A salvação da TV aberta?

this is us

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Seria This is Us a salvação da TV aberta?

Primeiro: não, não seria.

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Segundo: a TV aberta não precisa ser salva.

É verdade, contudo, que a TV aberta não tem o mesmo brilho de antes. Eu comecei este parágrafo comentando que ela não tinha o mesmo poder, mas seria um equívoco. As emissoras abertas e seus produtos ainda possuem notório poder. O que falta, portanto, é certo grau de interesse e criatividade. Temos muita gente talentosa em redes como CBS, ABC e afins, mas uma galera está migrando – ou já migrou – para os canais fechados. Por quê? Liberdade, meu amigo. É isso que um artista quer, no final do dia.

Virou chavão dizer que a TV é um celeiro de liberdade criativa. E é verdade. O ponto é que, com o tempo, a televisão passou a moldar essa liberdade. Problemas clássicos do formato saltam logo de início: sem palavrões, sem violência e sem nenhum sinal de nudez ou sexo. Você pode pensar que uma história não precisa disso para ser boa. É verdade. This is Us, por exemplo, não tem e não precisa de nada disso. Mas como aguentar Lethal Weapon e sua polidez absurda? Como engolir No Tomorrow e seu casal que sempre transa de roupa.

Com isso, a TV aberta afugenta os autores que querem algo mais próximo da realidade e livre de amarras. Um lugar que permita, ao menos, o uso da palavra shit (a popular merda aqui no Brasil). The Good Place, da NBC, brinca muito bem com isso. A protagonista morreu e está no paraíso e lá todo palavrão é automaticamente trocado por uma palavra semelhante inofensiva. É uma crítica leve e direta ao engessamento de um televisão que até aceita o crânio de uma pessoa se partir em mil pedaços, mas se ofende com um bumbum à mostra.

Mas sigamos em frente, pois isso não vai mudar na TV aberta. E mesmo com esses problemas, ela não precisa ser salva. O que ela precisa é de uma oxigenada. Uma reforma na casa, entende? Pra começar, precisa parar com os remakes e reboots inúteis. A questão não é parar de produzir esse tipo de programa, mas trabalhar com ideais mais interessantes. Pegue e analise brevemente a atual fall season: Lethal Weapon e McGyver são totalmente descartáveis pois não injetam nada novo às franquias ou à televisão em geral. The Exorcist, por outro lado, era esperada com desdém pelo público e crítica e, no fim das contas, é uma ótima releitura do clássico literário e cinematográfico. Por quê? Simplesmente porque tenta fazer algo novo e corajoso com o material.

Além disso, os canais abertos precisam mudar os ares e dar uma freada em suas manias: o número de séries sobre advogados e médicos que sai a cada temporada é absurdo. As mudanças são poucas, sempre ficando no “advogado/o que é excelente no que faz, além de ser uma pessoa lindíssima, que se junta a um grupo ou a outro profissional lindíssimo para investigar e lutar contra algo muito maior que eles”. O mesmo serve para os projetos que acompanham pessoas com talentos distintos que se unem ao FBI (polícia, CIA ou qualquer outro equivalente) para desvendar crimes. Chega!

Por que This is Us estampa este editorial e serviu como inspiração? Porque a série é uma das coisas mais bacanas que surgiu nessa fall season. Ela faz aquilo que outras poderiam ter feito: pega um formato conhecido e exaustivamente trabalhado (o drama familiar) e dá uma nova roupagem. O modo como os roteiristas abordam certos temas e contam sua história, furtando-se de duas linhas temporais, é algo inédito no subgênero dos dramas intimistas que acompanham famílias e suas aventuras cotidianas. Assim, This is Us não é a salvação da TV aberta, mas pode ser um bom exemplo a ser seguido.

2 comentários

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  1. Avatar
    Juk 16 outubro, 2016 at 11:05 Responder

    Eu acho que de certa forma a TV aberta precisa de uma mudança sim. É chato você ver uma série de ação em que não há um palavrão. Que mundo é esse onde policiais não falam um foda-se, merda, etc? A real é que essa censura em palavrões, sexo e nudez não adianta de nada. Porque nos jornais são mostrados cenas violentas e eles passam na hora do almoço. E hoje em dia, nós temos a internet e esse argumento da censura servir pra criança não ver certas cenas não funciona mais porque o que ela não vê na TV, ela vai pesquisar no Google e achar.

    Não adianta privar essas coisas porque é só pegar o celular, entrar no Google e pesquisar por ‘filme porno’, ‘xvideos’ ou até mesmo no Youtube que se encontra uma infinidade de coisas que são tidas como proibida na TV porque não é pra criança.

    E além dessa censura sem argumentação, está na hora da TV aberta aprender que ninguém aguenta mais séries de 22 episódios. Isso funcionava no início quando a quantidade de séries eram poucas, hoje um seriador assiste mais de oitenta séries e dessas umas vinte são de 22 episódios. Esse formato enjoa.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 16 outubro, 2016 at 15:25 Responder

      Você tem toda a razão, Juk. É como comentei no texto, é difícil engolir a polidez de Lethal Weapon, por exemplo. Poxa, os caras não falam uma palavrão sequer, não xingam, nada, nada. E você aponta uma coisa super válida, o fato de que hoje as pessoas têm acesso fácil e rápido a qualquer coisa na internet.

      Outro ponto que você levanta e é muito válido é o fato das séries terem mais de vinte capítulos. Isso cansa e já passou da hora de mudar. Felizmente, vários canais já estão investindo em temporadas menores, principalmente emissoras como Fox, CW, etc.

      Então, como comentei, a TV aberta precisa de uma mudança, com certeza. Mas ela não precisa ser salva. Ela vai muito bem na audiência e rios de dinheiro seguem entrando nessas produções. A mudança precisa vir mais no método de produção mesmo. Se não, daqui um tempo a coisa vai ficar ainda pior. :/

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