o que acontece entre a morte e a ressurreição

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Um dos maiores poderes da ficção é retratar a morte como algo natural, que mexe com todos, desde o personagem até o telespectador. A morte sempre foi uma característica presente em séries e filmes de drama, criando uma conexão entre personagem e espectador, e principalmente, expondo emoções. Mas e se você pudesse rever aquela pessoa querida? Se ela voltasse, como se nada tivesse acontecido, e te procurasse? O Ringue Mix dessa semana mostra a batalha entre duas séries que contam esse tipo de história: Resurrection e Les Revenants.

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De um lado do ringue…

Resurrection
2 temporadas (2014-2015)
21 episódios
Criado por: Aaron Zelman

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Cancelada após duas temporadas, Resurrection conta a história dos habitantes da cidade de Arcadia, no Missouri, que têm a vida completamente mudada quando seus entes queridos voltam dos mortos. A primeira imagem que temos é de um menino americano de 8 anos que acorda sozinho em uma plantação de arroz na China, sem lembrar de nada o que aconteceu antes. Temos o decorrer da história quando o menino, que se diz chamar Jacob, lembra que sua casa é em Arcadia e acaba sendo levado por um agente da imigração até a cidade. A casa onde ele vivia é ocupada por um casal mais velho, Henry e Lucille Langston, que dizem que seu filho Jacob Langston morreu há 32 anos. Ao longo dos episódios, descobrimos que o retorno de Jacob não é um acontecimento isolado na cidade e sim, que outras pessoas também retornaram. Apesar do cancelamento precoce, Resurrection alcançou bons números de audiência e aceitação do público, alcançando 60% de críticas positivas no Metacritic.

 

… Do outro lado do ringue.

Les Revenants
1 temporada (2012), com previsão de retorno para 2015
8 episódios
Criado por: Fabrice Gobert

Baseado no filme francês de 2004 They Came BackLes Revenants, assim como sua oponente, conta a história de uma pequena cidade francesa em que alguns habitantes retornaram:  Camille – uma adolescente vítima de acidente numa estrada há quatro anos atrás; Simon – noivo que se suicida; “Victor” – um garotinho que foi assassinado por ladrões; e Serge, um serial killer. Eles tentam continuar suas vidas de onde as deixaram enquanto fenômenos estranhos acontecem; também estranhas marcas aparecem nos corpos dos vivos e dos mortos. A série teve uma ótima recepção pela critica mundial, sendo premiada com um Emmy Internacional de Melhor Série de Drama em 2013.

 

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Trazer um tema polêmico como esse, de como seria a reação e a vida de pessoas que viram seus parentes queridos voltarem da morte, não é fácil. E as duas séries conseguem desempenhar bem o papel de transmissor dessas histórias. A princípio, pode parecer estranho, afinal isso nunca aconteceria na vida real (ao contrário de tantas histórias de drama que vemos hoje em dia), mas nos leva a pensa sobre qual seria a nossa reação. Como seriam nossas vidas se um parente que morreu há anos, por acaso, aparecesse na sua casa, agindo como se nada tivesse acontecido? Por outro lado temos, em ambas as séries, uma análise sobre o que realmente acontece após a morte e as consequências disso na vida das pessoas.

Les Revenants é uma obra de arte. Visualmente falando, a série é um deslumbre para quem aprecia a fotografia e o enquadramento de uma série. Por ser francesa, a estética da série é bem diferente do que estamos acostumados a assistir: planos mais abertos com longa duração e não há enrolação nos diálogos. Os personagens parecem falar apenas e quando necessário e o silêncio é preenchido por uma trilha sonora que combina com o clima mórbido e misterioso da pequena cidade.

Não existe narração, apenas informações que chegam aos poucos com cada episódio centrado em um personagem, de quem saberemos sua história e um pouco mais sobre ele. O elenco conta com nomes conhecidos do cinema francês, sendo bem dirigido e muito bem filmado. A série valoriza o rosto dos personagens e não aposta em sustos, escatologia ou acontecimentos formidáveis. Algumas surpresas são vistas no roteiro, mas sem truques baratos ou apelação. Um exemplo disso é a volta de uma de duas gêmeas idênticas. A viva tornou-se mulher e a que retornou teve seu crescimento interrompido, permanecendo uma menina. Há também famílias disfuncionais, um casal de lésbicas muito apaixonadas mas que se deparam com impasses, entre outros.

Resurrection é a prima não tão distante assim. Ao contrário de Les Revenants, Resurrection fracassa profundamente como enredo fantástico. Em alguns momentos, a série entrega um dramalhão repleto de ingenuidade quase infantil. O texto sofre com grandes limitações, não prendendo a atenção do espectador e deixando mostrar que em algum momento faltou coragem por parte dos roteiristas para abraçar o irreal. A necessidade de dar sentido a tudo leva a uma trama rasa e com explicações sem nexo e rasteiras. Apesar do cancelamento, o desfecho da série abre uma porta para uma possível nova temporada, mas a história fica presa num beco sem saída de guerra entre dois mundos, os vivos e os que retornaram.

O drama particular de famílias que recebem de volta alguém que morreu há 30 anos atrás se dissolve em uma aventura coletiva e parecida com outras tramas que a televisão oferece. A série terminou como um exemplar não tão charmoso assim de The Walking Dead, mostrando uma guerra sem fundamento entre vivos e retornados, sendo esse último em maior número. A ABC, emissora responsável pela série, defende que todos cruzamentos entre as duas produções são pura coincidência. E existem várias. Ambas têm personagens suicidas, crianças, uma cidade pequena repleta de gente preconceituosa. Todos os que retornaram sentem muita fome e sofrem de insônia. Além disso tudo – e muito importante ser ressaltado – há um religioso de alguma maneira envolvido com aqueles que voltam do além. Mas, apesar de todas essas coincidências, ABC garante que a série francesa não serviu nem de longe como inspiração para sua série, que seria baseada num livro homônimo de Jason Mott.

 

E o vencedor é…

As duas séries são marcadas pela diacronia. Ninguém que volta – por mais amado que seja – encontra uma situação de conforto. Os anos passaram, nada é o mesmo, muito menos em uma cidadezinha onde tudo muda muito pouco. Nas duas séries paira um desacerto permanente e insuperável, porém descartável quando vemos a complexidade da trama.  A morte é algo traduzido em melancolia profunda na série francesa, que convenhamos é uma especialidade nacional. Já Resurrection nos mostra momentos onde a trama é colocada de lado e temos apenas uma disputa irracional, apelando para o envolvimento com o governo e o desenvolvimento de uma operação matemática para calcular onde surgirão os novos “retornados”.

Levando em consideração a complexidade da trama e como ela é entregue para o espectador, Les Revenants leva essa disputa. A série é sombria, enquanto a ensolarada série da ABC nos lembra mais uma aventura adolescente, com clichês e situações previsíveis. São leituras quase opostas de algo unânime e, só por isso, ambas merecem ser assistidas, porém com certo receio e com aviso prévio para possível decepção com Resurrection.

 

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