O criador de Round 6 (Squid Game), Hwang Dong-hyuk, revelou em entrevista ao The Hollywood Reporter que o final da história de Gi-hun na terceira temporada foi drasticamente diferente de sua ideia original. A decisão de encerrar a trajetória do protagonista com um sacrifício impactante não estava nos planos iniciais, mas surgiu conforme Hwang refletia sobre as mensagens centrais da série — especialmente a crítica feroz ao capitalismo e à ganância humana.
Na terceira temporada, Gi-hun morre para salvar o bebê de Jun-hee, tornando-se símbolo de um ato de altruísmo em meio à brutalidade do jogo. Para Hwang, essa foi a melhor forma de concluir o arco do personagem: “Quis entregar uma mensagem poderosa ao mundo. Gi-hun precisava morrer para que esse impacto fosse sentido”, afirmou o criador.
Final original: sobrevivência e reencontro com a filha
Inicialmente, Hwang planejava uma trajetória menos trágica para Gi-hun. A ideia era que ele encerrasse os jogos na Coreia, sobrevivesse e fosse até os Estados Unidos reencontrar sua filha. Em Los Angeles, no entanto, Gi-hun avistaria uma recrutadora americana do jogo — o que deixaria claro para o espectador que a competição mortal ainda existia em outros países.
Essa proposta, segundo o diretor, reforçaria a metáfora da hidra: cortar uma cabeça do monstro capitalista não impediria outras de surgirem. Contudo, à medida que escrevia os episódios e acompanhava os eventos globais, Hwang mudou de perspectiva. “Percebi que Gi-hun precisava enviar uma mensagem mais forte. Um gesto simbólico, não apenas sobreviver”, explicou.
O poder do sacrifício

Ao longo de Round 6, Gi-hun passa de um homem egoísta e falido a alguém disposto a dar a vida por um inocente. A frase inacabada “os humanos são…” dita antes de sua morte marca essa transformação. Seu ato altruísta não foi apenas uma despedida comovente, mas também uma crítica social contundente.
Se ele tivesse sobrevivido, como no plano original, a série perderia parte de sua carga simbólica. O reencontro com a filha traria uma sensação de esperança individual, mas ofuscaria o retrato coletivo de uma sociedade adoecida por ganância, desigualdade e desumanidade.
Reflexão sobre o mundo real
Hwang deixa claro que a mudança no roteiro não foi apenas criativa, mas também política. Ao mostrar que os jogos continuam nos EUA mesmo após o fim da edição coreana, Round 6 sublinha que o sistema é global. “A mensagem é que o problema não está apenas nos jogos em si, mas no mundo que os permite”, diz o criador.
Nesse sentido, a morte de Gi-hun é também uma crítica à ineficácia de pequenas vitórias individuais contra estruturas opressoras. Ainda que a atitude dele seja nobre, ela não é suficiente para acabar com o ciclo — apenas inspira uma nova resistência.
Um final corajoso e necessário
A decisão de matar Gi-hun certamente dividirá opiniões entre os fãs. Muitos torciam por sua sobrevivência e redenção ao lado da filha. No entanto, Hwang defende que o encerramento trágico é mais fiel ao espírito da série.
“Foi doloroso para mim também”, admite o diretor, “mas eu precisava contar essa história até o fim. E, para isso, Gi-hun precisava fazer o sacrifício final.” A escolha deu um encerramento simbólico e filosófico à jornada do personagem, encerrando Round 6 com a força de um manifesto.
Agora, com Round 6 encerrada de forma definitiva, resta saber o que Hwang Dong-hyuk planeja para o futuro. Seja como for, a jornada de Gi-hun deixa uma marca inesquecível na história da televisão moderna.