A Netflix segue apostando forte em thrillers europeus densos e incômodos, e Salvador é mais um exemplo disso. A produção espanhola chegou discretamente ao catálogo, mas entrega uma história pesada, emocionalmente difícil e que vai além do suspense tradicional. A grande pergunta é: vale ou não vale dar o play?
Sobre o que é Salvador?
A série acompanha Salvador Aguirre, vivido com intensidade por Luis Tosar, um ex-médico que perdeu praticamente tudo por conta do alcoolismo e do vício em jogos. Hoje, ele trabalha como motorista de ambulância em Madri e tenta, aos poucos, reconstruir a própria vida. O maior fantasma do seu passado é a relação quebrada com a filha, Milena, já adulta e completamente distante.
Tudo muda em uma noite marcada por um jogo de futebol de alto risco entre torcidas violentas. Salvador se vê no meio de confrontos urbanos envolvendo um grupo neonazista conhecido como White Souls. Em meio ao caos, ele descobre algo devastador: Milena está ligada ao grupo extremista. A partir daí, a série deixa de ser apenas um thriller policial e se transforma em um drama sobre culpa, paternidade tardia e radicalização.

O que funciona bem na série?
O maior trunfo de Salvador é, sem dúvida, a atuação de Luis Tosar. Ele constrói um protagonista cansado, arrependido e constantemente à beira do colapso. Mesmo quando o roteiro escorrega, Tosar sustenta a narrativa com uma presença forte e humana.
Outro ponto positivo é a ambientação urbana. Madri surge como um espaço tenso, marcado por violência latente, intolerância e omissão institucional. A série não suaviza o tema do extremismo: os atos racistas, os ataques e o clima de ódio são retratados de forma crua, o que pode incomodar, mas também reforça a proposta da história.
Onde Salvador tropeça?
A narrativa, especialmente no primeiro episódio, exige paciência. A ligação entre o jogo de futebol, as torcidas e o conflito racial nem sempre é bem explicada, o que pode confundir quem não está familiarizado com esse tipo de contexto europeu. Algumas escolhas de roteiro também soam excessivamente didáticas, com diálogos que explicam mais do que mostram.
Além disso, a série levanta boas questões, mas ainda deixa dúvidas sobre como irá aprofundar o passado de Salvador e Milena. A ausência de flashbacks mais claros pode frustrar quem espera respostas imediatas.
Então, vale ou não vale assistir?
Vale assistir, sim, especialmente se você gosta de thrillers mais sombrios, com carga emocional pesada e temas sociais fortes. Salvador não é uma série leve nem feita para maratonar com distração. Ela pede atenção, paciência e disposição para encarar uma história sobre erros irreversíveis, extremismo e a dor de tentar ser pai quando talvez já seja tarde demais.
Não é perfeita, mas é corajosa, incômoda e relevante. Para quem busca algo além do suspense convencional da Netflix, Salvador merece uma chance.