Ringue Mix: The West Wing x House of Cards

Imagem: Netflix/NBC/Divulgação

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Dramas políticos desvendam as intrincadas teias do mundo da política através de jogos, esquemas e seus desdobramentos. O cenário das séries mais famosas do gênero é a política norte-americana, com seus conflitos com os países árabes e lutas pelo poder na Casa Branca. Colocamos frente a frente dois governos da Casa Branca, o de Jed Bartlet em The West Wing e o de Frank Underwood em House of Cards. Quem sairá vitorioso?

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De um lado do ringue…

The West Wing
7 temporadas (156 episódios)
1999 – 2006
Criado por: Aaron Sorkin

The West Wing, como nome já diz, foca na ala Oeste da Casa Branca onde estão localizados o Salão Oval e os escritórios da equipe do presidente dos EUA. A série começa no segundo ano do primeiro mandato do presidente fictício Jed Bartlet. Interpretado por Martin Sheen, Bartlet é um professor universitário e ex-governador de New Hampshire, que já havia ganhado um Prêmio Nobel de Economia quando se candidatou ao cargo. Ao longo da série, conhecendo Bartlet aos poucos, vemos se tratar de um presidente que, ingenuamente falando, só quer melhorar o mundo. Mesmo no final da década de 90, The West Wing já vinha com um elenco de peso, liderado por Martin Sheen e seguido por atores como Stockard Channing, Allison Janney, Rob Lowe e Joshua Malina. A série ganhou três Golden Globe Awards e 26 Emmy Awards. Ao longo dos anos, inúmeros cientistas políticos, professores e ex-funcionários da Casa Branca elogiaram a forma como política foi retratada na série.

Do outro lado do ringue…

House of Cards
5 temporadas (65 episódios)
Feb 2013 – atualmente
Criado por:  Beau Willimon

Imagem: Netflix

Essa adaptação da mini-série da BBC, também chamada House of Cards, é baseada no romance de Michael Dobbs. A série começa em 2010, em Washington DC, quando o líder da bancada majoritária da Câmara dos Deputados, Frank Underwood, interpretado por Kevin Spacey, sente-se traído ao não ser nomeado Secretário de Estado da nova gestão, posto que havia sido prometido a ele. Então, Underwood inicia um plano elaborado para se colocar em uma posição de maior poder, auxiliado por sua esposa Claire Underwood. Com muita manipulação, pragmatismo e poder ele orquestra sua vingança, que acaba se tornando algo muito maior e mais importante. House of Cards apresenta um monólogo de Frank Underwood com o telespectador deixando a história mais pessoal nos contando qual seria a opinião do complexo e intrigante protagonista. Underwood tem um grande trabalho a fazer e é interessante ver como ele faz isso através de chantagem, ganância e determinação.

As duas séries de drama político são tão diferentes como as décadas em que foram configuradas. The West Wing foi ao ar durante uma época em que o presidente dos EUA era aprovado por boa parte da população e a política americana estável, mesmo com o escândalo do presidente Bill Clinton (1993-2001). Já House of Cards, apesar de ter ido ao ar durante o governo de Barack Obama (2009-2017), um presidente também com altos índices de aprovação, descreve bem como a política se transformou nesses últimos anos, com a forte presença de lobistas e interesses empresariais desempenhando um importante papel nas grandes decisões de uma nação. Talvez seja por isso que House of Cards faça tanto sucesso, uma vez que as pessoas conseguem relacionar os fatos da série com o caos político atual, principalmente nós, brasileiros.

Apesar disso, The West Wing prende mais o público ao fato que explica para um leigo (como eu) como um governo funciona. Por exemplo, a série aborda aspectos de como uma lei é aprovada ou como um presidente é eleito. Também nos mostra o funcionamento da Casa Branca e curiosidades como o cargo de Assistente Pessoal do Presidente, de Charlie Young (Dulé Hill). House of Cards já pula essa parte e mostra como a manipulação e os esquemas resolvem tudo, independentemente de como um governo deveria funcionar.

Em House of Cards cada personagem tem um papel crítico a desempenhar – não há personagens que você poderia deixar de lado como irrelevante ou desnecessário para a história, como, Remy Danton (Mahershala Ali) e Will Conway (Joel Kinnaman). Essa é uma façanha muito difícil de alcançar, a qual The West Wing não consegue. No governo de Bartlet temos personagens muito previsíveis e que raramente misturam suas vidas pessoais com as profissionais. Um ótimo exemplo disso é a relação entre Josh Lyman (Bradley Whitford) e Donna Moss (Janel Moloney), pois focam tanto na vida profissional que os fãs precisam aguentar e shippar o casal por sete temporadas.

Enquanto House of Cards mantém um enredo principal durante toda a temporada, os episódios de The West Wing são mais independentes e explicativos. Ainda, o segundo apresenta três episódios em formato de documentário demonstrando uma aproximação com a realidade. Um deles sendo o episódio “Access” (5×18) no qual acompanhamos o dia de trabalho de C.J. Cregg (Allison Janney), Secretária de Imprensa.

Além disso, uma prova de como The West Wing é uma produção muito mais próxima ao público é o documentário especial da terceira temporada, Documentary Special. Nele temos a presença de pessoas reais da Casa Branca dando entrevistas de como era o dia-a-dia na Ala Oeste. A participação dos ex-presidentes Bill Clinton, Jimmy Carter (1977-1981) e Gerald Ford (1974-1977) demonstram a reputação e o reconhecimento que a série tinha na época.

Voltando a falar da época em que cada série foi ao ar, é importante lembrar que durante The West Wing tivemos o ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, e a série não deixou isso passar em branco. O episódio especial “Isaac and Ishmael” também na terceira temporada, faz uma linda homenagem ao fato, mas com a leveza e a sutileza de não mencionar o acontecido. Um episódio que traz muito conhecimento sobre o mundo que vivemos hoje e que todos deveriam assistir, mesmo quem nunca nem sequer assistiu séries na vida. Inclusive, foi esse episódio que me fez querer assistir The West Wing.

Como produção, talvez House of Cards esteja um pouco a frente mas também precisamos levar em conta que The West Wing estreou em 1999. Assim, The West Wing estava muito além de seu tempo trazendo à tona assuntos que na época eram muito delicados como o protagonista sendo portador de esclerose múltipla e a presença da atriz Marlee Matlin. Conhecida pelo seu papel em Switched at Birth, Matlin é a única atriz com deficiência auditiva a ganhar um Oscar na categoria de Melhor Atriz e em The West Wing ela possui um importante papel como a analista política Joey Lucas, estando presente em todas as temporadas. Além disso, devemos levar em consideração o fato de The West Wing ter sido exibida na TV aberta e House of Cards na Netflix muda a relação da série com seus telespectadores.

A principal semelhança entre as séries é o neoliberalismo, com ambos os Democratas tentando passar reformas políticas. Não podemos deixar de lembrar que House of Cards teria prestado homenagem a The West Wing no episódio Chapter 30, no qual o presidente Frank Underwood cospe em uma estátua de Jesus Cristo dentro da Catedral Nacional de Washington. Fazendo menção, então, ao episódio “Two Cathedrals” de The West Wing (2×22), quando o presidente Jed Bartlet fuma um cigarro e joga a bituca no chão da mesma igreja. Assim, como o fato dos dois presidentes fumarem também devemos lembrar que ambos têm ao lado esposas com personalidades muito fortes e que de uma certa forma estão sempre os ajudando, mesmo sendo mulheres completamente diferentes.

Apesar das duas séries serem sobre dramas políticos, elas são muito diferentes. Sabendo a base de fãs que House of Cards possui e o fato de The West Wing não ser tão discutida atualmente, faz a escolha entre elas no mínimo complicada.  Mesmo as duas séries tendo muito jogo político, o foco de The West Wing é política e comunicação, enquanto a preocupação de House of Cards se baseia em poder, sem crença ou idealismo.

Não só em ideais e princípios os dois presidentes se diferem. Logo de cara, notamos que Bartlet tem muitos aliados ao seu lado, além de toda a sua equipe da ala Oeste e a falta de escândalos. Já Underwood, em certos momentos não sabe nem se sua sua própria esposa o apoia, tanto Claire (Robin Wright) como o Chefe de Gabinete, Doug Stamper (Michael Kelly), algumas vezes agem pelas costas de Underwood. Isso nos faz pensar o quão eficaz ele realmente é.

Ao comparar as duas séries podemos dizer que The West Wing não é maquiavélico como House of Cards. Para início de conversa, Bartlet nunca matou ninguém com as próprias mãos, ainda mais para seu próprio sucesso como Underwood fez mais de uma vez. Ao assistir The West Wing, com Bartlet no poder, o telespectador fica interessado em trabalhar na Casa Branca, em um mundo onde as coisas funcionam como deveriam. Já ao assistir House of Cards, Underwood nos faz querer fugir para Marte.

E o vencedor é…

Levando em conta o mundo em que vivemos hoje, com todos os problemas que nos cercam, assistir The West Wing certamente é mais prazeroso e relaxante, além de ser divertido acompanhar os foras que o Josh leva e os comentários sagazes de Bartlet. Podemos resumir, então, The West Wing como sendo um sonho e House of Cards um pesadelo e é por isso que a primeira é a vencedora deste Ringue Mix.

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