A segunda temporada de Sandman tem mergulhado fundo nas fraquezas emocionais de seus personagens — e no episódio 4, a série da Netflix entrega seu momento mais devastador até aqui. Sob o disfarce de uma jornada em busca de Destruição, o capítulo revela, na verdade, um Sonho (Morpheus) quebrado, inconsequente e cada vez mais desconectado de quem um dia pensou ser.
E, no meio do caminho, vemos o preço de suas escolhas recair sobre Wanda, que acaba morta em uma das sequências mais simbólicas e tristes da temporada.
O peso do arrependimento: Sonho tenta encontrar Nada em Sandman
Ainda lidando com a rejeição definitiva de Nada, que no episódio anterior de Sandman deixou o Sonhar para viver livre no mundo desperto, Sonho se vê em crise. Ele reconhece que nunca amou de verdade, e mais: que sua visão de amor foi distorcida por orgulho e controle. Nada o forçou a se olhar no espelho, e o que ele viu não foi bonito.
É nesse momento de luto e confusão que Delírio, sua irmã mais nova, aparece. Em sua essência caótica e sensível, ela propõe uma busca improvável: encontrar Destruição, o irmão mais velho dos Perpétuos, que abandonou seu posto séculos atrás. Sonho reluta, mas a ideia de cruzar com Nada no mundo desperto o convence. A busca por Destruição vira um disfarce conveniente para uma missão bem mais pessoal.
Delírio e o gatilho emocional: manipulação ou afeto?
Delírio aparece com uma lista enigmática de pessoas que, segundo ela, tiveram contato com Destruição: um mortal de longa vida, uma divindade e uma figura mítica. A primeira parada seria Bernard Capax — um homem com memórias da Era do Gelo. Mas antes que pudessem encontrá-lo, recebem a notícia de que Bernard morreu em um acidente.
A morte não parece coincidência. Para Sonho, é um sinal claro de que alguém — talvez o próprio Destruição — está impedindo o reencontro. Mas ele decide continuar, mesmo sabendo dos riscos. E aqui fica evidente o conflito: Sonho já não busca o irmão, mas sim a chance de esbarrar com Nada, numa espécie de obsessão que flerta com o egoísmo.
Conhecendo Wanda: humanidade em meio aos imortais
É então que conhecemos Wanda, assistente de Pharamond (o deus disfarçado de empresário Farrel). Ela assume o papel de motorista e guia de Sonho e Delírio, com uma presença acolhedora e sincera que contrasta com a frieza dos Perpétuos. Wanda é uma mulher trans, e sua história é contada com delicadeza: sua transição na adolescência, o afastamento da família conservadora, e a metáfora do Mágico de Oz como espelho de sua trajetória.
Wanda não quer piedade — quer ser vista. E pela primeira vez na temporada, Delírio e até mesmo Sonho parecem realmente escutar. É uma pausa tocante na jornada mitológica, e que nos prepara para o choque que virá.

Ishtar, a deusa esquecida, e a dança da destruição
A segunda visita é à deusa Belili, conhecida no mundo desperto como Ishtar — ex-amante de Destruição e dançarina em um clube noturno. A recepção é tensa: Ishtar culpa Sonho por afastá-la de Destruição, revelando que seu conselho teve consequências desastrosas. Sonho tenta avisar sobre o perigo, mas Ishtar sabe que sua hora chegou. Ela sobe ao palco, dança com todo seu poder ancestral, e, em uma cena arrebatadora, reduz o clube — e todos ali — a cinzas.
Wanda está entre os mortos.
Wanda morre: culpa, perda e a farsa desmascarada
A morte de Wanda em Sandman é mais do que uma tragédia pessoal: ela é o preço da imprudência de Sonho. Mesmo tendo consciência dos riscos após a morte de Bernard, ele seguiu adiante — por orgulho, por carência, por desejo. No fim, Delírio é quem sente o golpe com mais força. Ela confiava em Sonho. Acreditava que sua companhia era por afeto fraternal. Mas não. Ao final do episódio, quando confrontado, Sonho admite: ele estava ali por Nada, não por Destruição. Delírio se despede, decepcionada, e pede para nunca mais ser procurada.
Desespero e Desejo observam à distância, como sempre. E é Desejo quem joga a verdade no rosto de Sonho: Wanda morreu porque ele escolheu agir com o coração no lugar errado. Ele sabia. E ainda assim, prosseguiu.
Sonho em queda: o herói da razão cede ao ego
O episódio 4 de Sandman desmonta qualquer visão romantizada que restava de Sonho. Sua rigidez, que antes era interpretada como justiça ou nobreza, agora soa como orgulho ferido, camuflado em desculpas poéticas. O contraste entre sua frieza e a generosidade de Wanda escancara a verdade: entre os Perpétuos, é nos mortais que encontramos a verdadeira empatia.
A dor de Wanda não está apenas em sua morte, mas em tudo o que ela representava: uma mulher que viveu à margem, rejeitada pela própria família, e que mesmo assim escolheu acolher. Sua perda é o ponto de ruptura emocional da temporada.
Uma temporada que expõe as feridas do divino em Sandman
Com este episódio, Sandman deixa claro que sua narrativa não é sobre mitologia, mas sobre consequências. Os Perpétuos não são deuses — são arquétipos. E quando esses arquétipos se desviam de seus papéis, vidas reais são destruídas.
Sonho perdeu mais do que uma oportunidade de redenção. Perdeu a confiança de sua irmã mais pura. Perdeu a chance de honrar a memória de Wanda. E talvez, pela primeira vez em sua existência, tenha sentido o que é ser humano: falho, arrependido, e impotente diante do irreversível.